A casa de Heloisa Assumpção

A casa de Heloisa Assumpção

25 de Janeiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

Nos últimos anos, sempre que passei pela esquina da rua Santa Cruz com Barão de Butuí julguei ver Heloísa Assumpção Nascimento na janela de sua residência. Lembrava-me dela ali devido à fotografia em preto e branco que o pesquisador Guilherme Almeida me mostrara anos atrás. Há poucos dias, quando pedi-lhe a respectiva fotografia, surpreendi-me: na janela da casa estava não ela, mas seu esposo Jonas Plínio do Nascimento, coronel do Exército brasileiro, vestido em seu traje militar. Lembrei então imediatamente de uma frase de Walter Benjamin a propósito de Proust no livro Magia e técnica, arte e política: "O importante, para o autor que rememora, não é o que ele viveu, mas o tecido de sua rememoração, o trabalho de Penélope da reminiscência".


Tenho um afeto particular por Heloísa desde que conheci seu trabalho historiográfico na época em que redigi o prefácio ao volume 2 do Almanaque do Bicentenário de Pelotas. Foi quando então estudei os três volumes de Nossa cidade era assim, editados pela Livraria Mundial em 1989, 1994 e 1999. Mais tarde, li com interesse sua obra Coletânea: viagem, contos, pesquisa histórica, publicado pela Editora Aimara em Pelotas, provavelmente em 1978, na qual ela descreve com a elegância de um olhar voltado para a história da arte suas viagens pela França, Inglaterra, Holanda, Grécia, Tchecoslováquia, Itália, Áustria, Espanha e por Portugal. Posteriormente descobri um verbete sobre sua produção intelectual no Dicionário Bibliográfico Gaúcho, de Pedro Leite Villas-Bôas.


Se como historiadora (que também produziu obras como A pintura em Pelotas no século XIX, Arcaz de Lembranças e Breve histórico do Instituto Nossa Senhora da Conceição, respectivamente em 1962, 1982 e 1995) ela tem a mesma estatura de Mario Osorio Magalhães (1949-2012), como escritora ela ocupa um lugar à parte. Seu primeiro romance, Harmonia excelsa, foi publicado em 1932, ano em que ela também ingressou na Faculdade de Direito de Pelotas, sendo que sua criatividade literária se estende por mais de 60 anos, por meio das obras História das mil ilusões (1937), Tânia (1940), Furna encantada (1955), Praça da Matriz (1964), Haragano (1967), Água de poço (1983), Rio dos Perdões (1996) e A saga dos açorianos (1999). E talvez um dos momentos mais altos de sua carreira como escritora foi quando ela obteve, em julho de 1967, na União Brasileira de Escritores de São Paulo, o 1° lugar (medalha de ouro) do Prêmio Nacional do Clube do Livro, por seu romance Haragano.


Reunindo as poucas informações existentes em livros e na internet sobre Heloísa Assumpção, passo a gostar dela ainda mais. Jurista formada em 1936 pela Faculdade de Direito de Pelotas, ela teria sido a primeira professora de uma Faculdade de Direito no país. Em seguida, lecionou Sociologia e Língua Portuguesa em Escolas Normais e, a partir de 1951, passou a ensinar a disciplina de História da Arte na Escolas de Belas artes de Pelotas, disciplina esta que também ministrou no Curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Pelotas. Parte de sua trajetória foi objeto de estudo de uma ex-aluna da Faculdade de Filosofia da UFPel, Valesca Costa Brasil, que em 2009 escreveu a dissertação A presença feminina na Faculdade de Direito de Pelotas, e em 2012 publicou o artigo Memórias de ex-alunas pioneiras da Faculdade de Direito do Brasil num periódico da UFSM.


Muito há para pesquisar sobre Heloísa Assumpção Nascimento nas entrevistas que ela deu ao Diário Popular, jornal em que era colaboradora, ou em textos a seu respeito editados na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas, onde exerceu o cargo de primeira-secretária quando de sua fundação. Mas penso, sobretudo, naquele sobrado eclético construído na metade do século 20, cujo estilo remetia aos chalés europeus, com telhado inclinado e a fachada principal decorada com motivo enxaimel em pintura de tom amadeirado. Penso que talvez ela tenha tirado a fotografia do esposo (que nasceu em 1915, no mesmo ano em que ela também nasceu, e que veio a falecer em 1993). Lembro então da dedicatória em seu livro Furna encantada de 1955: "Ao Plinio, estas páginas que me estimulou a escrever", e também daquela em A saga dos açorianos (1999): "Para Plínio, com saudade: ausente do bem que adoro, não tenho gosto de nada, na solidão em que vivo, somente o choro me agrada", uma Trova Popular da Ilha de São Miguel que ela resgatou para homenagear o amado.


Penso em tua casa, Heloísa. Na casa pintada de branco com janelas em verde colonial, onde certamente escreveste muitos de teus livros. Talvez tenha sido mesmo tu quem tiraste a foto de teu esposo na janela. Talvez o tenhas feito com aquele teu olhar que guardava algo de uma beleza melancólica. Lamento que tua casa esteja em estado de abandono depois que nos deixaste em 2005. Em tua memória e com a autorização de Guilherme Almeida, prometo publicar esta foto nos próximos dias. Talvez olhando para ela, muitas pessoas possam entender por que, afetivamente, ainda te vejo na janela daquela casa na época de sua construção.

 


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