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1933, O Golpe de Terra

Há 80 anos o Uruguay estava terminando uma das etapas mais importantes de sua história: era o fim da “República Batllista”

22 de Março de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Carlos Gil Turnes, colaborador

Há 80 anos o Uruguay estava terminando uma das etapas mais importantes de sua história: era o fim da “República Batllista”. Essa etapa, iniciada timidamente a partir de 1890 foi liderada por José Batlle y Ordoñez, sem dúvida o político mais influente no processo de consolidação dos valores que levaram a considerar o pais do Prata como a “Suíça da América”.

Batlle y Ordoñez foi eleito presidente constitucional do Uruguay em 1903 com a oposição do Partido Nacional (Blanco) e com receio pelos grupos conservadores do Partido Colorado. A designação do chefe político do departamento de Rivera por Batlle, que desde o acordo entre ambos partidos que pôs fim ao levantamento liderado pelo poderoso estancieiro e caudilho blanco Aparício Saraiva em 1897, dois anos após o fim da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, era escolhido por ele, levaram a um novo levantamento conhecido como a Guerra Civil de 1904. Batlle assume o comando das forças constitucionais e acaba com as guerras civis no Uruguay. Mas ao mesmo tempo em que tomava as medidas necessárias para controlar os sublevados, iniciava o processo de modernização do país e, principalmente, da fundação dos valores em que se organizaria essa nova nação na virada do século quando era um polo de imigração europeia. O Registro de Leis e Decretos de 1904 mostra alternadamente decretos relativos às ações militares seguidos de outros que projetavam o país do futuro, como a compra do terreno onde está hoje o edifício central da Universidad de la República ou a construção do cano coletor de esgotos sobre a então nova avenida Agraciada.

Batlle termina seu primeiro mandato em 1907 e viaja a Europa, sendo sucedido por outro presidente colorado. Em 1910 é eleito para um segundo mandato, o que leva a um grupo de blancos a iniciar um novo levantamento rapidamente controlado pelo governo. Inicia seu segundo mandato em 1911 propondo uma enxurrada de leis tendentes à consolidação dos objetivos do grupo por ele liderado, abrangendo os mais diversos aspectos do funcionamento da sociedade, entre eles a lei do divórcio pela única vontade da mulher (em 1912), a implantação do ensino público, gratuito e laico nos três níveis do ensino e a criação do Poder Executivo Colegiado, entre os mais significativos. Esse período que alguns historiadores chamam de “hiperlegalismo” criou as mais adversas reações entre as forças conservadoras, principalmente do Partido Nacional e da Igreja Católica Romana, mas também dos Riveristas e Vieristas do Partido Colorado.

Batlle termina seu mandato em 1915 e em 1916 se plebiscita uma nova constituição para substituir a de 1830, uma de cujas inovações era a criação do Executivo Colegiado. Nessa votação aplicou-se pela primeira vez no Uruguay o voto universal masculino secreto. A cidadania votou majoritariamente contra o projeto, o que levou a uma negociação com os opositores para redigir a Constituição possível, que vigorou entre 1919 e 1933, na que o batllismo conseguiu aprovar a laicidade do Estado, o sufrágio universal masculino (o feminino se conseguiria em 1932) e a criação de um Poder Executivo composto por um presidente e um Conselho Nacional de Administração integrado por representantes de diferentes partidos.

Batlle morreu em 1929, ano de crise econômica mundial, deixando um país que se desenvolvia nos mais diversos campos da atividade humana, sendo polo sul-americano na ciência, na cultura e na educação, campeão de futebol nas olimpíadas de 1924 e 1928 e do primeiro campeonato mundial em 1930 e, principalmente, respeitoso da ordem legal.

Em 1931 Gabriel Terra foi eleito presidente. Mesmo pertencendo ao Partido Colorado, havia manifestado como legislador sua discordância com o Poder Executivo colegiado. 1933 era um ano de personalismos: Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Getúlio Vargas, no Brasil, o Gral. Justo na Argentina. O 31 de março, há 80 anos, Gabriel Terra, apoiado por setores majoritários do Partido Nacional e pela polícia clausura o Conselho Nacional de Administração e o Parlamento e inicia um período de exceção que duraria até 1946.


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