Estilo
Conversa

Uma de várias pessoas

Caderno Estilo entrevista a historiadora Fernanda Oliveira, patrona da 47ª Feira do Livro de Pelotas

09 de Novembro de 2019 - 17h53 Corrigir A + A -
Fernanda é uma apaixonada por livros (Foto: Paulo Rossi - DP)

Fernanda é uma apaixonada por livros (Foto: Paulo Rossi - DP)

Fernanda na formatura da faculdade junto da mãe, Neuza, do pai, Luiz Carlos Lacerda, e do irmão, Bruno (Foto: Paulo Rossi - DP)

Fernanda na formatura da faculdade junto da mãe, Neuza, do pai, Luiz Carlos Lacerda, e do irmão, Bruno (Foto: Paulo Rossi - DP)

É o astro-rei, ok, mas vem depois. O Sol só vem depois de Neuza e Luiz Carlos saírem para o trabalho com o objetivo de garantir uma vida digna para os filhos Bruno e Fernanda. Deu tudo certo: hoje a conceituada historiadora Fernanda Oliveira é patrona da 47ª Feira do Livro de Pelotas. Antes de lançar o livro Pessoas comuns, histórias incríveis: a construção da sociedade sul-riograndense, na segunda-feira (11), ela conversou com o Estilo.

Estilo/Diário Popular: A Feira do Livro teve como patrono no ano passado Vilson Farias e esse ano tu. Como vês a importância dessa representatividade dos negros no protagonismo do evento?
Fernanda Oliveira: É extremamente positivo, mas entendo que faz parte de um contexto de demanda por representatividade nos espaços. É um sinal de que a gente vive um tempo em que outras pessoas acessam espaços que nem sempre foram delegados para elas. Ao longo da história as pessoas negras ocuparam os espaços que não a margem, a história está cheia desses exemplos. Mas nos últimos anos estamos vendo cada vez mais as pessoas negras nesses espaços sempre elitistas. De poder, de respeitabilidade maior. Isso tem a ver com as mudanças que estamos passando de políticas públicas. O Vilson é de outra geração, mas é um advogado e eu sou uma historiadora. Minha trajetória está completamente ligada a essas políticas de acesso à universidade. Não entrei pelas cotas, mas participei da organização delas. Essa nova massa de pessoas demanda se ver representada nos espaços. Tudo faz parte de um complexo processo que vem de muito tempo. Nossos passos vem de longe.


E/DP: Pessoalmente, qual é o sentimento de ser a patrona da Feira do Livro de Pelotas?
FO: Pra mim foi uma grande surpresa. Nunca esteve no meu horizonte ser patrona da feira, embora sempre acompanhasse o evento. Mas inegavelmente foi uma daquelas surpresas positivas e repletas de responsabilidades. Eu faço muitas atividades fora de Pelotas, mas nasci e me criei aqui. A minha família é daqui. Poder estar num espaço como esse fazendo algo que adoro e compartilhar isso com a minha família é muito diferente. É uma resposta para a cidade que me gestou. Pelotas tem problemas e eles são vários, mas também é o lugar que me fez chegar aonde eu cheguei. Então para mim poder compartilhar isso aqui, fazer com que as pessoas se vejam, é extremamente gratificante, sobretudo por dividir com as minhas e com os meus.


E/DP: Teu pós-doutorado é sobre Maria Helena Vargas. O que te chama a atenção na obra dela principalmente?
FO: A Maria Helena me chegou semelhante a como me chegou Carolina Maria de Jesus. São escritas de vivência, experiência do vivido. Como historiadora, tenho dificuldade de acessar fontes produzidas pelos próprios sujeitos, sobretudo aqueles que não fazem parte das elites. Por muito tempo, quem teve acesso às letras e à produção de livros, e teve a oportunidade de se perpetuar na História, foram as pessoas que fazem parte da elite e, por consequência, raríssimos negros. O primeiro escrito dela que eu entrei em contato foi As filhas da lavadeira. E ele foi para mim como um universo, um grande achado das experiências dessas mulheres. A partir daí passei a trabalhar com a Maria Helena como uma fonte de conhecimento. Ela produz teorias sobre essas pessoas. Depois fui procurando informações sobre a vida pessoal dela e mais uma vez me vi em Pelotas, pensando a experiência de liberdade negra que me reporta para o (jornal) Alvorada e para o período da escravidão, mas como uma experiência de liberdade, de rompimento de barreiras. Para mim é um grande horizonte no qual me inspiro para dar sequência e produzir histórias sobre pessoas que lutaram pela construção de outra cidade. O Alvorada circulou em toda a cidade, isso é muito importante. Ela foi professora, finalizou a vida dela trabalhando em Brasília gestando políticas públicas para a população mais pobre. É fundamental trazer isso. Me inspira muito.


E/DP: No discurso de abertura disseste que as histórias sempre te encantaram. Quais são as histórias que mais te encantam?
FO: As histórias de liberdade me inspiram imensamente. Meu avô nasceu no término da escravidão e faleceu com quase 100 anos. Cresci com ele me falando que 88 não marcou o fim da escravidão. À medida que fui crescendo, fui entendendo que isso estava relacionado ao racismo, com discriminação. Mas ele fazia questão de contar histíorias de liberdade a respeito do racismo e do condicionamento. Eu achava a história da Grécia linda, mas eu não me via lá. Por isso que quando encontro Maria Helena e Carolina de Jesus, as tato como historiadoras. E fui muito privilegiada porque fiz parte de um projeto da Beatriz Loner sobre os clubes negros de Pelotas. Ali eu me achei. Ouvia meu pai contando que ia no Chove não molha, no Depois da Chuva, que um passava o paletó pro outro conseguir entrar. Aprendi sobre história da população negra no Rio Grande do Sul e fiz aí a minha trajetória, contando o pós-abolição, abordando experiências de liberdade negra e as relações com cerceamento de liberdade chegando hoje com o aprisionamento. Trabalho com existência. Para além de resistência, essas pessoas existem. Constróem seus laçços e em um determinado momento não lutam, apenas dançam, sorriem, conversam com as pessoas.


E/DP: Dentro dessas histórias de liberdade, quais da atualidade ficarão para o futuro?
FO: São muitas e isso é muito bom, ainda que o cerceamento prevaleça. Hoje nós existimos nas mais diferentes áreas. A Conceição Evaristo é muito interessante. Ela faz um questionamento que é uma mulher com mais de meio século de vida começar a fazer sucesso. A gente precisa ter cuidado com as armadilhas da representatividade, às vezes parece que uma pessoa só estar lá já é bom. Mas é inegável que a experiência da Conceição é importante para nós. Uma mulher negra que é cotada para a Academia Brasileira de Letras e, ao não ser escolhida, levanta um grande debate. A Maju Coutinho à frente do Jornal Hoje é outro grande exemplo, com as críticas que tem sofrido. Ao ocupar esses espaços, o racismo vai se metamorfosiando e mostrando a sua cara. A Angela Davis no Brasil, com grandes filas para vê-la, é uma experiência de liberdade, nem que seja de narrativa de mulheres que vão lá e narram sua própria história. O Roger como técnico do Bahia falar que existe racismo no futebol, o Márcio Chagas falar que existe condicionamento. Tudo isso é importante e a coletividade é primordial. Sem ela, estou sendo o que o capitalismo quer de mim: que eu seja a única e que todos pensem que está tudo certo. Essas experiências de liberdade precisam trabalhar pela transformação para uma sociedade democrática.


E/DP: Tu falas bastante dos teus pais. Qual foi a importância deles na tua trajetória?
FO: A minha primeira experiência de racismo foi na escola aos seis anos de idade. Cheguei em casa muito triste e meus pais me explicaram que aquilo tinha sido um episódio de racismo. Meu pai estudou até o 5º ano e minha mãe até o 3º ano. Ela era doméstica e morreu cedo, de câncer no pulmão. Lidar desde cedo com produtos químicos foi uma das possíveis causas. Meu pai com 63 anos ainda trabalha como mestre de obras. Foram eles que me ensinaram quem eu sou no mundo. Que eu era uma criança linda e inteligente que poderia alcançar tudo o que quisesse, mas que para isso precisaria estudar, tirar dez sempre. São fundamentais na minha vida, minha base, meu pilar, minhas paredes. Me formaram, fizeram com que eu me olhasse, que minha auto-estima fosse elevada. Nunca precisei alisar o meu cabelo por causa da sociedade. E isso por causa da minha base familiar que me dizia que eu era linda do jeito que eu era. Meu pai, minha mãe, meu irmão, minha tia, minhas sobrinhas me ajudaram a ser livre num mundo que diz que a gente não é.


E/DP: Sobre o que se trata Pessoas comuns, histórias incríveis?
FO: Esse livro é um grande ganho na minha vida. Ele foi idealizado por colegas historiadores que me convidaram para participar. Nos encontros tinhamos uma inquietação: todos somos professores, alguns na universidade e outros no ensino básico. Então como fazer os mestrados e doutorados chegarem na sala de aula? O objetivo então era transformar o trabalho acadêmico em uma linguagem acessível para a sala de aula. Selecionamos personagens que fizeram parte das nossas trajetórias, como a Maria Helena Vargas, mas também coletivos, como os clubes negros, os jornais da imprensa negra no Rio Grande do Sul. A gente traz essas experiências para narrar a liberdade. A gente reporta desde lá no Brasil Colônia para falar da auforria e de como era a vida na escravidão. O escravizado não era só mão de obra. Eles criavam irmandades religiosas e isso era liberdade. Era ali que organizavam fugas, criavam quilmbos. Eram locais sem controle externo. Fazemos questão de dialogar com a sociedade rigorandense. Não apenas com os negros, mas com todos.


E/DP: Qual a importância do livro em termos de revolução?
FO: Quem promove o livro e a revolução são as pessoas. Eles trazem a possibilidade de acessar um universo de saberes. É uma grande arma para a transformação social. Seja ela positiva ou negativa dependendo do olhar. Ele vai para as escolas, que são o principal local de transformação e desperta a subjetividade dos sujeitos. As crianças precisam se ver, conviver com o diferente. E o livro ajuda isso. A coletividade é importante aqui, as rodas de conversa, as bibliotecas. O livro acende a chama e as pessoas transformam ela.


E/DP: Pelotas tem uma dívida histórica com a população negra. Achas que existe um trabalho para que ela seja paga? De que forma o Poder Público tem que agir para isso?
FO: Em certo nível está se fazendo esse esforço. Isso é inegável. Mas é preciso fazer muita coisa. O estado, as políticas públicas têm muito poder para chegar nas periferias, nas salas de aula, de pluralizar o acesso aos bens do município, de oferecer melhores condições de trabalho para todas as pessoas. Eu não falo sozinha, falo junto de muita gente. Uma cidade sem racismo é mais democrática. Só combateremos o racismo quando formos capazes de conversar com todos. Não posso fazer essa discussão só com negros nem só com pobres. Tem que estar em todos os lugares. Existe por exemplo uma demanda de colocar o nome da Maria Helena na travessa ao lado da Bibliotheca Pública. É simbólico, mas faz com que as pessoas perguntem quem foi essa mulher da mesma forma como perguntam quem foi o Coronel Pedro Osório. Tenho críticas ás charqueadas, mas acho importante que elas estejam abertas. Que mostrem que houve um regime de escravidão ali e que as pessoas construíram possibilidades através disso. Acredito que a cidade vem passando por transformações, mas existe muito o que avançar. É preciso chegar nos quilombolas, no Getúlio Vargas, no Dunas, nas praias. E entender que as periferias fazem parte da cidade e têm muito a ensinar para o centro. Dialogar mais, ouvir mais o que a periferia constrói e demanda. Não é um lugar só de falta. Tem gente lá e o capital humano é o principal.

Serviço
O quê: roda de conversa sobre o livro Pessoas comuns, histórias incríveis: a construção da sociedade sul-riograndense, de Fernanda Oliveira entre outros autores
Quando: segunda-feira, às 17h
Onde: Bibliotheca Pública Pelotense
Entrada franca

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