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A tabacaria

05 de Outubro de 2019 - 05h00 Corrigir A + A -

Lisiane Rotta

Ainda não sei se foi a minha expectativa ou o meu alcance, o fato é que, apesar de saber que assisti a um bom filme, saí um tanto frustrada. Estava tão empolgada com o que havia lido sobre ele. Veria a história do jovem Franz, que chega a Viena em 1937, em plena ascensão do nazismo, para trabalhar como aprendiz numa tabacaria onde Sigmund Freud é cliente. Quando eu soube que Franz se tornaria tão amigo do renomado psicanalista que se aconselharia com ele, dividiria as angústias do seu primeiro amor, falaria sobre os seus recorrentes pesadelos em busca de significado e o acompanharia de perto até ele fugir do país, às vésperas da invasão nazista, eu delirei. É impossível não pensar em diálogos interessantes, revelações surpreendentes, reflexões profundas, diante ao inusitado relacionamento de um jovem interiorano de 17 anos e o gênio da psicanálise, num momento histórico de tamanha importância. Talvez, o próprio Freud explique a minha frustração. A vida jamais pretendeu nos dar as respostas, e sim as perguntas - diz ele em algum momento. Espero, de todo o coração, não sair da vida como saí do filme. Com um carrossel de interrogações rodando na mente. Ainda assim, se você não viu, deveria ver A tabacaria, no Cineflix, Shopping Pelotas. A fotografia é linda, há cenas muito interessantes, intensas, comoventes. Apenas não tente, como eu, amarrar as pontas. Muitas ficarão abertas. Não busque conexões, significados, causas para determinadas passagens, porque não há. Não pense que aquela cena impactante será a resposta a alguma pergunta que virá no decorrer do filme. Não. É apenas uma boa cena solta. Aceite. É como na vida. Há coisas que simplesmente acontecem. Não tente encontrar razões para tudo. Eu gostaria realmente de saber a opinião de quem viu. Pois eu ainda não sei se tô mais incomodada com o filme ou comigo mesma. Ele tem tudo pra ser maravilhoso, por que só consigo vê-lo como um filme bem feito? Será que eu não o entendi? Será que a ideia é nos crivar de interrogações? Saí pensando sobre isso. Por que promete o que não vai concretizar? Por que levanta questões que nem mesmo tenta se aprofundar? O que, afinal, o filme pretende? É frustrante, diante de tantas possibilidades, ver apenas o esboço do que poderia ser uma obra-prima. Não. Não se trata de mostrar Freud como um cidadão comum, um mero coadjuvante. Quando li A amante de Freud, de Karen Mack e Jennifer Kaufman, onde o famoso psicanalista se deixa sucumbir pelo mais humano dos sentimentos e revela o seu lado mais sórdido, não me decepcionei nenhum pouco. Com o livro, é claro. Freud, como pessoa, desceu alguns degraus no meu conceito. Não por se revelar imperfeito como qualquer mortal. Mas pelas razões que o motivaram a explorar a sua pior versão. Há momentos em que o seu egocentrismo lembrava o de um psicopata. Apesar de desmistificar Freud, considerei o livro excelente. Personagens riquíssimos, drama muito bem retratado, devidamente explorado, que se realiza no decorrer dos capítulos.
Quando eu vejo um filme ruim, sabendo o que esperar, eu não fico tão frustrada. A tabacaria não é, nem de longe, um filme ruim, mas decepciona porque promete e não cumpre. Seria um ótimo primeiro episódio de uma série. Uma pena. Um desperdício de talentos. De zero a dez, na minha opinião, é um sete. Veja, e me diga a sua!

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