Saúde mental

Trancar não é cuidar

Caps Porto promoveu uma ação nesta terça-feira para debater sobre a luta antimanicomial

21 de Maio de 2019 - 23h04 Corrigir A + A -
Usuários do serviço oferecido pelos Caps tiveram a oportunidade de falar sobre suas experiências. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Usuários do serviço oferecido pelos Caps tiveram a oportunidade de falar sobre suas experiências. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A luta pela mudança no modelo de atenção à saúde mental começou lá em 1980, junto com a redemocratização do Brasil. Só em 2001, com a chamada Lei da Reforma Psiquiátrica, que o país definiu diretrizes mais humanizadas ao tratamento de pessoas em sofrimento psíquico. No entanto, em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde (MS) divulgou uma nota técnica em que tocava em pontos referentes à terapia desses pacientes, como o aumento no número de leitos em hospitais psiquiátricos e a liberação de verba para a compra de aparelhos para aplicação de eletrochoque. Essa publicação foi repudiada pela comunidade psiquiátrica e ativistas da luta antimanicomial. Por isso, na tarde desta terça-feira (21), o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do Porto promoveu uma ação na praça Coronel Pedro Osório, integrando servidores, estudantes e usuários do serviço, com o objetivo de debater a importância do cuidado em liberdade e aproximar a comunidade dos Caps.

A atividade se estendeu até às 17h30min e contou com a presença de trabalhadores da saúde mental, professores e estudantes universitários e usuários, oriundos de todos os Caps de Pelotas, de forma a integrar os serviços. Um microfone estava à disposição de quem quisesse contar sua história e como os centros auxiliaram nessa luta. A enfermeira do Caps Porto, Etiene Menezes, explica que o projeto já promoveu ações como a de terça-feira, e o principal intuito é, nesse momento, se aproximar da população. "Há uma invisibilidade na comunidade", avalia. Marta Janelli e Janaína Willrich, professoras dos cursos de Psicologia e Enfermagem, respectivamente, ressaltam a importância de mostrar como o trabalho é feito dentro dessas instituições e como ele é diferente da metodologia dos hospitais psiquiátricos. "Cuidar não é prender", completa Janaína.

A interrupção de repasses também preocupa profissionais. De acordo com Izamir de Farias, coordenador do Caps Porto, mais de mil atendimentos são realizados por mês, e muitos deles são considerados casos graves. A recente publicação do MS, na visão de Izamir, é uma questão política que demonstra um retrocesso ideológico. A luta, agora, é para assegurar a lei de liberdade aos pacientes e não permitir que o antigo modelo manicomial seja novamente acionado. Para isso, a comunidade precisa estar ciente e entender as consequências do desmonte da saúde mental. A coordenadora da Saúde Mental da Secretaria de Saúde (SMS), Gicelma Kaster, afirma estar orgulhosa de ver servidores e usuários se unindo nessa caminhada para manter tudo que se conquistou nessa área ao longo de muitos anos. "Os pacientes pedem para que a gente não perca isso", justifica.

O tratamento focado no cuidado em liberdade e de forma particular garante a autonomia e dignidade aos pacientes em sofrimento psíquico. Os Centros de Atenção Psicossocial são, hoje, referência no resgate de usuários, trazendo-os de volta à sociedade. Claudiomir Ferreira, presidente da Associação dos Usuários de Serviços de Saúde Mental de Pelotas (AUSSMPE), relembra o último dia 18, intitulado Dia Nacional de Luta Antimanicomial, e já adianta que a próxima quarta-feira, dia 30, acontecerá mais uma ação dos Caps do município. "A gente precisa se reunir e dar a cara à tapa", explica. Esses manifestos são importantes à medida que mostram a luta de trabalhadores e pacientes contra os manicômios e o clamor por mais estrutura nos Caps. O descaso com a saúde mental é sentida por todos. "Os usuários sofrem na pele", completa Claudiomir.

O serviço precisa continuar
Epifânio Silveira viu seu sofrimento psíquico ser controlado em um Caps. Diagnosticado com bipolaridade há sete anos, já tentou cometer suicídio e teve sete baixas no Hospital Espírita. "Eu via vultos, ouvia vozes", conta. Há três anos ele passou a ser atendido pelo Caps Porto e nunca mais precisou ser internado. O serviço mudou sua vida: "se não fosse esse serviço, eu já teria morrido". Já Vera Maria Oppa, de 72 anos, viu seu filho se recuperar durante 17 anos dentro do Caps. Em 2017 ele recebeu alta, mas segue frequentando as atividades promovidas pelos servidores. Depois de passar anos convivendo com o preconceito, Vera vê seu filho viver uma vida "praticamente normal" e se expressando livremente. O contexto atual de desmonte da saúde mental fez com que ela fosse às ruas para lutar pelo serviço. "Estamos muito assustados", confessa.


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