Polêmica

Utilização de pronomes neutros gera polêmica em Pelotas

Publicação feita nas redes sociais da prefeitura dividiu a opinião dos internautas e alguns alegam uso inadequado da Língua Portuguesa

26 de Janeiro de 2022 - 08h22 Corrigir A + A -
Rosa Chaves foi ao cartório buscar sua nova certidão de nascimento (Foto: Reprodução)

Rosa Chaves foi ao cartório buscar sua nova certidão de nascimento (Foto: Reprodução)

Publicação trata de tema atual e debatido, inclusive, em rede nacional (Foto: Reprodução)

Publicação trata de tema atual e debatido, inclusive, em rede nacional (Foto: Reprodução)

Texto dividiu opiniões (Foto: Reprodução)

Texto dividiu opiniões (Foto: Reprodução)

Uma polêmica foi criada recentemente nas redes sociais da prefeitura de Pelotas após uma publicação abordando o uso de pronomes conforme o gênero que a pessoa se identifica. Entre comentários de apoio ao conteúdo, houve também críticas, principalmente sobre a utilização de "elu/delu". Além de manifestações homofóbicas e transfóbicas, muitos questionaram o uso correto da Língua Portuguesa.

Em um dos comentários, um internauta escreveu "o português é tão lindo… Quando escrito de forma correta". Já outro publicou: "Meu Deus, Elu/Delu não existe. Língua Portuguesa jogou no lixo, né?". Na publicação original, o Poder Público ainda mencionou que janeiro é o mês da visibilidade trans e que o país é o que mais mata travestis e transexuais no mundo. A informação também gerou incômodo. "País que mais mata trans? Aqui se mata de tudo, cachorro, gato, homem, mulher, crianças, preto, branco. Agora não sabia que existia uma espécie intocável, que não pode sofrer violência]", escreveu um usuário do Facebook.

Há, no entanto, também quem tenha apoiado a mensagem do Executivo municipal. "Gente transfóbica não usa a Língua Portuguesa 100% corretamente, mas se acha no direito de reclamar de novas formas de uso do idioma. [...] Como se a própria língua não se modificasse ao longo do tempo", escreveu um usuário. Outro alertou sobre o que seria, em sua opinião, o verdadeiro problema. "[...] Acho que está bem claro que o que incomoda vocês não é a adaptação da gramática, e sim a tentativa de inclusão e respeito a minorias. Nenhuma novidade até aqui".

Reafirmar sua existência

"É uma coisa que nos persegue até o final", desabafa Rosa Chaves, 25, sobre a troca de pronomes. Mulher trans, a estudante recentemente foi ao cartório buscar sua "nova" certidão de nascimento. Um documento que para muitos é algo simples, para ela reafirma o gênero que sempre existiu em si. "Foi uma sensação de independência, como se fosse uma pessoa que antes estava presa a um nome, a um gênero, e depois conseguiu se libertar. É tu poder, agora, desfrutar daquilo que tu sempre foi", comenta.

Rosa conta que apesar das mudanças a dificuldade de aceitação do uso do novo pronome ainda ocorre por parte de familiares, amigos e colegas de trabalho. "Um sentimento de perder um pedaço de mim, que é a nossa identidade. Tu está sendo aquela pessoa e tem um grupo grande te dizendo o contrário. De uma forma impositiva, estão falando que aquilo que tu te considera talvez não seja, porque olham pra ti e chamam de 'ele'", desabafa. "Isso cria uma confusão dentro da gente. Eu me considero 'ela' e a pessoa tá dizendo que sou 'ele' e sei que não sou 'ele'. Então quem sou? Não existo?", questiona.

Apesar de lidar tranquilamente com a situação, a estudante lembra que essa não é a mesma realidade de todos e que, muitas vezes, pessoas acabam desenvolvendo problemas psicológicos ou até mesmo pensando em tirar a própria vida.

Posicionamento da prefeitura

Em nota, o Poder Executivo informou que a equipe responsável pelas redes sociais da prefeitura trabalha com assuntos que ultrapassam assuntos do governo. "Eles estão ligados no que acontece na cidade, no Estado e no país. Pelotas não é uma ilha. Recentemente, voltou à discussão, em rede nacional, o debate sobre questões LGBTQIA+ com a discussão sobre pronomes de tratamento para a população trans", diz o documento.

O assessor especial de Comunicação, Gustavo Azevedo, destaca ações de apoio desenvolvidas pelo Executivo, como a pintura especial no Dia do Orgulho, a distribuição de cestas de alimentos à população deste grupo que estava em vulnerabilidade durante a pandemia e o auxílio na organização da Semana da Diversidade. Ele ainda ressalta uma participação efetiva no Conselho Municipal de Direitos da Cidadania LGBT de Pelotas. "Pautas que tratam de direitos fundamentais do ser humano são importantes e precisam ser debatidas pela sociedade. Sobre as reações, é natural que as pessoas reajam", finaliza a nota.

Pode entrar na gramática?

O coordenador do curso de Letras da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Jeferson Schneider, diz que os debates sobre a língua sempre existiram, principalmente em questões ligadas à representatividade. "Ainda estamos muito presos à gramática normativa, querendo achar certo ou errado. Precisamos entender que existe o uso social, onde não há certo ou errado", comenta.

Para ele, a publicação feita pelo Poder Executivo está correta segundo o uso da língua em sociedade e incorreta segundo às regras da gramática normativa. O professor explica que existem diversos estudos sendo feitos sobre o uso dos pronomes neutros em Língua Portuguesa, incluindo o "elu/delu".

Sobre uma possível incorporação na língua, Schneider explica se tratar de um processo extenso, mas ressalta que quanto mais falados e debatidos, maiores são as chances de inclusão. Ele relembra a utilização da palavra "você", que após anos foi aceita, sendo uma variação de "vosmecê".


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