Reflexos

Uma Pelotas de ruas vazias e casas cheias

Uma semana depois do decreto que determinou o fechamento do comércio no município, fluxo de pessoas na cidade diminui; empresas passam a trabalhar a distância

28 de Março de 2020 - 10h39 Corrigir A + A -
Professora Rosane Feijó conta que, por já ter contato com os alunos nas redes sociais, teve uma adaptação mais fácil a nova rotina (Foto: Divulgação - DP)

Professora Rosane Feijó conta que, por já ter contato com os alunos nas redes sociais, teve uma adaptação mais fácil a nova rotina (Foto: Divulgação - DP)

Quem acordava pela manhã para começar o dia, há três semanas, avistava uma cidade completamente diferente da de hoje. Naquela ocasião, aos poucos, as ruas ficavam povoadas, a movimentação de carros e pessoas apressadas para o trabalho era rotina. Neste sábado (28), o comércio completa uma semana de portas fechadas. Nas ruas, o transporte coletivo circula desde a última segunda-feira com os horários reduzidos. As escolas das redes pública e privada estão com as aulas presenciais suspensas, enquanto as universidades dividem-se entre atividades acadêmicas a distância e com calendário suspenso. Um cenário a fim de combater a disseminação da Covid-19. 


Na educação, a estratégia foi buscar na tecnologia uma forma para que aprendizados continuassem presentes no dia a dia. Cristina Porciúncula é coordenadora do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e as aulas a distância logo completam a segunda semana de funcionamento. "Tivemos que encontrar os caminhos mais adequados. Paramos as aulas presenciais, mas não o aprendizado", explica. Do escritório, em casa, ela organiza e ministra as aulas, o que antes era feito dentro dos prédios da Universidade. Ela acredita que a flexibilidade e a aceitação do novo sistema são essenciais para que dê certo. "Uma aula presencial é bem diferente de uma a distância. Nesse momento, precisamos nos adaptar", ressalta.

Antes da pandemia de coronavírus, as atividades mediadas por tecnologia já pertenciam a uma parte da rotina acadêmica da professora. Ela ministra aulas em outros cursos da UCPel, com modalidade EaD, como Moda e Administração. Por isso, a determinação para manter todas as atividades a distância foi mais tranquila. Também professora da Universidade, Rosane Feijó, discente na graduação em Psicologia, conta que enfrentou a situação do mesmo modo. Por já ter contato com os estudantes nas redes sociais, a adaptação não foi difícil. "Está fluindo bem e o retorno é positivo. O impacto acontece sempre, porque mudaram a rotina e a correria do dia a dia", destacou.

O foco nas tarefas e a divisão de horários são importantes para que se consiga realizar um trabalho bem feito. A ilha de trabalho, improvisada na sala de jantar, é dividida com o filho, que também trabalha no estilo home office. Pela manhã, ele usa o espaço e, de tarde, a professora. "Tenho cuidado para manter a rotina, só respondo as mensagens do WhatsApp ou e-mail no horário que fiz de trabalho." A proximidade com os alunos, apesar da distância, aumentou: os e-mails recebidos com as tarefas, por exemplo, são acompanhados de mensagens carinhosas, como "te cuida" e "saudades". Trabalhar de casa requer disciplina. Psicóloga, ela aconselha quem está na mesma situação a manter a rotina diária, tal qual fosse sair para o trabalho. Além de aproveitar os momentos de lazer, como assistir a filmes, participar de jogos em família, ler e bater papo com os amigos.

A rotina de exercícios também precisa ficar em dia, com o número menor de horas em movimento, é preciso cuidar da saúde também dentro de casa. Personal trainer e gerente-coordenador de uma academia na cidade, Welton Francescatto explica que o treino deve seguir, mas na dose certa. "O treino mais intenso, próximo da exaustão, gera uma queda na imunidade, que acontece no pós-treino. Não é o ideal no momento, o importante é manter a imunidade alta", explicou. Pelo perfil oficial da academia no Instagram, a equipe realiza transmissões ao vivo de treinos mais leves, a maioria podendo ser feita apenas com o peso do próprio corpo. "A importância é que se mantenham ativos", completa.

Reuniões a distância e equilíbrio na rotina
Na primeira semana de isolamento, a produção foi mais baixa: é o que conta Isabella Teixeira, diretora de Negócios de uma empresa multinacional do ramo de comunicação e publicidade com sede em Pelotas. Antes do surgimento da pandemia, alguns membros da equipe já trabalhavam de maneira remota, longe dos escritórios. A dimensão agora é ainda maior. "É um grande desafio. A empresa nunca teve todos os funcionários trabalhando de casa", explica. Na última semana, por exemplo, uma webconferência foi realizada com todos os cem membros da sede na cidade. "Acredito que naturalmente esse sistema distanciaria as pessoas, mas a agência em pouco tempo tem buscado ferramentas para impedir que isso aconteça." Primeira vez trabalhando totalmente do próprio apartamento, Isabella relata que, com o tempo livre, tem aperfeiçoado conhecimentos, como cozinhar e a prática da meditação. "Tem o lado ruim de tudo, a solidão. E tem o lado bom, que é conseguir focar em coisas que podemos fazer dentro de casa."

Para quem segue nas ruas, horários reduzidos e muito cuidado
No início da semana, os ônibus do transporte coletivo do município passaram a circular com os horários de domingo e feriados na Zona Urbana, e horários de sábado nas linhas que levam os moradores à Zona Rural. Parte dos trabalhadores suspendeu os contratos ou saiu de férias, conforme acordo feito com os sindicatos. Os demais seguem nas ruas, com escalas de trabalho diferentes das anteriores à pandemia de Covid-19. É o caso de Alex Sandro Gaeta, que trabalha desde 2010 como cobrador. Para ele, a situação, nunca antes vista, fica mais preocupante por conta do número de idosos que segue circulando pela cidade.

Pessoas acima de 60 anos são consideradas o principal grupo de risco do novo coronavírus, e a recomendação é que fiquem em casa. "Esses dias alertei uma senhora que estava muito descrente do vírus e queria passear. Daí não tem como ajudar", comentou. Quanto ao cuidado para a não contaminação, os trabalhadores estão lavando as mãos com mais frequência, fora o uso do álcool em gel durante as viagens. Assim como ele, Tiago Carpes, motorista há 16 anos, trabalha na linha Interbairros. O condutor critica a escolha daquelas que ignoram as recomendações dos órgãos de saúde. "A pessoa é negligente com a saúde dela própria", argumenta.

Tiago conta que optou seguir com as escalas para que as contas sigam em dia. Todos os dias, esposa e filho o aguardam retornar para casa. Por isso, o cuidado nunca é demais. "Quando chego em casa o cuidado é redobrado. Tiro a roupa na porta e depois vou direto pro banho." No terminal, o consórcio orientou que o tempo de parada dos ônibus para reiniciar as viagens seja ainda maior, para facilitar na hora da esterilização. Supervisor operacional do terminal principal, localizado no Largo de Portugal, Márcio das Neves explica que os profissionais responsáveis pela fiscalização da lotação dos veículos também seguem trabalhando. "O objetivo é que os ônibus circulem com o menor número de passageiros, para que não tenha aglomerações dentro do transporte coletivo."

Isolamento social para achatar a curva do crescimento dos casos
Doutor em Epidemiologia e membro do Comitê Interno para Acompanhamento da Evolução da Pandemia por Coronavírus da Universidade Federal de Pelotas, Bruno Nunes alerta: as evidências científicas da Covid-19 ainda são iniciais, mas é preciso que ocorra o isolamento social para que os casos de pessoas infectadas diminuam. O objetivo principal da medida é que a ocorrência dos casos passe a ter uma temporalidade maior. "Se todos precisarem de cuidado intensivo ao mesmo tempo, o sistema de saúde não vai conseguir dar conta", frisa. Por todo o mundo, pesquisas ocorrem para evitar a propagação. O comitê da UFPel, por exemplo, tomou e segue decidindo as medidas que afetam a população a partir dos indicativos de profissionais especializados.

Os indícios são de que, com a quarentena e o distanciamento social de pessoas acima de 70 anos, o vírus perca forças quanto ao número de infectados. No Brasil, cientistas mapearam o genoma do vírus e concluíram que, por aqui, a doença adquiriu novas características. Por ser tudo muito novo, a população deve seguir as orientações dos órgãos de saúde, que tem como base pesquisas científicas como essa, realizada com infectados no Sul e Sudeste do país. "O problema é de todos, independentemente de quem vai se contaminar", conclui.


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