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Uma bonita realidade

Artista conhecido por exímia técnica, pintor Nestor Marques Rodrigues, o Nesmaro, completaria cem anos em 2017

21 de Abril de 2017 - 12h03 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Uruguaio radicado em Pelotas substituiu Aldo Locatelli na EBA. (Foto: Reprodução)

Uruguaio radicado em Pelotas substituiu Aldo Locatelli na EBA. (Foto: Reprodução)

Adepto das artes desde a infância, ele falava com muito entusiasmo sobre o assunto. (Foto: Reprodução)

Adepto das artes desde a infância, ele falava com muito entusiasmo sobre o assunto. (Foto: Reprodução)

Especialista em retratos, artista se destacava pelo realismo das obras

Especialista em retratos, artista se destacava pelo realismo das obras

Versátil, Nesmaro produziu pinturas e desenhos em técnicas que foram do óleo à aquarela, do desenho ao bico de pena, sempre com maestria singular

Versátil, Nesmaro produziu pinturas e desenhos em técnicas que foram do óleo à aquarela, do desenho ao bico de pena, sempre com maestria singular

Bem-humorado, exigente e tecnicamente exímio. Esse era Nestor Marques Rodrigues, o Nesmaro, pintor uruguaio, radicado em Pelotas, que em 1956 recebeu a nada simples tarefa de substituir Aldo Locatelli na Escola de Belas Artes (EBA). O centenário do artista, comemorado em 2017, é momento para jogar luz em personalidade ainda pouco conhecida por aqui.

Nesmaro nasceu em Montevidéu e na sequência radicou-se no Brasil, tendo realizado a primeira exposição, logo aos 15 anos, no Rio de Janeiro. Em Pelotas, radicou-se em 1956 e se tornou bacharel em Ciências e Letras e Pintura e Artes em geral, após se formar em Filosofia na Argentina. Já consagrado como pintor, assumiu a responsabilidade de substituir ninguém menos que Aldo Locatelli como professor de pintura na pelotense Escola de Belas Artes (EBA) - instituição da qual foi vice-diretor -, após a partida deste para Porto Alegre em 1956. O artista lecionou também na Escola de Belas Artes Heitor de Lemos, em Rio Grande, durante as décadas de 1960 e 1970 e faleceu em 1981.

Desde a infância Nesmaro demonstrou aptidão para desenho. Logo aos cinco anos, apesar da proibição dos pais, recortava silhuetas e, aos 13, pintou o primeiro quadro: um retrato da avó materna. O primeiro trabalho de relevância veio por volta de 1940, ainda em Montevidéu, em meio a diversas exposições que protagonizava na capital uruguaia. Era também um retrato, a óleo e de tamanho natural, de Don Joaquin Sanchez, tataravô do artista.

Acadêmico
A história conta que Nesmaro foi um apaixonado pelo belo, pela estética, pelo harmônico e pelo equilibrado, não concebendo a arte senão como expressão de beleza. Segue observação por ele mesmo feita: “Os que propalam que a arte não se entende, mas só se sente devem supor que não se trata de um sentimento puramente sensível, orgânico como é o agradável da sensação, seja visual ou auditiva, como a que nós podemos ter de uma determinada cor ou de uma nota musical somente, mas de um sentimento geral, de ordem superior, espiritual, que inclui a intenção estética”.

Para o professor do Centro de Artes da UFPel, Denoir Oliveira, tal contexto ajuda a explicar a personalidade que Nesmaro imprimia em suas obras: quase sempre o pintor se destacava pela excelência técnica de seus quadros, não exatamente pelos temas. “Fazia representações o mais perfeitas possível, se aproximando muito da realidade. Tinha uma pincelada muito acadêmica”, comenta, destacando também grande versatilidade na produção do uruguaio: óleo, aquarela, carvão, bico-de-pena, Nesmaro tinha intimidade com todos.

Diretor do Malg, o professor Lauer acrescenta que pode servir o centenário para que se propague por Pelotas o legado de Nesmaro, assim como de outros pintores com célebre trajetória por aqui, principalmente por conta da EBA. “A cidade tem um histórico cultural interessante que foi consolidado pela Escola de Belas Artes. Esses artistas mais antigos, mais acadêmicos no sentido de tradicionais, têm como importância fazer com que os mais novos se aproximem da arte. Encontra-se na produção deles muito do pensamento da época em que viveram.”

Interessante
A hoje professora do curso de Artes Visuais da UFPel, Clarice Magalhães, foi aluna de Nesmaro em curso de extensão da Escola de Belas Artes em meados dos anos 1970. Tinha 11 para 12 anos, muito gosto pelo desenho e a família resolveu presenteá-la com o curso de pintura e era para a quase criança Clarice interessantíssimo adentrar o folclórico espaço, contemplar os quadros dos alunos, sentir o cheiro da tinta e sobretudo conviver com professor tão corpulento quanto interessante. “Ele cantava óperas em sala de aula, eu gostava muito”, comenta.

Clarice conta que Nesmaro tinha visão mais acadêmica enquanto professor, apresentando o básico primeiramente. “Todo mundo tinha o primeiro quadro igual, produzido como um aprendizado de texturas: um garrafão coberto por um pano em cima de uma mesa junto de algumas frutas”, diz, acrescentando que o artista, na hora de ser mestre, atendia de forma personalizada cada aluno, por vezes inclusive interferindo nas obras no próprio quadro, “o que era considerado um horror”. “Mas eu não achava terrível. Em uma pincelada ele mostrava o jeito correto de fazer”, diz.

Na personalidade, Clarice define Nesmaro como uma pessoa normal, longe do imaginário romantizado do artista. “Era sábado depois do almoço. Eu achava o máximo”, completa, destacando a experiência como importante primeiro contato de uma criança com as artes.

Parente e admirador
Primo distante de Nesmaro, o bageense José Contreiras é também fã do pintor e a admiração se transformou em blog, criado em março de 2013 com o objetivo de reunir a obra do artista em local aberto a todos os públicos, “já que não é possível ter todos os quadros em um mesmo lugar.” O conteúdo pode ser acessado em http://nesmaro.blogspot.com.br.

Autodeclarado “o maior colecionador de Nesmaro”, Contreiras teve próximo contato direto com o pintor quando na infância, época em que costumava vir de Bagé para Pelotas e ficar na casa do hoje, além de parente, ídolo. Conta que não apenas a pintura o impressionava em Nesmaro, mas também o sensível talento para imitações e desenhos. “Ia inventando na hora e a gente adorava”, comenta.

Contreiras lembra também de confundir medo e admiração ao contemplar as obras de Nesmaro. “Me assustava um pouco na hora de dormir me deparar com aqueles quadros em que estavam representadas mãos e rostos perfeitos através de horizontes e tonalidades. Achava que iam se movimentar. Desde então gosto muito de trabalhos que usem da realidade.”

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