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A dúvida do Magnata

15 de Maio de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Roni Quevedo, médico

Doutor, boa tarde. Preciso de sua orientação psiquiátrica. Sou magnata do tabaco. Minha empresa produz cigarros para vários continentes. Nosso lucro nos permite comprar o que queremos, quase que totalmente sem limite. Somos a terceira maior receita do mundo. Em nossa frente está a indústria armamentista e os laboratórios farmacêuticos. Não computamos os produtos de comércio ilícito.

Na produção dos cigarros determino como tudo tem de ser feito. É tudo bem pensado, elaborado, criado de uma forma que cause dependência.

Pago muito bem e tenho elevado apreço à dedicação dos meus funcionários. A intenção minha (da empresa) é buscar cada vez mais fumantes, mais e mais dependentes, este é o objetivo.

No meu caso, preciso lucrar muito, custe o que custar.

Proporcionar um relativo prazer e muita dependência para as pessoas.

Minha indústria gera duvidosos rendimentos para o governo federal, mas por outro lado estamos contribuindo com a economia, criando novos empregos. Anualmente são mais de 156 mil mortes. Portanto, empregos.

Meu produto, embora lícito para os adultos, está matando muita gente. Desse jeito estou perdendo, estou literalmente aniquilando seus usuários. Vamos investir em formas mais modernas de adição.

Os fumantes sobreviventes, os que adoecem gravemente, ou aqueles raros que buscam mais orientação, estão abandonando o vício.

Estão entendendo que o prazer imediato é um atrativo que não compensa pela qualidade de vida no futuro e pelo processo de escravidão permanente. Com isso as vendas despencaram. Estou preocupado com futuro da empresa, com meu futuro, vou viver de quê?

O objetivo agora é buscar novos dependentes. Sabemos que tabagismo é uma doença pediátrica, estamos muito concentrados numa estratégia trabalhosa, mas muito bem articulada. Começamos a adicionar sabor de frutas aos cigarros, para que os jovens não desistam na primeira baforada, fumada ou tragada.

Realmente para muitos a primeira vez é intragável, desculpe o trocadilho.

Esse é um investimento delicado e muito forte, "sensibilizar" as crianças, os jovens, para provarem o cigarro com sabor. Preciso de mais dependentes, muitos mais.

Doutor, agora vem o meu problema:

- Meus filhos são jovens, crianças ainda! Como vou protegê-los?


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