Artigo

Os escritores

16 de Maio de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr

Ser capaz de produzir textos sobre qualquer assunto, eis a questão dos escritores. Fazer florar nas linhas o que não se cogita ordinariamente nas cabeças é uma instigação maravilhosa, e ao mesmo tempo implica uma angustiante dificuldade. De fato, perceber o aparecimento de uma ideia inicialmente imprecisa, mas que, pouco a pouco, vai ganhando clareza, até o momento em que não pode mais ser contida no interior de uma concepção vaga e necessita sofregamente traduzir-se em uma organização semântica, é o desafio que os escritores põem a suas vidas.

Alguns literatos, fossem da prosa ou da poesia, sentiram o predomínio dessa sede - a da danação demoníaca sobre o papel - sobre outras atividades que desenvolviam. Ganhavam a vida material como profissionais liberais, professores e até mesmo com algum salariozinho de empregos humildes ou em cargos públicos, enquanto, ao desaviso dessas obrigações, cumpriam a sina dos artistas intensos que foram, trazendo encantos ao espírito e arrebatando a sensibilidade geral. O russo Vladimir Nabokov, autor de Lolita, uma história de polêmica picardia adolescente, era também um afamado entomologista, sendo curador do museu de borboletas de Harvard. Por sua vez, a canadense Margaret Eleanor Atwood, do Conto da Aia, foi garçonete e caixa de uma cafeteria em Toronto. Arthur Conan Doyle, escocês que tornou famoso o personagem Sherlock Holmes e entreteve gerações com seus livros de mistério e suspense, era um médico generalista, e trabalhou durante um largo tempo em navios da marinha britânica, cuidando das tripulações embarcadas. Stephen King, o americano que pontifica na atualidade as publicações do gênero de terror, autor de O iluminado, foi porteiro de uma escola de ensino médio no Maine. George Orwell foi policial na Índia Britânica, e Agatha Christie trabalhou em um hospital e como farmacêutica durante a Primeira Guerra Mundial.

No Brasil, Carlos Drummond de Andrade, criador do genial Poema de sete faces, foi funcionário público durante décadas, assumindo o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação do governo Vargas, no Rio de Janeiro, por cerca de onze anos, para após tornar-se funcionário do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde ficou até sua aposentadoria. Graciliano Ramos, autor do estupendo Vidas secas, foi prefeito da cidadezinha alagoana de Palmeira dos Índios na década de vinte do século passado. Enfim, há exemplos de sobra de pessoas que, a par de suas produções literárias, exerceram atividades em tudo, ao menos formalmente, dissociadas da arte da escritura.

É de dizer-se que esses ofícios paralelos não são apanágio exclusivo dos grandes autores da literatura, mas também de várias áreas da expressão humana, como a filosofia, a sociologia, a psicologia, a história e a ciência política, dentre outras. Os grandes pensadores também tiveram, dentre eles, muitos que se vincularam a misteres simultâneos de suporte econômico, ou que ao menos lhes permitiram (normalmente enquanto eles eram muito jovens) a sobrevivência à custa de atividades nada próximas daquelas que os tornaram protagonistas do que de melhor ofereceu a criatividade e a inteligência.

Vistas as coisas da produção engenhosa a partir dessas informações, vê-se que se instala nas veias dos trabalhadores das letras um desejo de contar algo, de recontar coisas, de formar rumos interpretativos, de elaborar teorizações gerais e específicas ou de lançar mão de inventividades artísticas que não é refreável sob nenhuma negociação. A arte e o pensar, por parte dos grandes artistas e dos pensadores de valor, não consegue ser vetada pela vida, talvez nem pelas forças ditatoriais de governos estúpidos ou pela força coletiva dos estultos, que têm entusiasmos brutos por críticas fáceis realizadas à conta de razões despropositadas, muitas vezes assentados em ideias prejulgadoras e violentas.

Calar o engenho dos escritores não é tarefa fácil. Eles irrompem em meio ao nada e partem em direção a alguma luz, vindos desde um profundo subsolo onde lhes possam haver atirado inimigos de grande poder, para trazer beleza e sabedoria ao mundo desses que apenas disseminam estupidez e feiura. Estranhamente, no Brasil dos últimos tempos, os inimigos dos bons escritores são muitos, mas eles estão vindo, feito ervas daninhas, para estragar os dias dos amantes das sombras. Escritores são bons nisso, entram nas casas, abrem as janelas e deixam um solzinho entrar...

(*) Para Charles Bukowski, que foi um pouco de tudo


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