Editorial

A Disney é uma fantasia de ministro

14 de Fevereiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Entre o que o ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou durante o encerramento do Seminário de Abertura do Ano Legislativo, organizado pela revista Voto, e a realidade, existe uma distância gigantesca, do tamanho que costuma separar a realidade da ficção. Em Brasília, durante o evento, Guedes voltou a causar espanto, agora ao comentar o preço do dólar: "Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vou exportar menos, substituição de importações, turismo, todo mundo indo para a Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada."

Respaldado pela repercussão de suas palavras na semana anterior, quando comparou o funcionalismo público a parasitas, o que o levou a pedir desculpas depois, o ministro da Economia tratou logo de esclarecer seu comentário, apesar do estrago já feito: "...mas antes que falem: 'Ministro diz que empregada doméstica estava indo para a Disneylândia'. Não. Ministro está dizendo que o câmbio estava tão barato que todo mundo estava indo para a Disneylândia, até as classes sociais mais baixas".

Na realidade nacional, os fatos se chocam com aquilo que o homem responsável por conduzir a economia nacional pensa. E aqui saltam os dados oficiais, de um Brasil mais pé no chão, onde as domésticas - e também outros milhões de trabalhadores com renda menor - não conhecem o significado da palavra férias. Dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad) Contínua, do IBGE, por exemplo, mostram que a última crise econômica causou mudanças no exercício do trabalho doméstico e levou quem desempenha a atividade, desde 2012, a atuar em duas casas para poder sobreviver. Uma dupla jornada com impacto direto na vida pessoal e na saúde dessas trabalhadoras. Acordam cedo, têm pouco tempo para fazer as refeições, correm a todo momento para se deslocar entre um emprego e outro, voltam tarde para a casa e abrem mão do maior convívio com a família.

E, definitivamente, não encontram espaço na agenda, e dinheiro na carteira, para ir à Disney.


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