Patrimônio

Um cenário de conto de fadas abandonado

Impasses na continuidade do restauro do Castelo Simões Lopes deixam população das redondezas apreensiva com a insegurança no local

23 de Setembro de 2021 - 19h51 Corrigir A + A -

Por: Vitória Leitzke
vitoria@diariopopular.com.br

Aberturas estão danificadas, permitindo entrada de vândalos no interior do prédio - Foto: Carlos Queiroz - DP

Aberturas estão danificadas, permitindo entrada de vândalos no interior do prédio - Foto: Carlos Queiroz - DP

Entrada no local não está autorizada pela prefeitura - Foto: Carlos Queiroz - DP

Entrada no local não está autorizada pela prefeitura - Foto: Carlos Queiroz - DP

Registro de visita de Getúlio Vargas ao Castelo, em meados de 1930 - Foto: Acervo Associação Victorino Fabião Vieira com colaboração de Guilherme Almeida - Especial - DP

Registro de visita de Getúlio Vargas ao Castelo, em meados de 1930 - Foto: Acervo Associação Victorino Fabião Vieira com colaboração de Guilherme Almeida - Especial - DP

O final feliz, típico de conto de fadas, do Castelo Simões Lopes parece estar longe de acontecer. Apesar do cenário ter potencial para remeter aos contos infantis, a realidade é outra. Passados cem anos do início da construção - e prestes a completar o centenário de história, ano que vem -, o complexo, localizado no bairro de mesmo nome e em uma das principais entradas de Pelotas, hoje é reflexo de abandono, ponto de tráfico de drogas e vandalismo, além de solidão em forma de pedras cinzas castigadas pelo tempo.

Quem vê o prédio atualmente não imagina o símbolo de modernidade que ele já foi um dia. A estrutura, de cimento armado, foi a primeira casa no município a ter sistema de aquecimento por calefação. Residência de Augusto Simões Lopes, importante figura política no Brasil, irmão do também político Ildefonso Simões Lopes e tio do escritor João Simões Lopes Neto, o local, que já recebeu grandes eventos políticos e sociais, além de visitas como as dos presidentes Washington Luís e Getúlio Vargas, foi adquirido pela prefeitura em 1990 e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) em 2012.

Impulsionado por uma lei municipal, criada em 2016, que viabiliza a revitalização, restauração e uso criativo de imóveis públicos, desde 2018, o Castelo estava sendo restaurado e revitalizado pelo vencedor da licitação, o Instituto Eckart, o qual, através da Lei de Incentivo à Cultura (LIC), da Lei Rouanet e de aporte de recursos de arrozeiras locais, vinha iniciando um novo capítulo para o complexo, com gestão até 2032. Entretanto, com a pandemia da Covid-19, as obras pararam e, em abril deste ano, houve a suspensão, por seis meses, renovável, do contrato, em comum acordo entre a prefeitura e o responsável, devido às dificuldades financeiras impostas pela crise sanitária.

Segundo a Secretaria Municipal de Cultura (Secult), até a suspensão, o Instituto já havia apresentado o projeto e iniciado a execução de parte da recuperação do muro e da garagem do prédio. Por fim, estavam elaborando a proposta de recuperação do jardim histórico do Castelo. Com a pausa, o Executivo - o atual responsável pelo local - determinou rondas da Guarda Municipal nas proximidades do prédio para evitar a continuidade das invasões e depredações.

"Entre a suspensão do contrato e a Guarda vir para cá [Castelo], o pessoal veio e acabou roubando algumas coisas. Foram levados alguns portões e janelas da garagem e alguns itens do banheiro [público], como vasos sanitários, torneiras e a porta. Agora fica uma dupla de guardas, 24 horas, e há uma viatura que faz a ronda no local", explica o secretário de Cultura, Paulo Pedrozo.

Questionada sobre a suspensão, a diretora do Instituto Eckart, Clarice Ficagna, afirma que a instituição está concorrendo a editais de financiamento e retomando os patrocinadores que saíram do Castelo para financiar ações na Santa Casa de Pelotas. "Caso alguma dessas iniciativas resulte em recursos, retomaremos. Senão, o convênio será encerrado", destaca, comentando também não ter a intenção de prorrogar a suspensão, com prazo determinado até o mês que vem.

Os patrocinadores citados seriam a Arrozeira Pelotas, SLC Alimentos e Engenho São Bento. Procuradas pela reportagem do DP para apresentar posição quanto ao interesse em continuar a parceria de investimento, até o fechamento da edição apenas o Engenho São Bento retornou, confirmando a intenção de manter o apoio.

A equipe do Jornal tentou entrar nas instalações para fazer fotos, entretanto não foi autorizada pela Secult devido ao risco de desabamento do telhado e à presença de insetos peçonhentos.

Um conto de abandono e insegurança

Essas são as duas características relatadas pelo vizinho do Castelo Simões Lopes, o administrador Mateus Tortelli. Morador da avenida Brasil desde 1994, ele conta que o local virou um "ponto morto" na esquina de casa, o que causa medo a quem precisa passar por lá. "Algumas pessoas pulam o muro e consomem drogas ali. Eu já vi gente passar na rua e eles pularem de volta, nunca se sabe se vão nos assaltar", comenta.

Apesar de Tortelli já conhecer o local, foram as ações realizadas em 2019 pelo Instituto que proporcionaram a ele levar os dois filhos para visitar o Castelo. "Eu vim com meus filhos e eu nunca tinha tido essa oportunidade. Eu tenho um filho de dez anos e outra com quatro e eu nunca tinha tido a chance de entrar com eles, mesmo morando do lado. Então a gente fica triste pela insegurança dos moradores, mas também pelo abandono. Para nós é uma indignação, porque valorizaria até as nossas casas", desabafa o administrador, que também ressalta a geração de emprego no bairro se fomentado o turismo no Castelo.

Até o início da pandemia, o prédio vinha recebendo eventos para angariar recursos à manutenção do restauro e promover a visitação do público no local. O último foi o Festival Internacional Sesc de Música, realizado em janeiro de 2020.


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