Pandemia

Um mutirão para garantir segurança aos profissionais da saúde

UFPel, IFSul e UCPel lideram iniciativas para produção de EPIs como máscaras e protetores faciais a quem vai atuar no combate à Covid-19

30 de Março de 2020 - 09h13 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Professores do curso de Design de Moda do CaVG, Paula Bittencourt Leite e Raphael Scholl, destacam a importância do engajamento social

(Foto: Carlos Queiroz)

Professores do curso de Design de Moda do CaVG, Paula Bittencourt Leite e Raphael Scholl, destacam a importância do engajamento social (Foto: Carlos Queiroz)

Professor do curso de Ciência da Computação da UFPèl, Guilherme Netto, lidera um dos grupos de produção de protetores faciais higienizáveis

(Foto: Carlos Queiroz)

Professor do curso de Ciência da Computação da UFPèl, Guilherme Netto, lidera um dos grupos de produção de protetores faciais higienizáveis (Foto: Carlos Queiroz)

Protetor facial que não depende de impressão de peças 3D surgiu como alternativa nos últimos dias

(Foto: Divulgação)

Protetor facial que não depende de impressão de peças 3D surgiu como alternativa nos últimos dias (Foto: Divulgação)

Uma grande corrente de solidariedade ganha força, transforma-se em frentes de trabalho e procura garantir os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) aos profissionais que permanecem nas linhas de frente para prevenir e combater o novo coronavírus, que já provocou mais de 26,5 mil mortes pelo mundo em apenas três meses. Balanço da Secretaria de Saúde de Pelotas confirma: só de máscaras respiratórias para rede hospitalar, Pronto-Socorro e Unidades Básicas de Saúde (UBSs) serão imprescindíveis em torno de 113,7 mil unidades por mês. Sem falar em itens, como os protetores faciais; a estimativa é de que 840 sejam necessários.

A 3ª Coordenadoria Regional de Saúde (3ª CRS) aguarda levantamento dos municípios , até amanhã, para saber ao certo a demanda de EPIs, que serão disponibilizados pelo Ministério da Saúde. A dificuldade, neste momento, é encontrá-los à venda no mercado. "Por isso, é de grande valia para a região e para todo o Estado estes tipos de iniciativas que temos visto", destaca a titular da 3ª CRS, Caroline Hoffmann.

São ações de generosidade individual, em lares de pessoas anônimas que descobrem dotes de costura. São ações desencadeadas por instituições de Ensino Superior, que organizam as atividades em diferentes locais - para evitar aglomeração -, contam com voluntários e não interrompem os mutirões nem aos finais de semana. O Diário Popular abre esta segunda-feira com destaque ao trabalho desenvolvido por equipes comandadas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (IFSul).

A moda pode ir, sim, muito além de roupas e passarelas
As palavras são esforço coletivo. E os números ilustram bem: quatro dias de trabalho _ em alguns momentos com dez horas de dedicação -, 15 pessoas envolvidas e 3,5 mil máscaras descartáveis confeccionadas. Um processo que começou do zero, no laboratório do curso superior de Design de Moda, do Campus Visconde da Graça (CaVG) do IFSul, na última terça-feira.

Da pesquisa sobre possíveis modelos aos primeiros riscos e cortes, até o protótipo se transformar em uma produção em série. Absolutamente manual. Inclusive, as primeiras duas mil máscaras foram cortadas com tesoura. Foi quando surgiu o apoio da empresa Felmaq, para agilizar a etapa de corte. "Como instituição pública temos este papel de prestar solidariedade. E aproveitamos para lembrar que a moda não é só roupa bonita. A moda tem um aspecto social, econômico e pode estar também vinculada à saúde", destaca a coordenadora do curso, Paula Bittencourt Leite.

O TNT 100% polipropileno foi doado pelo Hospital-Escola da UFPel, referência no atendimento à Covid-19, em Pelotas. E para que as máscaras estivessem prontas, além de professores, alunos e até mãe de estudantes se envolveram, com frentes de produção espalhadas em diferentes pontos. Tudo para que depois de higienizadas e esterilizadas, as máscaras possam ser entregues para assegurar proteção aos profissionais que assumem o compromisso de cuidar da saúde da população neste contexto de crise.

Protetores faciais: união de tecnologia e criatividade
- UFPel: O termo obstinação também se aplica. A última semana foi de estudos e testes até que os primeiros protetores faciais reutilizáveis estivessem prontos. O professor do curso de Ciência da Computação, Guilherme Netto, lidera o processo, já ganhou voluntários - inclusive sem nenhum vínculo com a UFPel - e tem a meta de atingir até 40 unidades, por dia, contabilizado o esforço dos 12 integrantes.
A peça que prende à cabeça vem das impressoras 3D e leva em torno de duas horas para ficar pronta. As lâminas de acetato para proteção do rosto são cortadas manualmente, uma a uma. E para arrematar a fixação, um elástico. "Fizemos de gana mesmo este negócio. É uma guerra contra o vírus", enfatiza o professor, em tom de agradecimento a quem tem se unido à causa.

- IFSul: O ritmo também é de mutirão. Mais de 30 pessoas, entre professores, alunos e técnico-administrativos dos cursos de Engenharia Elétrica, Eletromecânica, Mecânica, Edificações e Design unem-se na produção de protetores faciais reutilizáveis. Tudo para atender à lista de pedidos que já chega a cerca de 500 unidades a serem encaminhadas a serviços do Sistema Único de Sade (SUS) também de outras cidades do Estado.
Interessados em se juntar à corrente podem contribuir com a doação de materiais, sejam filamentos para impressora 3D ou lâminas de acetato - destaca o professor Júlio César Ruzicki. As equipes têm utilizado a tecnologia, inclusive, na produção de peças plásticas para manutenção de equipamentos fundamentais para vencer o novo coronavírus, como os respiradores.

- UCPel: Profissionais da Universidade Católica de Pelotas se juntaram ao projeto Hígia, que reúne professores, pesquisadores e proprietários de impressoras 3D de todo o país, e também deram a largada na confecção dos chamados face shield. Toda a produção será destinada às equipes do Hospital-Universitário São Francisco de Paula (HUSFP). O modelo foi validado por especialistas em Pneumologia e no atendimento de emergência de hospitais do Brasil, ao formar uma barreira adicional de proteção aos trabalhadores da saúde, já que não dispensa o uso de máscaras - explica o professor responsável pela iniciativa na UCPel, Ezequiel Megiato.
O projeto faz parte da rede colaborativa formada na internet e conta com doações em dinheiro e em materiais. Hospitais interessados em receber os protetores também podem fazer cadastro através do Hígia: https://linktr.ee/maria_elizete_kunkel.

Modelo de protetor facial, mas descartável
Um novo modelo de protetor facial começou a ser desenvolvido pela UFPel, como alternativa aos que dependem das impressoras 3D. No lugar do suporte de plástico, uma estrutura de esponja serve para prender o EPI à cabeça. A substituição do material, entretanto, torna-o descartável, já que não haveria como higienizá-lo com todos os cuidados que o cenário requer.

"Neste momento, o nosso objetivo é produzi-los para o HE e as cinco UBSs que têm gestão da UFPel", conta o pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento, Otávio Peres. E enfatiza que o final de semana seria de mutirão de dez voluntários, entre arquitetos e professores do Centro de Artes que decidiram engrossar as frentes de trabalho. Esforço concentrado para um bem coletivo.


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