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... e De Gaulle tinha razão

07 de Dezembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Pela Porte de la Villette, na manhã de 14 de junho, às 5h30min, eles ingressam em Paris. O primeiro soldado alemão estaciona a moto no Boulevard de la Chapelle. Usa casaco de couro, capacete e uma cartucheira que porta ao redor do pescoço. Ele espera um instante, atentamente olha para todos os lados, depois joga um sinal de luz com a sinaleira traseira. Outras motos, saídas de lugares diversos, juntam-se a ele. Os pilotos, em comboio, a baixa velocidade, rumam para o centro da capital que permanece extraordinariamente silenciosa. Logo um caminhão aparece, depois dois, depois três, depois dez, depois... Debruçados nas laterais dos veículos, os soldados, armados de fuzis, descobrem uma cidade em que a quase totalidade deles jamais pusera os pés.

O primeiro tanque, um panzer, surge no final do boulevard. Canhão apontado para a frente, dirige suas lagartas em direção ao Sena em um barulho ensurdecedor que faz vibrar paredes e janelas na rota que persegue. Os blindados alemães avançam. Às 8h, chegam ao Hôtel des Invalides, desfilam diante do Túmulo do Soldado Desconhecido e rumam para Versalhes. Às 12h, a cruz gamada é hasteada no Senado, na Câmara dos Deputados e nos pórticos dos grandes hotéis de luxo. Carros com alto-falantes aos berros percorrem Paris: ordenam que os parisienses permaneçam em casa, ameaçam os saqueadores de morte e impõem à população total obediência às tropas invasoras. O toque de recolher é decretado a partir das 23h. A Kommandatur exige a entrega de armas e que as residências respeitem meia-luz a partir das 21h. Nos dois dias que se seguem chegam mais caminhões, carros e motos. As tropas de ocupação desembarcam. Soldados e oficiais visitam a capital. Câmaras fotográficas a tiracolo, posam em frente ao Arco do Triunfo, ao Louvre, à Tour Eiffel, à Madeleine. Como um enxame de gafanhotos, em poucas horas o invasor limpa as lojas de meias de seda, pagam tudo e revelam extrema educação.

Para alguns moradores da cidade, a vida retoma quase o mesmo ritmo anterior. Outros são invadidos por um desespero que perdura longo tempo. Simone de Beauvoir dorme em prantos e pergunta sempre quando os prisioneiros, singularmente Sartre, voltarão.

Em 17 de junho, o marechal Pétain, em fala pelo rádio, anuncia o inaceitável: armistício! No primeiro parágrafo anuncia a tragédia da fala; nos últimos, traça os princípios fundamentais do futuro, isto é, Vichy. André Gide aplaude-o; três dias depois, rebela-se. Paul Claudel elogia Pétain. Jean Guéhenno, antítese de Claudel, critica o marechal ao afirmar, peremptório: "É um velho que não tem mais nem sequer a voz de um homem, mas fala como uma velha". No dia seguinte, de Londres, o general De Gaulle esbraveja: "A derrota da França é definitiva? Não! Franceses, acreditem em mim. A França não está só! Aconteça o que acontecer, a chama da resistência francesa não deve se extinguir e não se extinguirá. Vive la France!" 

... e De Gaulle tinha razão.


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