No acervo do Museu há apenas uma reprodução em aquarela da heroína Farroupilha. Na foto Francieli Domingues, que interpreta Anita Garibaldi para os turistas (Foto: Paulo Rossi - DP)

No acervo do Museu há apenas uma reprodução em aquarela da heroína Farroupilha. Na foto Francieli Domingues, que interpreta Anita Garibaldi para os turistas (Foto: Paulo Rossi - DP)

Casa onde morou Garibaldi é um dos locais que remetem à suposta presença da catarinense no munic[ipio (Foto: Paulo Rossi - DP)

Casa onde morou Garibaldi é um dos locais que remetem à suposta presença da catarinense no munic[ipio (Foto: Paulo Rossi - DP)

Francieli Domingues e o marido Juliano Moura

Francieli Domingues e o marido Juliano Moura "encarnam" o casal de revolucionários (Foto: Paulo Rossi - DP)

Referência

Após dois anos, culto à memória de Anita Garibaldi é discreto em Piratini

Dois anos se passaram desde que a catarinense Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Aninha e mais tarde Anita Garibaldi (1821-1849), uma das figuras célebres da Revolução Farroupilha, foi inscrita no Livro dos Heróis da Pátria

30 de Abril de 2014 - 06h30 0 comentário(s) Corrigir A + A -
No acervo do Museu há apenas uma reprodução em aquarela da heroína Farroupilha. Na foto Francieli Domingues, que interpreta Anita Garibaldi para os turistas (Foto: Paulo Rossi - DP)

No acervo do Museu há apenas uma reprodução em aquarela da heroína Farroupilha. Na foto Francieli Domingues, que interpreta Anita Garibaldi para os turistas (Foto: Paulo Rossi - DP)

Casa onde morou Garibaldi é um dos locais que remetem à suposta presença da catarinense no munic[ipio (Foto: Paulo Rossi - DP)

Casa onde morou Garibaldi é um dos locais que remetem à suposta presença da catarinense no munic[ipio (Foto: Paulo Rossi - DP)

Francieli Domingues e o marido Juliano Moura

Francieli Domingues e o marido Juliano Moura "encarnam" o casal de revolucionários (Foto: Paulo Rossi - DP)

Mesmo que não haja referências históricas concretas sobre a passagem da heroína da Revolução Farroupilha, Anita Garibaldi, por solo piratiniense, existe a crença “romântica”, cultuada entre seus admiradores, de que ela não deixou de acompanhar o seu amado Giuseppe Garibaldi e, por vezes, mesmo que incógnita, andou pelas ruas da cidade, a primeira Capital Farroupilha. Dois anos se passaram desde que a catarinense Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Aninha e mais tarde Anita Garibaldi (1821-1849), uma das figuras célebres da Revolução Farroupilha, foi inscrita no Livro dos Heróis da Pátria, através de lei publicada no Diário Oficial da União (DOU).

No entanto, com exceção da iniciativa de realizar encenações sobre o período da Revolução Farroupilha pelo centro histórico, lançada pelo Núcleo de Artes Piratiniense (NAP), há dez anos, e retomada pela Associação de Turismo Jovem Tur, no ano passado, em que Anita está sempre ao lado de Garibaldi, não existem outras referências à heroína na cidade. “Sempre que é necessária a presença do personagem de Giusepe Garibaldi em algum evento histórico ou turístico, lá está Anita, ao seu lado”, diz a jovem Francieli dos Santos Domingues, de 19 anos, a quem cabe o papel de encarnar a heroína, ao lado do marido Juliano dos Santos Moura, 29, o Giuseppe Garibaldi.

A encenação tem a duração de duas horas e conta com 20 personagens, inclusive a jovem Manuela. Francieli é quem escreve os textos e faz as indumentárias do grupo. Ela está convicta de que em algum momento, seja no auge da paixão por Garibaldi ou ainda, quando o casal deixou definitivamente o Brasil em direção ao Uruguai, a heroína cavalgou pelo município do Sul do Estado. “Geograficamente, a viagem em direção ao Uruguai e ainda mais levando 900 bois só seria possível se fosse feita através de terras planas e por Piratini é o caminho mais seguro até lá”, sustenta Juliano Moura, que também compartilha desta crença.

“Não é possível falar de Anita sem Garibaldi e vice-versa, assim como não é possível dissociar Bento Gonçalves da Silva da Revolução Farroupilha”, defende o secretário de Turismo, Fladimir Gonçalves, que também acredita na versão. No entanto, para ele, Bento Gonçalves ainda é o principal vulto e o mais lembrado pelos aficionados pela história da Revolução.

Na Linha Farroupilha, roteiro turístico criado em 2012, a Casa de Garibaldi é a mais forte referência desta convicção da presença de Anita compartilhada pelos piratinienses. A atração de número 24, fica na rua Bento Gonçalves, 182/186, antiga rua Clara. Nesta casa funcionou a tipografia do jornal revolucionário O Povo, órgão oficial da Revolução editado pelo rebelde Luigi Rosseti, com apoio e colaboração de Domingos José de Almeida e ali morou Giuseppe Garibaldi quando aderiu aos ideais farroupilhas. “Difícil duvidar que tendo o marido ficado um tempo em Piratini, em algum momento Anita não esteve aqui”, defendem.

A casa se destaca das demais, na paisagem do centro histórico de Piratini, devido a degraus de madeira que levam até as portas principais. No local hoje funcionam a sede do Conselho Tutelar e a Junta de Serviço Militar.

No Museu Histórico Farroupilha, a única referência atual à figura de Anita é uma aquarela em papel, feita em 1985, por uma artista que assina apenas como Idília. A diretora do Museu, Angélica Panatieri, explica que a obra, um retrato de Anita, foi doada ao museu por ocasião do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha e integra uma série de reproduções de obras sobre vultos históricos.

Fuga de Anita
Outra obra pertencente ao acervo e que no momento se encontra em Porto Alegre, junto ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) para restauração juntamente com outras sete com tema sobre a Revolução Farroupilha, é a tela A fuga de Anita. Pintado a óleo por Dakir Parreiras, o quadro data do início do século e mede 2,16 metros de largura por 1,7 metro de comprimento e retrata a fuga da heroína catarinense para a floresta entre Lages e Curitibanos, em Santa Catarina.

No lombo de um cavalo, Anita é representada com o filho, Menotti Garibaldi, ainda bebê, no colo. O fato ocorreu assim que foi instalada a República Juliana em Lages e em Laguna. As oito obras, a maioria feita em óleo sobre tela e com data entre 1879 e 1925, estão no Margs desde abril de 2011, financiadas através da Lei Rouanet.

A coordenadora de Conservação e Restauro do Margs, Naida Corrêa, explica que das oito obras, as cinco menores estão concluídas. A fuga de Anita está entre as três de dimensões maiores e no momento o projeto está suspenso, por falta de recursos. “Já entramos com outro projeto da Lei Rouanet e esperamos que até o final deste ano, consigamos concluí-lo.”

Apenas Naida e uma outra restauradora que trabalha apenas com molduras trabalham na recuperação das obras e para vencer a demanda, necessita de ajuda. “São obras muito grandes e necessitam de mais mão de obra, já solicitada”, diz. Ela explica que a pintura foi muito prejudicada por intervenções anteriores, o que a modificou demais do original. “Eu acredito que foram feitas em épocas em que o restauro não possuía a técnica de que dispomos agora e feitas sem a intenção de prejudicar”, diz.

Das oito obras, o quadro de Anita é o que se encontra em pior estado, diz, mas o trabalho será feito procurando deixá-la o mais próximo possível do original, garante. Antes de voltar a Piratini, as obras restauradas devem ser expostas no Margs.

Livro dos heróis da Pátria
O livro registra perpetuamente os nomes dos brasileiros e de grupos de brasileiros que tenham dado a vida pela pátria “defendendo ou construindo, com dedicação e heroísmo”. Criado em novembro de 2007, pela lei 11.597, assinada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, o livro está depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O Panteão é um monumento de arquitetura modernista, simbolizando uma pomba, criada por Oscar Niemeyer. Também estão no livro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, dom Pedro I entre outros.

Linha Farroupilha
A Linha Farroupilha foi criada pelos arquitetos de Porto Alegre, Ceres Storchi e Vlademir Roman, consiste em um trajeto de 880 metros, dentro do Centro Histórico do município. A partir de sinalizadores e indicadores, instalados nas calçadas, junto a edifícios, logradouros e monumentos relacionados ao período farroupilha, o visitante pode se orientar sobre cada um dos pontos turísticos e conhecer melhor a história do município.

A partir de placas colocadas estrategicamente no início, meio e final do percurso, a partir de um QR Code lido em aplicativo de celular, o visitante é remetido ao site da linha. Os sinalizadores, com a marca da Linha, e indicadores, com o atrativo, os dois fundidos em bronze, estão instalados nas calçadas.

Sobre Anita
Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva, também conhecida como Anita Garibaldi, foi a combativa esposa do herói italiano Giuseppe Garibaldi. Nasceu na aldeia de Morrinhos, subúrbio do município de Laguna, em Santa Catarina. Seus pais eram descendentes de imigrantes dos Açores. Depois de perder o pai, casou-se, aos 15 anos, por insistência da mãe, com Manuel Duarte Aguiar. Esse matrimônio sem filhos foi um fracasso e durou pouco.

Em 1837, durante a Guerra dos Farrapos, Giuseppe Garibaldi, a serviço da República Rio-Grandense, tomou a cidade portuária de Laguna, transformando-a na primeira capital da República Juliana. Ali, conheceu Anita e desde então permaneceram juntos. Entusiasmada com os ideais democráticos e liberais de Garibaldi, ela aprendeu a lutar com espadas e usar armas de fogo, convertendo-se na guerreira que o acompanharia em todos os combates.

Durante a batalha de Curitibanos, o casal se separou, inadvertidamente, e Anita foi capturada pelo exército imperial. Presa, os oficiais a informaram de que Garibaldi havia morrido. Anita, que estava grávida, pediu então que a deixassem procurar o corpo de seu companheiro entre os mortos. Sem encontrá-lo e suspeitando que estivesse vivo, se aproveitou do descuido dos soldados, saltou sobre um cavalo e fugiu em meio aos disparos de seus perseguidores. Poucos quilômetros depois, deparou-se com o rio Canoas e, sem hesitar, lançou-se nas águas.

A perseguição cessou, pois os soldados acreditavam que ela estaria morta. Mas Anita passou à outra margem e vagou durante quatro dias pela mata, sem comer ou beber. Finalmente, reencontrou os rebeldes e, na cidade de Vacaria, uniu-se novamente a Garibaldi. Poucos meses depois nasceu o primeiro filho dos quatro que tiveram. Posteriormente, em 1841, Anita e Garibaldi seguiram para Montevidéu. A cidade estava sitiada pelas forças do argentino Juan Manuel de Rosas, que apoiava Manuel Oribe contra o ditador Fructuoso Rivera. O casal lutou ao lado de Oribe. O sítio durou cerca de nove anos, ao fim dos quais Rivera foi derrotado na batalha de Arroyo Grande.

Anita e Garibaldi casaram-se em 26 de março de 1842, na paróquia de San Bernardino. Em 1847, Garibaldi enviou Anita à Itália, como sua embaixadora, a fim de preparar o terreno para o seu retorno, que, acompanhado de um exército de mil homens, pretendia desembarcar na Itália para lutar na primeira guerra da independência italiana, contra a Áustria.

Depois da chegada de Garibaldi, eles seguiram para Roma, onde se proclamou a República Romana. A cidade, contudo, foi atacada por tropas franco-austríacas e Anita, grávida do quinto filho, lutou ao lado de Garibaldi na batalha de Gianicolo. Obrigado a bater em retirada, o casal fugiu acompanhado de um exército de quase quatro mil soldados. Foram perseguidos, contudo, por forças francesas, napolitanas e espanholas. Durante a fuga, quando chegaram a San Marino, que também havia se libertado dos austríacos, Garibaldi e Anita não aceitaram o salvo-conduto oferecido pelo embaixador norte-americano e decidiram prosseguir na fuga. Anita, entretanto, contraiu febre tifoide e não resistiu. Faleceu na fazenda Guiccioli, perto de Ravenna, em 4 de agosto de 1849.

Obrigado a fugir para o exílio, que durou dez anos, Garibaldi não acompanhou o funeral da esposa. Chamada de Heroína dos Dois Mundos, Anita está enterrada na colina de Gianicolo, em Roma, onde os dois são homenageados com estátuas equestres.


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