Truculência

UFPel repudia agressões a equipes de pesquisa nacional da Covid-19

Episódios de violência contra entrevistadores que estão nas ruas em 133 municípios brasileiros motivaram nota emitida pela reitoria

17 de Maio de 2020 - 18h55 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Estudo adotado no Rio Grande do Sul, que já passou pelas três primeiras etapas, serviu de referência para o Ministério da Saúde decidir replicar a pesquisa em nível  nacional

(Foto: Daniela Xu - Especial DP)

Estudo adotado no Rio Grande do Sul, que já passou pelas três primeiras etapas, serviu de referência para o Ministério da Saúde decidir replicar a pesquisa em nível nacional (Foto: Daniela Xu - Especial DP)

Ao invés de respeito pela Ciência, truculência. No lugar de acesso facilitado para coleta de dados sobre a disseminação da Covid-19, agressão e materiais inutilizados. A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) emitiu nota, neste domingo (17), em repúdio a episódios ocorridos em vários estados brasileiros. Em cerca de 40 cidades, o Centro de Pesquisas Epidemiológicas - com quase 40 anos de trajetória e reconhecimento mundial - ainda não conseguiu dar início ao estudo populacional contratado pelo Ministério da Saúde; nos moldes do que já ocorre no Rio Grande do Sul.

A pesquisa é de interesse público. As visitas domiciliares, com aplicação de entrevistas e de testes rápidos, serão fundamentais para identificar a extensão da contaminação do novo coronavírus no país, assim como a velocidade com que a pandemia se espalha - e mata - no Brasil. A expectativa é de que os resultados ajudem a balizar a implementação de políticas públicas do governo federal.

Na prática, parte das autoridades não entendeu. Por mais que a comunicação formal do Ministério da Saúde aos municípios possa ter chegado muito perto do início da coleta de dados, nada justifica o comportamento de "xerifes" assumido por alguns gestores municipais, que impedem ou atrapalham a realização de uma pesquisa que, com o perdão da repetição, pode ajudar a salvar a vida de milhares de brasileiros - destaca a nota.

A UFPel ainda reforça o apelo para o documento ser amplamente divulgado, inclusive com apoio da comunidade em geral. Em texto de 36 linhas, a instituição destaca a conduta da prefeitura de Manaus, no Amazonas, que, apesar de ser a cidade brasileira mais afetada pela Covid-19, foi a primeira a encerrar a rodada de coleta de dados; com todo suporte aos pesquisadores.

Cenas lamentáveis
Episódios de violência foram registrados em estados, como Piauí, Espírito Santo, Maranhão, Goiás, Ceará, Mato Grosso e Rio Grande do Norte. Em casos extremos, as equipes foram conduzidas à delegacia e os testes rápidos foram apreendidos. Profissionais também chegaram a deixar os municípios sob ameaça. Agressões, na rua, sob a acusação de que violavam a quarentena, também foram relatadas pelos entrevistadores.

Apesar de tudo, nossas equipes estarão em campo até a terça-feira, dia 19 de maio, para garantir que o maior estudo populacional sobre coronavírus do Brasil continue ajudando a salvar a vida de milhares de brasileiros - reforça a nota assinada pela UFPel.

Entenda melhor o estudo 
O estudo Evolução da Prevalência de Infecção por COVID-19 será dividido em três rodadas para coleta de informações. Ao todo, 99.750 pessoas serão entrevistadas e testadas em 133 municípios brasileiros. Para definir quais os territórios receberiam a pesquisa, o alvo voltou-se à maior cidade das 133 regiões intermediárias do país. Ficavam definidos, portanto, os 133 municípios.

O projeto EPICOVID-BR, coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas, foi submetido à apreciação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e aprovado em 28 de abril. Para a coleta de dados, foi contratado, após processo seletivo, o Ibope, com larga experiência em estudos populacionais.

O coordenador da pesquisa e reitor da UFPel, Pedro Curi Hallal, destaca que todos os requisitos éticos e de segurança são seguidos à risca, como uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), inclusão apenas de entrevistadores com teste negativo para anticorpos do novo coronavírus e instruções para o descarte dos materiais; conforme pactuado com o Ministério da Saúde.

Com todo o passo a passo atendido e o conhecimento do Centro de Pesquisas Epidemiológicas para liderar este tipo de estudo, na última quinta-feira teve início a primeira saída de campo. Agora resta a truculência dar espaço à Ciência.

 


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