Estudo

UFPel consegue produzir soro capaz de neutralizar Covid-19

Soro hiperimune elaborado a partir de testes com cavalos deve ser testado em humanos saudáveis

19 de Outubro de 2020 - 08h30 Corrigir A + A -
Estudo. Objetivo é evitar o aumento dos sintomas e agravos do coronavírus. (Foto: Divulgação - DP)

Estudo. Objetivo é evitar o aumento dos sintomas e agravos do coronavírus. (Foto: Divulgação - DP)

Um estudo desenvolvido pelo Programa de Pós-graduação em Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) alcançou a neutralização do vírus causador da Covid-19 por meio do soro hiperimune, produzido a partir de testes em cavalos. A técnica de injeções em animais é bastante conhecida pela ciência, responsável pela produção de substâncias como o soro antitetânico e antirrábico. Da mesma maneira como estes são utilizados, o objetivo do soro da UFPel é evitar o aumento dos sintomas e agravos do coronavírus no organismo.

O estudo iniciou em abril, pouco depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretar situação de pandemia. Instigado a compreender a semelhança entre o vírus da Covid-19 com o SARS-CoV-1, causador de outras epidemias respiratórias, o professor da pós-graduação em Veterinária da UFPel, Carlos Eduardo Nogueira, passou a trabalhar com o objetivo de produzir anticorpos capazes de neutralizar a doença.

Assim, os cavalos foram expostos ao vírus inativado e passaram por uma série de coletas no sangue, a fim de identificar os anticorpos. “O caminho é expor os animais ao vírus para que o sistema imunológico (de resposta) dê um retorno”, explica o doutor em Medicina Veterinária. A comprovação da eficácia do soro se deu na última semana, com a resposta positiva no terceiro grupo de animais testados.

A pesquisa ainda passará por outras fases até que os ensaios clínicos iniciem no sistema imunológico de humanos saudáveis. Entretanto, o objetivo está bastante delimitado: utilizar o soro nas fases iniciais da doença, dentro dos hospitais. “Não temos ainda a comprovação de uma medicação específica para o tratamento da Covid-19. Para isso é preciso tempo, é algo que não se faz do dia pra noite. Por isso optamos por utilizar uma técnica que já conhecíamos, temos tudo nas nossas mãos para replicar esses resultados”, aponta Nogueira.

Em princípio, a aplicação funcionará de forma bastante semelhante aos demais soros já produzidos em larga escala farmacêutica. Quando o paciente dá entrada no hospital com os sintomas, recebe a injeção a fim de minimizar a força da doença. “Cada soro neutraliza uma partícula do vírus, para conter os danos no organismo”, explica. Nos testes, os resultados de neutralização atingiram até 256 partículas do vírus.

Como será o teste em humanos?

Os próximos passos do estudo têm como expectativa a replicação dos resultados positivos com a aplicação nos equinos. Os testes em humanos ainda não têm previsão para acontecer, mas já possuem dois lugares garantidos: o Hospital-Escola da UFPel e o Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr. (HU-Furg). A Universidade Federal do Rio Grande é parceira no estudo. Para que o soro seja distribuído em grande escala, uma empresa farmacêutica precisa comprar a pesquisa.

Os ensaios clínicos contarão com pacientes com diagnóstico positivo para Covid-19 através do teste RT-PCR, com idade entre 18 e 70 anos e que estejam no estágio inicial da infecção, apresentando febre, tosse seca, cefaleia ou diarreia. Os voluntários não podem ter recebido nenhuma terapia com imunomoduladores, tais como corticosteróides, tocilizumabe, inibidores de interleucinas e imunoglobulina de pacientes convalescentes ou semelhantes. A estratégia de tratamento com imunização passiva permitirá uma resposta rápida, essencial em casos graves.

Entenda a metodologia e saiba quem são os participantes do estudo

A pesquisa tem como proposta a injeção de anticorpos (F(ab’)2) anti-SARS-CoV-2 e contra epítopos da proteína S produzidos a partir da imunização de equinos. Ao todo, 24 cavalos foram disponibilizados pelo Centro de Ensino e Experimentação em Equinocultura da Palma (UFPel) e em colaboração com Hospital de Clínicas Veterinárias da universidade. De início, a pesquisa partiu da aplicação do vírus inativo em três grupos de quatro animais cada e depois evoluiu para seis grupos.

O professor Nogueira, um dos coordenadores do projeto, destaca que nenhum animal foi maltratado durante as fases do estudo. Além disso, o trabalho está de acordo com as recomendações do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e foi aprovado pelo Comitê de Ética de Experimentação Animal da UFPel. Os ensaios clínicos em humanos serão realizados de acordo com as recomendações das Comissões de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade e da Área da Saúde da Furg (Cepas).

Dezenas de pessoas estão envolvidas no estudo, além de quatro universidades públicas. São doutores, mestres e graduandos da UFPel, da Furg, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), da Universidade de São Paulo (USP) e ainda da Universidade Tecnológica de Braunschweig, da Alemanha.

O vírus inativo foi disponibilizado pela Universidade Feevale. Dentro da UFPel, foram envolvidos os Laboratórios de Microbiologia, da Faculdade Biotecnologia, de Imunologia Aplicada e Pesquisa em Doenças Infecciosas e de Virologia e Imunologia. “É interessante observamos que a universidade não está alheia a isso tudo. Estamos cada um trabalhando na sua expertise para ajudarmos em algo maior”, completa Nogueira.


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