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A tragicomédia do Sete

Sete de Abril chega aos 185 anos com as portas fechadas

02 de Dezembro de 2018 - 08h00 Corrigir A + A -
Há quase uma década interditado, Theatro Sete de Abril guarda história de 185 anos de existência. (Foto: Paulo Rossi)

Há quase uma década interditado, Theatro Sete de Abril guarda história de 185 anos de existência. (Foto: Paulo Rossi)

Atriz Cláudia Tavares (deitada) encenou Gota d’água em 1986. (Foto: Divulgação)

Atriz Cláudia Tavares (deitada) encenou Gota d’água em 1986. (Foto: Divulgação)

Sete de Abril já recebeu clássicos do Cinema nos anos 1920. (Foto: Divulgação)

Sete de Abril já recebeu clássicos do Cinema nos anos 1920. (Foto: Divulgação)

Theatro Sete de Abril é a exata representação do que Pelotas é e foi ao longo da história. Imponente em seu início, alavancado pelo ciclo do charque e da escravidão, declinou com o tempo até comemorar 185 anos, no domingo (2), interditado há quase uma década - desde abril de 2010. Dono de uma história rica e de importância ímpar para o desenvolvimento sócio-cultural da cidade, hoje serve de marquise para proteção em dias de chuva e teto para moradores de rua.

O início
De acordo com o livro Sete de Abril - o teatro do imperador, lançado em 2013 pelo jornalista Klécio Santos, a data foi escolhida como um agrado a Dom Pedro II, cujo aniversário era naquele dia. Mas ainda em obras, o teatro já recebia apresentações no que antes era um armazém. Em 7 de abril de 1832, como comemoração à instalação da Vila de São Francisco de Paula, foram apresentados em palco improvisado o drama Patriotismo e gratidão e a burlesca representação teatral de Irmão sagaz. Também houve naquela noite declamação de poemas e um soneto de Antônio José Domingues, poeta e professor de teatro atuante na formação de Pelotas.

Assim se deu a vida do pré-Sete de Abril até o final de 1833, em meio a peças de Molière e dramas como A escrava de Mariamburgo e Corcunda por amor. Apesar de as obras só serem de fato concluídas em 1834, em 2 de dezembro de 1833 veio a inauguração com a apresentação de um elogio dramático sobre as benfeitorias da monarquia. Ainda de acordo com o livro de Santos, foi um dia de festa na vila, com uma orquestra percorrendo as ruas, ora comemorando o surgimento do equipamento cultural, ora dourando loas ao imperador, de apenas oito anos. Em um Brasil Império ainda jovem, nasceu um dos principais teatros do país - destinado apenas à diversão da elite e da nobreza, porém, com emblemáticos casos de segregação racial.
Recém-inaugurado, o Sete de Abril sofreu um baque na década de 1830. Durante a Revolução Farroupilha, a arte deu lugar ao militarismo e o Sete de Abril se transformou em alojamento para soldados. O guarda-roupas vasto acabou saqueado e os cenários destruídos. Com o fim da guerra, em 1845, as apresentações retornaram e a reinauguração se deu com um drama do poeta e comediógrafo português Antônio Xavier Ferreira de Azevedo.

O meio
Imponente assim como a cidade durante o século 19 e o início do 20, o Sete de Abril recebia apresentações de todos os cantos do mundo à época. Entre as mais curiosas está a vinda de uma diva negra de dois metros de altura e andar desengonçado. Era a estadunidense Ella Grigsby, que por aqui chegou sob o codinome Abomah. No freakshow em que era protagonista, ela se intitulava “a mulher mais alta do mundo”, com incríveis dois metros e 35 centímetros - descalça.

Foram três apresentações na cidade, sendo a última em favor do Asilo de São Benedito. Junto ao sucesso, a polêmica: corria pela cidade a dúvida em relação à altura e até mesmo ao verdadeiro sexo de Abomah. A curiosidade era tanta que um espectador chegou a subir no palco para a medição, mas foi barrado pelo empresário da gigante, alegando superstição: quando a mediam, sempre parecia que iam preparar-lhe o caixão para conduzir ao cemitério.

Coube então ao major subintendente, autoridade policial da época, medir Abomah no palco. A verificação pôs fim à farsa: dois metros e dois centímetros, incluindo a vasta cabeleira e o salto alto. O empresário da artista ainda tentou argumentar, dizer que era questão de métrica utilizada, mas nisso já voavam vaias e batatas inglesas no palco.

O Sete de Abril continuou como um dos principais palcos do Brasil, recebendo artistas internacionais, como a então estrela em ascensão Amelita Galli Curci, e entidades brasileiras, como a cantora lírica Bidu Sayão, considerada uma das maiores vozes de ópera de todos os tempos.

E aos poucos o palco da praça Coronel Pedro Osório foi se tornando também importante para a carreira de artistas e grupos pelotenses. Neste sentido, se destacam o projeto Sete ao Entardecer, importante mecanismo para formação de público e de divulgação do trabalho de músicos da cidade, e o Festival de Teatro de Pelotas, que, quando retomado durante os anos 1980, tornou-se evento eternizado na história cultural da cidade. “Tinha programação local, nacional e internacional. Inesquecível, popular e erudito, com gente se debatendo para poder entrar”, lembra o ator e diretor teatral Joca D’Ávila.

A atriz e jornalista Cláudia Tavares fez 18 anos no palco do Sete de Abril, em 1985, durante a primeira edição do novo festival - venceria ainda o prêmio de melhor atriz. Encenou Cordélia Brasil de Antônio Bivar naquele dia, que viraria lembrança para a vida toda. “Era uma época de intenso apoio cultural e revelação de muitos talentos. Tivemos a oportunidade de assistir a excelentes espetáculos e participar de debates”, lembra.
No ano seguinte, o evento se consolidou no calendário de Pelotas. E Cláudia novamente estava lá, encenando Gota d’água, releitura de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega Medeia, junto ao grupo Nós na Garganta. Daquele dia, o diretor Carlos Eduardo Valente tem lembranças que valem aqui serem colocadas praticamente na íntegra: “No mesmo dia, acho que foi dia 21 ou 22 de agosto, no Guarany estavam apresentando Oh! Calcutá!, elenco do Rio ou São Paulo, e a gente ficou morrendo de medo que não tivéssemos público por causa disso. Mas, aquele Sete de Abril lotou. Gente sentada no chão e, até mesmo, na rampa que levava ao palco. Lembro de me dizerem que no intervalo ninguém teria saído de seus lugares pra não perderem o mesmo. Quatro horas de duração, cena da macumba aplaudida de pé. A cena já tinha terminado e os aplausos continuavam. Gladis e Marquinhos já posicionados e não conseguiam começar a falar, ele deitado com a cabeça no colo dela.”

O hoje
A última apresentação de Cláudia Tavares no Sete de Abril ocorreu em A hora do lobo, do grupo Teatro Frio, dirigido por Giorgio Ronna, com trilha sonora composta por Vitor Ramil. “O Sete de Abril sempre foi um lugar de encontros, da prática da criatividade, do acolhimento da nossa necessidade de expressão. Um espaço magnífico, que apresentou a diversidade cultural do teatro, da música e da dança. Fundamental para a formação cultural de muita gente. Espero vê-lo vivo novamente para que as outras gerações possam experimentar a sensação indescritível de se apresentar ali”, finaliza.

Por conta de problemas estruturais que poderiam acarretar em desabamento, o Sete de Abril foi interditado pelo Ministério Público em abril de 2010. Em 2013 o restauro foi inserido no PAC Cidades Históricas e, um ano depois, foi completada a obra que recuperou o telhado do prédio, importante para que o risco de desabamento seja amenizado. Desde então, pouco avançou em termos de obras no local. Já são oito anos de trâmites burocráticos, adaptações orçamentárias e um grande vazio na formação de público apreciador na cidade.

O futuro
O restante da recuperação será feito em duas partes: estruturação (R$ 6 milhões) e compra e instalação de equipamentos (R$ 7 milhões). A verba é oriunda do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que precisa aprovar o orçamento para que o recurso seja liberado e a licitação, enfim, lançada.

Segundo o hoje Secretário de Cultura, Giorgio Ronna, até o final de dezembro o termo de compromisso entre a prefeitura e o Iphan deve ser firmado. Neste momento se inicia o processo licitatório, que, ainda de acordo com Ronna, se estenderá por 45 dias. Com uma empresa vencedora, se inicia a primeira parte da obra, que terá duração de um ano. A segunda etapa demandará mais seis meses. De acordo com o plano de governo da prefeita Paula Mascarenhas (PSDB), o Sete de Abril será novamente da população em 2020.

 

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