Mobilidade

Transporte coletivo: um raio-x da chegada do CTCP até aqui

Serviço apresentava queda nos números antes da pandemia. Poder Público crê em melhora

27 de Setembro de 2021 - 08h29 Corrigir A + A -
Frota reduziu mai de 50% desde início da pandemia (Foto: Jô Folha - DP)

Frota reduziu mai de 50% desde início da pandemia (Foto: Jô Folha - DP)

Depois de mais de um ano de pandemia, a funcionalidade do transporte coletivo de Pelotas ainda é um assunto que gera debates. Com mais de 50% da frota reduzida, comparada ao primeiro ano de Consórcio, a população, especialmente dos bairros, acumula queixas nas paradas: o tempo de espera, a redução das linhas e os veículos lotados.
A reportagem percorreu alguns pontos de ônibus na General Osório e o que ouviu foram as mesmas reclamações, principalmente de quem precisa utilizar o coletivo diariamente para trabalhar. Alexandre Martins, 48, trabalha no comércio da cidade e utiliza a linha Bom Jesus. Questionado sobre como avalia o serviço, ele não precisou pensar muito na resposta: “É péssimo”. Martins explica que depois de um certo horário só passa a linha Direita, que também serve para ele, mas acaba não o deixando tão perto de casa. Mesmo que reduzidos, os horários disponibilizados não o atrasam para o serviço, mas, mesmo assim, ele questiona a demora entre os veículos.
Aos 81 anos, Nádia Laceiro utiliza o ônibus todos os dias para trabalhar. A aposentada conta que chega a esperar o Arco Íris por uma hora alguns dias. Ela garante que antes a espera não chegava a 15 minutos. “E tem vezes que ele nem para, vem sempre cheio”, lamenta. Além disso, a idosa lembra das pessoas que não têm a gratuidade, como ela. “E quem precisa pagar? É absurdo.”
Mais uma passageira diária do transporte coletivo é Gabriela Alves, 30. Ela mora no Sítio Floresta e sente falta da linha Rota do Sol. Com a extinção da rota, o tempo para chegar em casa ficou ainda maior. “Se eu perder o que estou acostumada a pegar, fico mais 40 minutos na parada. E tenho uma filha pequena que anda comigo quando tem pediatra e nesses dias não sinto segurança em relação à Covid”, fala, comentando sobre a demora e sobre os veículos cheios. A respeito do valor da tarifa, ela não nega que acha alto, mas pensa nos salários dos trabalhadores. “Não está bom pra ninguém”.

Cenário atual

O secretário-executivo do Consórcio do Transporte Coletivo de Pelotas (CTCP), Enoc Guimarães, avalia que o transporte coletivo já vinha passando por crise em todo país e isso foi agravado com a pandemia. “E acabou colocando em xeque o atual modelo. É preciso debater alternativas para sobreviver”, completa. Quando se fala nessas alternativas, Guimarães não nega que uma delas é polêmica e aponta a retirada dos cobradores como um ponto a ser analisado.
Ele acredita que a saída dos trabalhadores da catraca traria qualidade, evolução e geração de outros empregos. “A tarifa cairia, o transporte coletivo retornaria a ser massivo e isso refletiria em mais vagas de motoristas, abastecedores e lavadores, por exemplo. Para pensarmos em mobilidade e qualidade precisamos de um transporte coletivo competitivo”, diz, explicando que hoje o risco de desemprego ameaça todo o setor, não só os cobradores. Em 2016, quando o CTCP foi criado, mais de mil trabalhadores estavam envolvidos diretamente. Hoje, são pouco mais de 400.
Outro ponto destacado é a evolução tecnológica, que, caso um dia ocorra a saída dos cobradores, terá que vir à tona com a troca dos validadores, pois precisariam aceitar pagamento em débito e crédito. Em Pelotas, esse tipo de equipamento ainda não está rodando dentro dos ônibus, mas Guimarães conta que já existem 30 modelos sendo configurados para rodar até o final do ano. Em questões tecnológicas, a cidade conta com os validadores que aceitam cartão específico de passagens e com câmeras e sistema de GPS nos ônibus, tudo de cinco anos para cá.

Tarifa e frota

“O diesel nunca custou o preço de uma passagem”. É assim que o responsável pelo CTCP começa sua fala quando questionado sobre os atuais valores. Ele aponta que a “equação não bate”, já que o número de usuários diminuiu. Em 2016, o Consórcio se programou para ter uma receita de R$ 10 milhões e hoje fatura apenas 35% deste valor. Porém, não dá para dizer que a pandemia foi o único fator para essa queda, já que desde 2018, com a chegada do transporte por aplicativo, os números começaram a cair.
No primeiro ano de licitação, 222 ônibus rodavam pela cidade. Em 2018, esse número caiu para 200 e em 2020 para 175. Com as restrições da pandemia, atualmente cerca de 90 carros são responsáveis por todas as linhas. Enoc Guimarães acredita que se não fosse a crise sanitária, cerca de 150 estariam trabalhando. Sobre a queda, ele explica que em áreas mais próximas ao Centro houve maior diminuição de passageiros. “O aplicativo trabalha mais nessas regiões’’, aponta. Já nas linhas mais longas, como as da ão de forma tão grave. Comparando os números, em julho de 2016, o transporte carregava três milhões de pessoas ao mês, sendo mais de dois milhões pagantes. Em novembro de 2019, reduziu para 1,7 milhão de pagantes e 800 mil isentos. O pior cenário fica por conta de 2021: 600 mil pagantes e 300 mil com a gratuidade. 

Expectativas da STT

O secretário de Transporte e Trânsito, Flávio Al Alam, não esconde o orgulho que tem dos cinco anos de licitação. “Viramos uma chave importante com a bilhetagem eletrônica, com câmeras, GPS e aplicativo”, fala. Além disso, cita a melhora na frota com os cem ônibus novos que chegaram em 2016 e a transparência pela qual a Secretaria de Transporte e Trânsito (STT) preza. Ele reforça a maioria dos pontos citados por Guimarães, como o início da crise em 2018 e o agravamento dela com a chegada da pandemia. “Sofremos diretamente e imediatamente. De cem mil passageiros por dia, fomos a 25 mil”, relembra. Diante dessa realidade, o que restou foi a adaptação e a redução de horários e a união de linhas precisaram acontecer.
Al Alam também falou sobre o aumento do diesel e a impossibilidade de manter a passagem a R$ 4,00. “Em novembro de 2020 já deveria ter subido, mas retiramos impostos e subsidiamos uma parcela do valor”. Nesse sentido, o secretário recorda as cinco parcelas repassadas ao CTCP para que o usuário seguisse pagando R$ 4,00. Porém, em agosto, com a necessidade de aumento salarial dos rodoviários e com a inviabilidade do Poder Público seguir repassando a quantia, a passagem foi a R$ 4,50.
No entanto, mesmo diante de uma realidade nada agradável, Al Alam tem expectativas boas. Ele conta que desde junho o movimento começou a se intensificar e neste mês cerca de 48 mil usuários ja utilizam o serviço diariamente. Sobre as principais queixas, ele garante que a STT trabalha diariamente por melhorias e de junho para cá mais de cem horários - sempre no pico - foram aumentados. “Agora estamos discutindo os horários da noite”, adianta.
Ele acredita que quando for possível chegar a 70% de recuperação “voltaremos a equilibrar”. Entre as principais metas está a recuperação do passageiro perdido. Sobre a retirada dos cobradores, Al Alam afirma que é um assunto que precisa ser construído em conjunto. “Estamos dispostos a conversar sem enfrentamentos. Não será uma imposição”.
Outro ponto levantado por Al Alam e Guimarães é o projeto de lei que garante ressarcimento da passagem dos idosos. O responsável pelo CTCP explica que o governo federal criaria uma espécie de fundo para subsidiar esse valor em municípios com mais de 50 mil habitantes. “Acredito que em Pelotas seria possível deixarmos a tarifa em R$ 3,50”, pontua. O projeto, porém, ainda está em tramitação.


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