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Crônica

O dilema dos gêmeos

30 de Maio de 2020 - 13h33 Corrigir A + A -

Thais Russomano

"Nasceram juntos, têm a mesma cara, gêmeos idênticos em tudo, menos na personalidade", disse-me ela, enquanto esperávamos para usar o toalete. Começamos a conversa por acaso, num encontro casual em um aeroporto, entre conexões para diferentes pontos do mundo. Ela vinha da Índia e aguardava o voo para o Brasil e eu estava em trânsito entre a Inglaterra e a Alemanha, numa viagem de trabalho.

"E que idade eles têm hoje?", indaguei, tentando manter a conversa, para driblar o tédio das longas esperas em aeroportos. "Meus filhos já são homens feitos, ambos são inteligentes e bons profissionais, mas cada um à sua maneira, tomaram caminhos muito diferentes".

E ela seguiu contando, sob meu olhar progressivamente mais curioso. "Um deles, mesmo antes de se formar na faculdade, já trabalhava de sol a sol. Ele economiza a maior parte do que ganha, pois seu plano é se livrar de empregos aos 40 anos e aí aproveitar a vida. Já o outro tomou o rumo oposto. Formou-se primeiro e só depois começou a trabalhar. Viaja bastante, sai com amigos a toda hora, gasta o que tem e o que não tem. Certamente, trabalhará até o fim de seus dias, pois não possui qualquer economia".

Foi nesse ponto da conversa que a fila andou e acabamos nos perdendo uma da outra. Nunca soube seu nome ou os dos gêmeos tão iguais quanto distintos, mas a história desses dois homens desconhecidos ganhou espaço na minha memória. Um dia apelidei-a de "o dilema dos gêmeos". Não raro, penso na complexidade dos rumos opostos escolhidos, inevitavelmente excludentes numa só existência, e isso me traz um desconcertante questionamento, para o qual a verdadeira resposta habita o íntimo de cada um: Sou mais feliz no caminho que não caminho?

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