Pandemia

Um batalhão feminino na linha de frente contra a Covid-19

Nas áreas da saúde e assistência social, essenciais no enfrentamento do novo coronavírus, as mulheres representam mais de 80% dos trabalhadores

25 de Maio de 2020 - 10h00 Corrigir A + A -
“A vontade de auxiliar me convence de que fiz a escolha certa.” Aneluci Peixoto Campelo - técnica em enfermagem.

“A vontade de auxiliar me convence de que fiz a escolha certa.” Aneluci Peixoto Campelo - técnica em enfermagem.

“Estou no lugar correto: amparando e contribuindo.” Graciane Tavares - psicóloga

“Estou no lugar correto: amparando e contribuindo.” Graciane Tavares - psicóloga

Pelotas.N a saúde municipal o percentual é ainda maior: elas são 86,23% dos profissionais.(Foto: Michel Corvello/Ascom)

Pelotas.N a saúde municipal o percentual é ainda maior: elas são 86,23% dos profissionais.(Foto: Michel Corvello/Ascom)

“Eu jamais me negaria a tratar alguém doente.” Marina Müller - fisioterapeuta.

“Eu jamais me negaria a tratar alguém doente.” Marina Müller - fisioterapeuta.

As áreas da educação, saúde e assistência social são, histórica e majoritariamente, ocupadas pelas mulheres. Muitas meninas desejaram, um dia, ser professoras, médicas ou enfermeiras, e grande parte tornou real o sonho ao optar por estes ofícios cuja essência está em ajudar o outro.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 70% da força de trabalho nos nichos da saúde e assistência social, no mundo todo, sejam femininas. Índice que alcança um número maior quando o assunto é a pandemia causada pelo novo coronavírus. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), mulheres compõem 80% das equipes de enfrentamento da Covid-19. O percentual corrobora a constatação da realidade de Pelotas: um batalhão de trabalhadoras vive, há quase três meses, em prontidão na linha de frente das unidades públicas de saúde.

As mulheres representam 86,23% dos profissionais do setor da saúde municipal. Técnica de Enfermagem, Aneluci Peixoto é uma das 407 servidoras da Secretaria de Saúde (SMS) e faz parte do grupo que teve a vida transformada em março, quando surgiram os primeiros casos da infecção na cidade. Acostumada ao serviço de vacinação no Centro de Especialidades, há quase três meses se afastou da família - está vivendo na casa dos pais, que estão em um sítio, para proteger a filha e o marido - e passou a integrar a equipe do Centro de Atendimento a Síndromes Gripais, o Centro Covid.

“Meu esposo tem asma, meus pais são idosos; quem trabalha na saúde, por mais que saiba os protocolos e como se proteger, está sempre exposto. Então, percebi que era hora de me isolar e trabalhar. Foi para isso que escolhi a área da saúde”, relata a técnica. Ela também confidencia que ficou tranquila ao perceber a segurança da estrutura montada no local, a fim de proteger os profissionais. “A vontade de auxiliar e a certeza de estar segura me convencem de que fiz a escolha certa”, analisa Aneluci.

Mulheres nas unidades de referência
No Centro Covid elas representam em torno de 80% dos cem funcionários no serviço de referência voltado a pessoas com síndromes gripais, em especial a Covid-19. Estão presentes médicas, enfermeiras, auxiliares administrativas, higienizadoras, nutricionistas, técnicas de Enfermagem e farmacêuticas. As mulheres também dominam a equipe de outra instituição, com ala destinada exclusivamente a infectados pelo novo coronavírus: o Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel). 

Fisioterapeuta intensivista e especialista em atendimento de pacientes internados em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), Marina Müller é uma das 80 mulheres destacadas para atuar na ala Covid do HE-UFPel. O seu primeiro desafio foi, semelhantemente ao da maioria das colegas: ficar longe, durante 18 dias, do filho de quatro anos de idade. A segunda adversidade, relata Marina, diz respeito à compreensão e às descobertas em relação ao próprio coronavírus. 

“A gente estuda, estuda essa doença, porém sempre aparece uma novidade; isso é estressante. Tivemos de mudar rotinas, procedimentos, tudo pelo risco de contaminação no ambiente, então, no início, foi difícil. Mas eu sabia que precisava estar lá, que eu poderia assistir, com cuidados, os pacientes que seriam internados”, conta a fisioterapeuta.

Marina já voltou a ver o filho todos os dias e diz que está pronta para retornar, se for escalada novamente. “Jamais me negaria a tratar alguém doente”, assinala.

Gestoras no setor estratégico
A gestão de todas essas servidoras da saúde também é feminina. A titular da SMS, Roberta Paganini, explica que a presença de tantas mulheres nessa área está ligada à essência do gênero. “As mulheres, de um modo geral, são fortes, resilientes, criativas e possuem uma sensibilidade natural, que faz com que se coloquem no lugar do outro. Isso constrói o cuidado que queremos ter com os usuários do SUS”, argumenta Roberta. 

Todas as decisões relacionadas à pandemia em Pelotas são de uma trabalhadora da educação, segmento também interligado ao comprometimento com outros cidadãos. Para a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB), a experiência de governar um município, em meio a uma crise sanitária mundial, é semelhante tanto para homens quanto para mulheres. Todos possuem um sentimento de grande responsabilidade ao fazer escolhas, realizar deliberações, segundo a gestora pelotense.

“Eu sei que se tomar a decisão errada muita gente pode sofrer e, se tomar a decisão certa, muita gente também sofre. Estamos sempre caminhando no ‘fio da navalha’. Estou continuamente em busca do bom senso, do equilíbrio, para estabelecer medidas que controlem o avanço da doença, ou seja, que preservem vidas, mas também pensando na fase pós-pandemia”, sustenta a prefeita.

Paula acredita que a forma das mulheres conduzirem e resolverem os problemas é que as distinguem nesse momento. A prefeita reconhece o grande contingente feminino que faz parte dos dois órgãos municipais ligados diretamente ao enfrentamento e ao combate do avanço do vírus. Ela se diz tranquila por saber que todas elas estão à frente das ações da cidade contra a pandemia.

“Confio na sensatez, no bom senso, na sensibilidade, na capacidade de ouvir, olhar para as pessoas, na empatia que as mulheres desenvolvem e até por conseguirem fazer sacrifícios, como se afastarem das suas famílias em prol de outras pessoas. É por doação, tanto como servidoras públicas, quanto por amor, porque elas querem preservar as suas famílias. É admirável”, constata Paula.

Assistência a quem mais precisa
Se na saúde elas fazem valer o princípio da dedicação ao próximo, na seara da assistência social a crise atual tem tornado a atenção aos mais necessitados cada vez mais importante na vida de muitas profissionais. Do total de 397 trabalhadores, 321 são mulheres na Secretaria de Assistência Social (SAS), entre as quais 90% estão na linha de frente das ações de acolhimento das famílias e moradores atingidos.

A psicóloga Graciane Tavares está nesse grupo. No Cras São Gonçalo, o trabalho é intenso desde as primeiras mudanças na rotina de Pelotas com a Covid-19. A entrega de cestas básicas e o cadastramento de perfis diferentes de pessoas necessitadas, entre elas muitas que perderam o emprego, fazem com que a especialista perceba o quanto o serviço social é imprescindível. “As pessoas estão carentes financeiramente, no entanto, também precisam de informação. A procura aumenta cada vez mais. Por isso, sinto que estou no lugar correto: com mulheres, amparando e contribuindo”, enfatiza a psicóloga.

O contingente feminino na saúde em Pelotas
*Enfermeiras - 91,51%

*Técnicas e auxiliares de enfermagem - 89,27%

*Médicas - 62,32%em outros países, possa permanecer no Brasil. “Eu torço para que fique”, afirma.


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