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Projeto Social

Um novo passo para expandir o futuro

Mansão Terceiro Mundo, da Companhia de Dança Afro Daniel Amaro, completa 15 anos de atividades ininterruptas

24 de Março de 2018 - 14h06 Corrigir A + A -
Coreógrafo lembra que na sua época não teve oportunidade 
de dançar na sua comunidade (Foto: Jô Folha - DP)

Coreógrafo lembra que na sua época não teve oportunidade de dançar na sua comunidade (Foto: Jô Folha - DP)

A cada passo, o futuro se expande. Teve início recentemente a sétima geração do projeto Mansão Terceiro Mundo, da Companhia de Dança Afro Daniel Amaro. Serão 14 crianças que receberão a oportunidade de dançar, com força e delicadeza, em cima das dificuldades naturalmente impostas a quem nasceu no gueto.
O Mansão Terceiro Mundo, que completa 15 anos de atividades ininterruptas em 2018, é o início de qualquer pessoa dentro da companhia localizada na vila Castilho. Com o tempo, os participantes migram para o grupo jovem e, por fim, se estabelecem no corpo da escola. Para ingressarem, têm de estar estudando em alguma instituição de ensino. A iniciativa já ofereceu aulas gratuitas para mais de 230 crianças de sete a 11 anos e venceu o Prêmio Movimento - Cultura Popular, da Secretaria Municipal de Cultura (Secult) em 2010.

O projeto teve início em 2003 junto com a construção da atual sede da companhia, adquirida e reformada com parte do dinheiro que Amaro obteve trabalhando na Bélgica. Como gratidão à vila que o fez nome respeitado na dança pelotense, montou a proposta. "Na minha época, eu não tive essa oportunidade de dançar dentro da minha comunidade. Tive que ir para as escolas do Centro. Percebi então a importância de criar um espaço aqui para que as meninas se sentissem em casa, longe da segregação que existe lá fora", comenta.

Ao fim do espetáculo Reminiscência, de 2002, Amaro anunciou que estava recebendo inscrições para aulas gratuitas nos sábados, voltadas a crianças de até 11 anos, moradoras da Castilho e redondezas.
No início, o Mansão Terceiro Mundo era formado por lições de ballet clássico, capoeira, dança afro, percussão e teatro. Em 2009, uma parceria com o Centro de Referência em Assistência Social (Cras) expandiu as ações, agregando crianças que usufruíam do projeto no turno inverso ao da escola. Aos poucos, porém, o caráter voluntário foi resultando em afastamento dos participantes.

Em 2009, a maré virou novamente. Através de apoio firmado com o Rotary Clube Pelotas Norte. A instituição captou, junto às empresas Biscoitos Zezé e Expresso Embaixador, R$ 13 mil para que Mansão Terceiro Mundo se sustentasse por seis meses. Nesse momento, houve o acréscimo de duas oficinas: Psicomotricidade Relacional, voltada à adaptação ao cotidiano e ao convívio social, e Dialogando com a Família, constituída em uma etapa em que os pais de dançarinos e dançarinas se tornaram parte da companhia.

Antes alunas, agora mestres
Em 2014, entretanto, Amaro se viu mais uma vez sozinho tocando o projeto, ao que se inicia etapa importantíssima: a transformação de antigas alunas, hoje membros do Grupo Jovem da companhia, em professoras do Mansão Terceiro Mundo. Com isso, foi-lhes dada a oportunidade não apenas de se tornarem dançarinas, mas também profissionais do ensino, ao mesmo tempo em que a ação voltada aos mais novos se mantém forte.

Atualmente são três meninas professoras: Maria Eduarda Danda, 14, Kamany Soares, 18, e Lyndsey Santos, 13. "É muito incrível. Eu aprendi há pouco tempo e já estou ensinando para outras pessoas, nunca imaginei isso. Quando eu for entrar na faculdade, arranjar um trabalho, essa experiência vai ajudar", comenta a primeira. "Sonho em ser professora de dança um dia, mas não pensava que isso já fosse acontecer aos 13 anos. Ficamos sem jeito no início, mas gostamos muito", completa Lyndsey.

O caminho que elas seguem agora é o mesmo percorrido por Karina Azevedo. Ela fez parte da primeira turma do Mansão Terceiro Mundo, formou-se em Educação Física e Dança na UFPel e hoje, com 31 anos, é professora de dança em três academias em Porto Alegre. "Esse projeto transformou a minha vida. Foi por onde despertei para a minha formação Dentro da Castilho, me deu toda a estrutura para eu buscar outras coisas, ter novas perspectivas de vida", comenta.

Karina se diz agradecida ao projeto também no sentido de afastá-la de opções que aparecem com mais facilidade na vida de quem mora na periferia. "Fico muito feliz que, tanto tempo depois, meninas ainda recebam essa oportunidade de desviar do crime, da prostituição. A gente vem de realidade muito dura, em que coisas erradas nos são ofertadas todos os dias. Tem que lutar muito e a arte ajuda nessa batalha", diz, sentindo-se orgulhosa por servir como exemplo às mais novas.

Reconhecimento
Esse protagonismo da arte frente à vulnerabilidade passa muito pelo trabalho de reconhecimento dos jovens participantes do projeto enquanto negros. Porque, melhor que seja, não é sempre pela música clássica que a cultura vai atingir a juventude. Não há exatamente uma ligação entre ambos. E se nos anos 1980 a linguagem era a black music de Michael Jackson e James Brown, depois passou a ser o Carnaval - no caso da Castilho, com a escola de samba Alegria & Samba e o bloco do Zé Carioca. Até finalmente surgirem o pagode e, mais recentemente, o funk, mais novo filho do gueto.

Amaro acrescenta aí um lado importante do Mansão Terceiro Mundo: mostrou que é bonito ser negro e que não é demérito algum ser da periferia. "Na minha época, negras andavam com o cabelo alisado e os negros de cabelo raspado. Hoje, se assumem mais", comenta, destacando, também, a importância das ações afirmativas no processo.

O professor traça um paralelo histórico dentro da própria dança para explicar o ganho de corpo da matriz africana nos últimos anos. "Trabalho há 25 anos com essa vertente em Pelotas. Dançamos no Sete de Abril há 35 anos. A visibilidade hoje é outra, porque naquela época nem se tinha, não se considerava dança. Com o tempo fui duas vezes conselheiro municipal de Cultura e presidente da Associação Pelotense de Dança, mesmo trabalhando com a matriz africana. Conquistamos um espaço que ficou", afirma, destacando outras iniciativas no mesmo sentido, com os grupos Odara e Piratas de Rua, além do Trem do Sul, que levou o street dance pelotense para fora do Brasil com participações em eventos nos Estados Unidos e na França.

Stéfanie Dias, 18 anos e hoje membro do Grupo Jovem da companhia, é quem, do grupo de alunas, comenta o assunto. "Já sofremos muito preconceito por sermos negras. Quando falam, a gente lembra de alguém que hoje é professora de dança. O mundo gira. Queremos mostrar que somos todos iguais e que dando o melhor, não se cai. Temos que seguir nosso potencial e ser o que a gente é, não o que os outros acham", sentencia.

A insistência em não abaixar a cabeça resultou em duas apresentações no Theatro Guarany. Se uma pichação na logo em frente indaga se existem negros na plateia do local, a participação do Mansão Terceiro Mundo não deixou dúvidas de que, no palco, ninguém impedirá a periferia de se expressar. "Na hora eu fiquei preocupada, então errei algumas vezes. Mas foi emocionante, principalmente porque estava compartilhando aquele momento com as minhas amigas, que são as pessoas que me fazem rir, que estão sempre ao meu redor", recorda Jamile Dias, 16 anos recém-completados no último dia 21.

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