Saúde

Soropositivos reclamam dos atendimentos

Serviço Especializado está com equipe reduzida em razão da pandemia do novo coronavírus

31 de Julho de 2020 - 11h19 Corrigir A + A -
Medo: SAE passou a receber demanda de quem já não buscava mais o serviço (Foto: Jô Folha - DP)

Medo: SAE passou a receber demanda de quem já não buscava mais o serviço (Foto: Jô Folha - DP)

Desde março, as consultas ambulatoriais e demais procedimentos eletivos em Pelotas passaram por três suspensões, devido à pandemia da Covid-19 e as medidas de prevenção. A última liberação dos serviços ocorreu em 14 de julho, incluindo também os atendimentos a pacientes do Serviço de Atendimento Especializado (SAE), bem como a disponibilização da Profilaxia Pré-exposição (PrEP), serviços voltados a pessoas diagnosticadas com HIV/Aids. No entanto, os pacientes reclamam de descaso municipal com o grupo, por conta da demora para a realização dos procedimentos - fator que influencia na eficácia do tratamento.

Os pacientes mais antigos estão com dificuldades para marcar consultas, conforme explicou o representante municipal da Rede Nacional de Pessoas Vivendo Com Hiv e Aids. O problema tem feito parte da vida dos soropositivos indetectáveis, aqueles que realizaram o exame de carga viral em um período superior a 12 meses. No período da pandemia, o tratamento seguido por esse grupo pode ter falhas, o que exige um novo exame para quantificar o HIV que existe no sangue de uma pessoa.

O conselheiro responsável pela Diretoria de Atenção Especializada e Hospitalar, do Conselho Municipal de Direitos da Cidadania LGBTi, Rodrigo Rosa, lembra da diminuição de profissionais no SAE desde março, por conta do decreto municipal que afastou dos postos de trabalho os servidores pertencentes aos grupos de risco ao coronavírus; outros profissionais foram realocados em outras unidades de saúde municipal. Ao todo, são três médicos atendendo as consultas e emissão de receitas médicas, além de duas enfermeiras. Antes da pandemia, eram em torno de sete médicos voltados aos atendimentos ao adulto e outros dois à ala pediátrica.

Também por conta da Covid-19, pacientes soropositivos com abandono estão retornando ao atendimento no SAE, por medo de estarem com o organismo fragilizado e contraírem a doença. Assim, a demanda aumentou e os profissionais diminuíram. “Muitas pessoas que vivem com HIV/Aids, na pandemia, tiveram problemas com a adesão ao tratamento por conta do fator psicológico. Se ocorre uma falha significativa no tratamento, o organismo pode criar uma resistência a ele”, explicou Rosa, quanto à importância do serviço.

O agendamento das consultas ambulatoriais se tornou um problema. O representante da Rede Nacional, por exemplo, relatou que está há mais de um mês em busca de encaminhamento para uma especialidade. Após consultarem no SAE, os pacientes recebem encaminhamento para serviços como o Hospital Dia, pertencente ao Hospital-Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). “Pelotas tem um grande descaso com as pessoas que vivem com HIV e Aids. Se a gente não morrer de Covid, vamos morrer com alguma infecção”, criticou.

Ponto positivo

Depois da chegada do coronavírus na cidade, a dispensação de medicamentos na farmácia do Serviço Especializado passou de 30 para 60 dias, ponto visto como positivo pelos representantes dos direitos das pessoas com HIV/Aids. Um documento elaborado pela Diretoria de Atenção Especializada e Hospitalar, do Conselho Municipal de Direitos da Cidadania LGBTi e enviado à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirma que “é possível manter essa dispensação para mais tempo, mesmo depois de passada a pandemia”. O documento tem data de envio antes da publicação do decreto que liberou o funcionamento do serviço. A carta também solicitava o retorno da Profilaxia Pré-exposição (PrEP), que estava suspensa há quatro meses.

Resposta da gestão e SMS

Coordenador do SAE, o médico Cezar Pinheiro admite que a equipe está menor, o que consequentemente diminui a capacidade de atendimentos. “Estamos atendendo dentro da nossas condições de manter o possível nessa situação muito difícil”, garante. Em soma, a diretora da Atenção Especializada e Hospitalar da SMS, Fernanda Lessa, explicou que o serviço está priorizando determinado público, de forma que não há negativa na prestação das consultas. É o caso daqueles pacientes soropositivos que estavam em situação de abandono do tratamento e, com receio da Covid-19, voltaram a buscar o serviço. “Um número menor de profissionais estão atendendo esses pacientes. Com a chegada da pandemia de Covid-19, muitos pacientes que não estavam se tratando de forma adequada, retornaram pro serviço. A prioridade é desses pacientes”, ressaltou. Essa medida vale para o primeiro momento, que até então é de retomada dos atendimentos no local. O SAE fica localizado no ambulatório da Faculdade de Medicina da UFPel, na rua Almirante Guilhobel, 221A, Bairro Fragata.


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