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Hackers

28 de Setembro de 2019 - 06h00 Corrigir A + A -

Lisiani Rotta

A primeira geração de hackers, segundo Mark Ward da BBC News, era formada por garotos que mexiam na rede de telefones ou se infiltravam nos primeiros sistemas de computadores para se gabar de seus feitos em murais. Embora o nome seja imediatamente associado ao crime virtual, qualquer pessoa pode ser considerada um hacker se for um expert em informática e descobrir algo que antes não parecia possível, num sistema qualquer. Se você tem conhecimento avançado em informática e experiência tanto em criar programas, como em testar a segurança deles, se você é capaz de descobrir brechas nos sistemas, você é um hacker. É a índole e não a habilidade da pessoa que vai determinar se ela é ou não criminosa. Foi para diferenciar os legais e os ilegais que, nos anos 80 e 90 parlamentares americanos e ingleses aprovaram leis que permitiram que hackers criminosos fossem levados aos tribunais. No entanto, o risco de ir pra prisão não impediu que novos grupos ilegais surgissem, ansiosos pra exibir as suas habilidades e o seu poder de manipulação.

Hoje eles são tantos, que as palavras segredo e privacidade são mais simbólicas do que reais, no seu significado. Experimente comentar sobre uma viagem, um cosmético ou um show que deseja comprar, próximo ao seu celular! Mesmo que não tenha feito uma única busca, assim que entrar na internet, você vai se surpreender com o que surgirá na tela. Yes. Seu amigo celular sabe tudo de você. Agradeça ser uma pessoa comum. Protegidos por codinomes sugestivos, orgulhosos da sua esperteza, os Hackers competem entre si, engordam as contas bancárias com a venda de informações roubadas, extorsões, adulterações, invasões e apropriações de perfis. Há poucos dias, deram entrevistas a alguns jornalistas se fazendo passar pelo ministro da economia, Paulo Guedes. Pelo menos seis conversas foram identificadas pela Polícia Federal.

Segredos são armas poderosas, desde que o mundo é mundo. Os bastidores atraem tanta curiosidade quanto o espetáculo. Nada é, apenas, como se apresenta. Há sempre o avesso, o lado oculto. Não tão belo. Mas, igualmente sedutor. Comemos uma iguaria e, imediatamente, pensamos nos ingredientes. Em especial no que o paladar reconhece como incomum. O segredo da receita. Cleópatra tomou aulas de sexo com uma famosa cortesã pra seduzir o general romano Júlio César. Graças a esse segredinho conseguiu reinar. Casou-se com Ptolomeu, o irmão mais novo, mas grávida do general. A beleza e jovialidade que resistem ao tempo, especulam um segredo, talvez um elixir que jamais revelará a sua fórmula para manter o seu poder e riqueza. Segredos fizeram e depuseram líderes, fizeram e roubaram fortunas, condenaram e salvaram vidas, esconderam e revelaram almas inimagináveis.

Quando li Titília e Demonão, de Paulo Rezzutti, eu me senti assim, uma espécie de Hacker, invadindo a intimidade de Dom Pedro I e da Marquesa de Santos para me apropriar de seus segredos. As 94 cartas desaparecidas, do imperador à sua famosa amante, escritas entre 1823 e 1827, encontradas quase que acidentalmente por um pesquisador brasileiro num museu dos EUA, há menos de uma década, inspiraram o livro.

Achei muito interessante essa visita ao Primeiro Reinado, com direito a segredinhos de alcova. Ler as cartas do jovem apaixonado, espirituoso e libidinoso imperador tentando acalmar as crises de ciúme da amante, ou esbravejando de ciúmes dela; a atenção e carinho dele com os filhos, a preocupação com os problemas do Brasil, é como mergulhar nas profundezas do seu ser, conhecer o lado mais humano, mais vulnerável, mais mortal do imperador. É algo tão íntimo e revelador quanto vê-lo despido. Há vezes em que ele, literalmente, se despe. Em resposta a uma das cartas da Marquesa ele escreve: "Nu em pelo eu respondo..."

Em outra:

"Meu bem,

...Ontem mesmo fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção. Aceite, meu benzinho, meu amor, meu encanto e meu tudo, o coração constante

Deste seu fiel amante

O Demonão"

Cara de pau admirável, não?

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