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A carta que Caminha deixou de escrever

16 de Fevereiro de 2019 - 07h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Aquele belo sul da Bahia, da Ponta de Corumbaú, passando pelo Rio dos Frades, perto do que hoje chamamos Trancoso, cidade de condomínios fechados, de famosos, ricos e pobreza, indo até Cabrália, foi o trecho litorâneo por onde as nove naus e as três caravelas de Cabral singraram, lançaram âncoras e trocaram os primeiros contatos com os Tupiniquins: um sombreiro para você, um cocar de penas para mim, deve ter dito Nicolau Coelho, o primeiro português da esquadra a aproximar-se dos índios, embora sem descer do bote.

Não muitos anos depois, a relação parece que se dava assim: tuas terras, tuas mulheres e tua força de trabalho para mim; minha gripe, o tronco e o disparo de minhas armas de fogo para ti. No dia da chegada de Cabral, os Tupiniquins eram cerca de 85 mil. Desde o ano 1000 D.C., habitavam o litoral bahiano e capixaba em busca da Terra sem Males. Passados apenas setenta anos da primeira troca de presentes, estavam praticamente extintos. O Monte Pascoal, felizmente, ainda está lá porque nenhuma mineradora obteve licença para explorá-lo. Pode ser visto de muitos lugares, embora não seja imponente como poderia se imaginar.

Afinal, se os olhos dos marinheiros avistaram o monte a dezenas de quilômetros da costa, por que, em tempos hipermodernos, mal conseguimos ver o que nos acontece debaixo das ventas? As embarcações carregavam marinheiros, frades e degredados. Ao contrário do que se acredita, Portugal não enviou criminosos para o Brasil. Os degredados, em grande parte, eram pessoas que o Santo Ofício punia por heresia, insuficiência cristã, cripto-judaísmo, bigamia, feitiçaria e desobediência às regras católicas. Um dos castigos: o desterro. Os picaretas de verdade, os ladrões do tesouro, os membros da corte, os tiranos e torturadores, os próprios inquisidores nunca foram punidos.

O Brasil parece que não anda e não aprende! Cabral já sabia da existência do Brasil pelos mapas e lendas. Era uma ilha misteriosa que se afastava do horizonte. Hy Brazil teria sido descoberta por um monge irlandês perto do ano de 565, mas não é precisa a informação. A palavra Brazil provém do celta bress, que deságua no to bless inglês. Hy Brazil seria a terra abençoada, cantada por Jorge Ben Jor séculos depois. Os índios dizimados que buscavam a Terra sem Males provavelmente não concordarão.

Pero Vaz de Caminha registrou a viagem e as primeiras pegadas portuguesas. Talvez não tenha escrito tudo o que viu e nem tenha perdido tempo, tinta e papel com previsões. Mas podemos conjecturar: "Oi, Manuel, tudo bem aí na corte? A travessia foi de boa. Perdemos uma nau que o mar comeu. Infelizmente, não conseguimos gravar a tragédia. Foi da hora. Chegamos no Hy Brazil no 22 de abril e encontramos homens e mulheres nus e cobertos de tinta. Tranquilos, em paz e ingênuos. Falam outra língua, têm religião e costumes estranhos. Mas os frades irão convertê-los ao cristianismo, na marra, e aí será bem fácil de explorar e enganar. Vamos trazer negros da África para serem escravos e trabalharem por nós. Se houver abolição, coisa de esquerdopata. faremos de tudo para que permaneçam pobres e marginalizados. Sem mimimi. As lindas matas vamos devastar, deixaremos a Mata Atlântica com menos de 12% de sua extensão. Concordo com vossa alteza que temos que cobrar altos impostos sem precisar dar retorno à população. A vida tem que ser injusta e quem não estiver contente, que vá ao templo se confortar ou deixe a colônia. Daremos incentivos às grandes empresas, inclusive às mineradoras de Mariana e Brumadinho. Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer, assim cantaremos a negligência e a impunidade, meu rei. As mulheres que se preparem: viver aqui, será um inferno. Resgataremos os valores da inquisição. Nem irei escrever sobre o baita lucro dos bancos nos tempos de crise. Fico por aqui porque tenho que procurar o meu piloto. Amanhã, deposito na tua conta, ok."

Nota de um sobrevivente: leia os livros do Eduardo Bueno, da Coleção Terra Brasilis.

 

 


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