Artigo

A cidade de Pelotas no mapa-múndi

Texto escrito por Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

10 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Ao centro, Pelotas representada no mapa em 1860 (Foto: Reprodução)

Ao centro, Pelotas representada no mapa em 1860 (Foto: Reprodução)

Mapa publicado pela Johnson’s New Illustred (Steel Plate) Family Atlas, em Nova York em 1860 (Foto: Reprodução)

Mapa publicado pela Johnson’s New Illustred (Steel Plate) Family Atlas, em Nova York em 1860 (Foto: Reprodução)

Detalhe de uma embarçação no Oceano Atlântico, em 1860 (Foto: Reprodução)

Detalhe de uma embarçação no Oceano Atlântico, em 1860 (Foto: Reprodução)

Por: Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

"O porto de Pelotas. Uma alfândega foi criada depois de um ano e meio em Pelotas, em 1877-78; 23 navios estrangeiros entraram em seu porto, bem como a corveta de guerra inglesa Beacon, tendo um tirante de água de 9 e ½ pés ingleses. A cidade de Pelotas está situada sobre o Rio-Gonçalo, a aproximadamente 6 milhas de sua embocadura (...). Seu porto é acessível a todos os navios que possam passar a barra de Rio-Grande. O canal da barra do Rio-Gonçalo tem uma profundidade de 11 pés ingleses ou 3m30 e ele deve ainda ser aprofundado (...). Em seu porto se faz um grande comércio de couros, sobras de couro, carne seca (...) e outros produtos" (Bulletin de la Société de géographie commerciale de Bordeaux, 1879, p. 161).

Publicada sob o título "Brasil" num importante boletim francês, a notícia delimitava a consolidação de um acontecimento: Pelotas havia entrado na rota das grandes navegações. Dos primitivos barcos de couro cru que possibilitavam a travessia de pessoas e objetos pelo canal de São Gonçalo (no século 18), passando pela eclosão das charqueadas nas margens do arroio Pelotas, bem como à chegada de navios nacionais e estrangeiros de grande calado que transportavam passageiros e mercadorias (no século 19), Pelotas tem sua origem e seu desenvolvimento indissoluvelmente vinculados ao fenômeno das embarcações. Fenômeno este que João Simões Lopes Neto colocou em primeiro plano em sua Revista do 1o Centenário de Pelotas.

Revista que explora uma vasta e diversificada documentação iconográfica (que outro intelectual brasileiro terá feito no início do século XX algo nestes moldes para contar a história de sua cidade?), o primeiro anúncio que nela surge é o da propaganda de um "Agente da Companhia de Vapores - Comércio e Navegação". A escolha não é fortuita: Simões tinha muita clareza do papel desempenhado pela hidrovia para o surgimento da urbe. Ao tratar das qualidades visionárias e empresariais de Antônio José Gonçalves Chaves (o segundo nome que surge na lista da "Galeria dos Fundadores"), ele enfatiza: "Dentre os empreendimentos de maior alcance em que se envolveu, destaca-se o trabalho que com Domingos José de Almeida iniciou para preparar a abertura da barra do S. Gonçalo (...); trabalho de previsão, esse, de tão fecundo resultado, e que só quarenta e quatro anos mais tarde devia ser executado". Ainda na Revista do 1o Centenário de Pelotas, ele faz questão de ressaltar que foi o filho de Gonçalves Chaves, Antônio, nascido em Pelotas em 1813, quem "organizou a Companhia da Desobstrução da Foz do S. Gonçalo (...) realizada em fevereiro de 1876, data (dia 11) em que transpuseram a barra do S. Gonçalo - pela vez primeira - navios de alto bordo".

Como bem lembrou a historiadora Ester Gutierrez (valendo-se de Simões Lopes Neto), já em 1833 Domingos José de Almeida e Gonçalves Chaves haviam criado uma associação para a desobstrução do canal de São Gonçalo e estudos chegaram a ser realizados pelo mesmo engenheiro que projetou o Theatro 7 de Abril (Cf. Barro e Sangue, 1999, p. 219). Dedicando-se a também refletir sobre aspectos ligados ao porto da cidade, a historiadora Beatriz Loner observou que antes de ocorrer a desobstrução da barra do São Gonçalo "os produtos tinham que ser enviados em iates para São José do Norte, sendo transferidos então para barcos maiores que viajavam até o destino final das mercadorias, com prejuízo para os negócios da região. Este problema foi resolvido com a entrada em funcionamento, em 1868, de uma empresa com capitais da própria cidade, que se ocupou da dragagem do canal, tendo seu calado sido ampliado para 9 e ½ pés ingleses de água. Assim, a partir de 1876, o porto pelotense começou a receber embarcações maiores, até de 700 toneladas" (Dicionário de História de Pelotas, 2010, p. 197). Sobre a história do porto de Pelotas, aliás, caberia indicar aqui os mais de cinquenta artigos de Guilherme Pinto de Almeida, sob o título "Porto Memória", publicados entre 2016 e 2018 nas páginas do Diário Popular.

Sempre me chamou a atenção o fato de que Pelotas (que não é uma capital) surja em vários mapas que representam o mundo no século XX. Quando sua representação terá entrado na cartografia mundial? Não tive ainda oportunidade de investigar a questão em grandes bibliotecas nacionais e estrangeiras, mas recentemente descobri um mapa elaborado pelo inglês Alvin Jewett Johson (1827-1884), publicado no Johnson's New Illustred (Steel Plate) Family Atlas, o qual "cartografa todo o território brasileiro e parte da América do Sul". Mapa publicado inicialmente em Nova York em 1860, ele foi reproduzido recentemente no livro A cartografia impressa do Brasil: 1506-1922: os 100 mapas mais influentes, de autoria de Max Justo Guedes (Rio de Janeiro, Editora Capivara, 2012). Seguirei investigando a questão, mas com este mapa deixo também registrada a minha homenagem aos 208 anos da cidade.


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