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A antiga balsa na rua Tiradentes

Artigo escrito por Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

29 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -
A balsa no canal São Gonçalo e o frigorífico Anglo ao fundo (Foto: Reprodução)

A balsa no canal São Gonçalo e o frigorífico Anglo ao fundo (Foto: Reprodução)

O tracejado mostra a antiga estrada da balsa e a rua Tiradentes (Foto: Reprodução)

O tracejado mostra a antiga estrada da balsa e a rua Tiradentes (Foto: Reprodução)

Por: Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

Nas últimas semanas busquei refletir sobre por que a designação “Rio das Pelotas” surgia num antigo mapa de 1777, de modo a também compreender por qual motivo (em uma carta de 1779) o governador da Província do Rio Grande caracterizava toda uma região do outro lado do sangradouro da Mirim (Canal de São Gonçalo) como “campo denominado das Pelotas”. Depois de perseguir as embarcações de couro utilizadas para a travessia de rios e arroios entre o estuário do Prata e acima das reduções missioneiras do Paraguai, acabei por concluir que a origem de Pelotas (antes e depois das charqueadas) estava ligada a um fenômeno profundamente náutico.

Mas como uma Freguesia que teve seu desenvolvimento interligado no século 18 a centenas de pelotas cruzando o canal de São Gonçalo e circulando pelos arroios Pelotas e Santa Bárbara (poderíamos também lembrar dos testemunhos de Francisco de Paula d’Azeredo, Saint-Hilaire e Debret nas três primeiras décadas do século 19); como, uma Vila que construiu “em 1832, por iniciativa de Domingos José de Almeida e Gonçalves Chaves, o primeiro barco a vapor do Brasil: a famosa barca Liberal” (Magalhães, História e tradições da cidade de Pelotas, 1981, p. 47); como uma Cidade que drenou o canal de São Gonçalo durante décadas para que navios com grande calado pudessem navegar (a mesma Cidade que foi colocada no mapa-múndi em decorrência das centenas de barcos que chegavam ao seu porto na segunda metade do século 19 e início do 20) pode praticamente esquecer a sua origem náutica?

Num almoço de família, meu pai, que também ficou impressionado com tudo isso, disse-me: “até por volta de 1960 tinha uma antiga balsa no final da rua Tiradentes. Dali é que se ia para Rio Grande”. A frase simples, somada a todas as dúvidas que eu tinha sobre a relação do canal de São Gonçalo (e de seus afluentes) com o traçado urbano do primeiro e do segundo loteamento da cidade, produziu uma conexão em meus pensamentos. Ao retornar para casa, abri o Google Earth e, pelas imagens de satélite, percorri a rua Tiradentes até o seu final no canal de São Gonçalo e vi, do outro lado, o trecho da antiga estrada (ainda em chão batido) que levava para a cidade de Rio Grande (reproduzo aqui uma imagem de satélite e faço nela um traço em amarelo sobre a rua Tiradentes e a referida estrada de chão).

Reabri um livro sobre a história das ruas da cidade e lá estava quase ao final do verbete Tiradentes: “Sempre teve a Tiradentes intenso movimento: antes que se construísse a primeira ponte sobre o São Gonçalo, era por ela, na direção leste, que se tinha acesso à balsa, e da balsa ao município de Rio Grande “(Magalhães, Os passeios da cidade antiga, 1994, p. 104). Consulto também um romance que a escritora Laura Meyer publicou aos 82 anos e lá também está a informação. Narrativa que transcorre entre os anos de 1937 até por volta de 1954, num determinado momento encontramos o casal Carlos Augusto (Guto) e Elisabeth (Beth) em visita a Pelotas. Depois de encantarem-se com o centro histórico da cidade eles “aprontaram-se para a travessia do rio São Gonçalo na velha balsa. Nela subiram desde veículos leves e de carga até carros de tração animal. Depois, rumo ao extremo sul, a estrada cortava a vasta planície” (Os Mergulhões, 2014, p. seção 3).

Súbito fez sentido para mim (que há décadas percorro a cidade) porque a rua Tiradentes sempre teve casas tão antigas ao longo de seu trajeto; súbito compreendi que esta rua de sentido transversal atravesse o centro histórico, cruze ao lado do Mercado Central de Pelotas e desemboque no canal de São Gonçalo; súbito entendi que construções centenárias, tal como o casarão em que Dom Pedro II ficou hospedado quando de sua vinda a Pelotas no século 19 (o antigo Colégio Salles Goulart, em frente aos Correios) ou o prédio da Faculdade de Odontologia ficassem próximos desta rua (veja-se que a rua chama-se Tiradentes desde 1889; e diga-se de passagem que o mártir Tiradentes era dentista).

Construir a Ponte Alberto Pasqualini em 1960 próximo da antiga ponte ferroviária sobre o canal de São Gonçalo (inaugurada em 1884) foi uma tentativa de fazer o transporte por via rodoviária escoar à margem da cidade? Ponte interditada em 1974, ela foi substituída em 1976 pela Ponte Léo Guedes. Para todos aqueles que antigamente chegavam a Pelotas, cruzavam o canal de São Gonçalo pela balsa e logo subiam a Tiradentes, fazia um enorme sentido o traçado das ruas do porto e do centro histórico da cidade. Fazia também sentido o fato de ali estar localizado o Clube de Veleiros Saldanha da Gama (fundado na década de 1940). Cidade com potencial turístico, nunca se pensou em fazer naquele trecho a construção de uma ponte tão somente para o trânsito de pessoas e veículos leves? Que impacto teria para a valorização dos moradores da Balsa? Não encontro respostas, mas tenho uma certeza: resta muito a pesquisar sobre o tema.


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