A epidemia não alcança os andares invisíveis

24 de Fevereiro de 2020 - 18h01 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Em tempos de cólera canarinho (da irritação violenta à doença epidêmica infecciosa que ataca o discernimento e a empatia), o milionário Paulo Guedes, incrivelmente ainda ministro, consegue a cada semana agredir e humilhar brasileiros e brasileiras de todas as querências (licença poética do refrão do querido Nico Fagundes). Seu projeto de redução da aposentadoria dos comuns e mortais lança à miséria a maioria da população. Mas não mexeu da mesma forma na do judiciário e das forças armadas, por exemplo, dos que julgam e dos que manejam os canhões. Tampouco tocou nas fortunas de seus amiguinhos. É bom lembrar que 10% dos brasileiros abocanham mais de 40% da renda do país. É um governo para milionários e para quem os protegem.

Guedes ainda ganha R$ 8.000,00 extra para beber e comer e outro tanto para estar no Rio de Janeiro. Pobrezinho. Depois ameaçou com o retorno do AI-5: a desmemória e o cinismo são sintomas da doença. É possível que o cérebro do riquinho esteja consumido de sua metade, apenas poupando as maquinações e decisões maldosas. Dizem que a doença se manifesta desta maneira: mata qualquer bondade, justiça e verdade. Há pouco, o desvario atingiu os pobres, apontados como responsáveis pelo desmatamento; logo, os funcionários públicos e as empregadas domésticas. Fosse ministro de outro país, estaria demitido, em quarentena e em rigoroso tratamento psiquiátrico para pessoas ruins. Ele e mais os ministros do Meio-ambiente, da Mulher, família e dos direitos humanos, das Relações exteriores, da Educação e toda a família palaciana.

O vírus, magnaplanus ou, em tradução livre, chinelão, faz com que as pessoas achem bacana a censura, o aumento da desigualdade, a morte de indígenas, a ascensão da teoplutocracia, as milícias, a supremacia da mentira e da ignorância, o fim das artes, da literatura e a condenação da educação e da diversidade. O governador de Rondônia, do PSL, o ex-coronel Marcos Rocha, contaminado pelo chinelão, tentou censurar Machado de Assis e Mário de Andrade. Doria, do PSDB e governador de São Paulo, censurou García Márquez e Albert Camus, para termos uma ideia do avanço da epidemia. Porém, para a nossa sorte, o vírus ainda é incapaz de alcançar os andares invisíveis onde são forjadas e residem a poesia, a prosa, a música, a dança, o cinema, o teatro e as artes visuais.

Para não adoecer e abandonar-se à ingestão de psicotrópicos: poesia e boa literatura. Para não imbecilizar-se ou converter-se em um fascista: o amor consensual e livre. Para não endurecer as ideias, cristalizar o olhar e suprimir a sensibilidade: muitas dúvidas e nenhuma certeza. Para não difundir mentiras e crendices: estudo, ciência e pesquisa. Aprendemos dos andares invisíveis no livro de crônicas Andar térreo, de Paulo Rosa. Meu querido amigo cronista escreve de maneira generosa, leve, mas contundente, conduzindo o leitor ao longo dos cinco andares em construção, como a interminável Sagrada Família, do Gaudí. Paulo, na Andar térreo, se revela um avô carinhoso, debruçando sua escrita sobre os netos que ama tanto. No primeiro andar, é a vez das artes e dos artistas. Ai, Fernanda Montenegro! No segundo, o cronista das segundas-feiras do Diário Popular compartilha temas diversos, do amor à admiração por Luis Fernando Veríssimo, Nietzsche e Freud. Quem não? A psicanálise e doses de humor estão no terceiro andar. Aldyr Schlee, autor do excelente Don Frutos, vive e nos olha desde o quarto andar. Quintana, Ferreira Gullar, Chiarelli, Calvino, Maria Carpi, Drummond entre tantos, nos divertem nos espaços infinitos do quinto. O livro do Paulo é para estar na cabeceira como uma leitura vital que nos imuniza da burrice e da chinelagem. Leia antes que o vírus do chinelão te alcance e comeces a achar bacana a queima de livros e a agressão às mulheres.

 


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados