Religiosidade

Seis décadas de dedicação à religião

Há exatos 60 anos Dom Jayme Chemello era ordenado padre da Igreja Católica; Hoje, é Bispo Emérito de Pelotas

06 de Dezembro de 2018 - 08h30 Corrigir A + A -
Dom Jayme é amigo pessoal dos últimos três papas (Foto: Paulo Rossi - DP)

Dom Jayme é amigo pessoal dos últimos três papas (Foto: Paulo Rossi - DP)

Livros são uma grande companhia de Dom Jayme na aposentadoria (Foto: Paulo Rossi - DP)

Livros são uma grande companhia de Dom Jayme na aposentadoria (Foto: Paulo Rossi - DP)

São Marcos ainda era um distrito de Caxias do Sul quando, há exatos 60 anos, o jovem Jayme Henrique Chemello era ordenado padre da Igreja Católica. Hoje, aos 86 anos de uma vida dedicada em boa parte à religião, Dom Jayme vive com tranquilidade no Seminário São Francisco de Paula. Dentre as realizações, estão ter presidido por duas gestões a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ter sido bispo da Diocese de Pelotas.

Antes, porém, Dom Jayme estudou em Buenos Aires. Começou o curso de Filosofia, mas precisou voltar ao Brasil após a Revolução Libertadora, organizada por Juan Perón em 1955. Seis meses depois, voltou ao país vizinho, mas para estudar Teologia. O caminho religioso, no entanto, começou a ser traçado muito antes. "Minha mãe era muito, muito católica", relembra. Na infância, um bispo amigo da família já tinha sugerido que ele tinha "cara de padre". A mãe estimulou que ele pensasse com carinho na sugestão. E, aos poucos, foi descobrindo o caminho.

Dez anos depois, em abril de 1969, foi ordenado Bispo. Já estabelecido em Pelotas, passou a ser bispo-auxiliar na diocese local. Tornou-se o bispo diocesano em 1977, cargo que ocupou até 2009, quando se aposentou. Na cidade, o trabalho com jovens sempre foi uma paixão. Foi capelão no Colégio Gonzaga, professor lá e em outras escolas, além da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), onde lecionou, principalmente na faculdade de Medicina. Teve papel fundamental também na fundação do Movimento Jovens de Nazareth. Ainda hoje, procura a proximidade com esse público e segue participando dos encontros.

Sempre envolvido no máximo de atividades possíveis, hoje ele brinca com a vida corrida que teve. "Fiz coisas até demais", recorda. A presidência da CNBB, no final dos anos 90 e início dos 2000, é um exemplo. A função política era cansativa, reconhece. Dormia e acordava focado e o telefone nunca parava. Na CNBB, trabalhou também na formação de padres. As atividades ligadas à confederação faziam ele ter escritórios em três países diferentes ao mesmo tempo - Brasil, Itália e Colômbia.

Amazônia
Em suas viagens, Dom Jayme percebeu que na floresta da Amazônia havia muitas comunidades sem padres, missas e com muita violência. Preocupado, coordenou a organização que buscava evangelizar a localidade. Isso era uma das preocupações do então Papa João Paulo II. "Lá tinha muita coisa estragando a natureza e a vida humana", relembra. A ajuda veio através de palavras e ações que buscaram dignificar um pouco a vida das comunidades carentes da região.

Relação com os Papas e a gestão de Francisco
Os laços de amizade com os três últimos Papas foram estreitos. Quando ia a Roma, sempre recebia convites de João Paulo II para almoçarem juntos. Hoje, recorda as conversas com ele, que envolviam inúmeros temas, como a visita do Santo Padre ao homem que atirou nele. Apesar da proximidade com Bento XVI, relembra que este Papa preferia almoçar sozinho, para pensar durante as refeições.

Com Francisco, a relação não é diferente. "Ele é muito atualizado. Eu acho que ele está fazendo bem", analisa. E esse bem é feito principalmente para os não católicos, que na opinião de Dom Jayme, veem uma maior abertura da igreja. Ele vê razão em muitas colocações do Papa, mesmo com as polêmicas. Os afastamentos de bispos suspeitos de abusos são comemorados por ele. "Faz muito bem (…) como um bispo pode fazer isso? Não é normal. Ele tem que ser contra isso!", esbraveja. No entanto, ele acredita que tais pessoas representam apenas um 'pingo' dos católicos e precisam começar a ser combatidas já no seminário.

Mudanças na igreja
"O evangelho tem que ser bem adaptado", considera. Ele relembra São Francisco Xavier, dizendo que primeiro é preciso conhecer as pessoas e depois analisar o que há de bom no evangelho para ser usado na vida dela. Na sua percepção, os ensinamentos divinos não podem ficar na teoria. "É prática! Se uma pessoa tem fome, tem que dar comida. Se tem sede, tem que dar água…", pondera.

E o mundo?
Dom Jayme lembra que visitou "meio mundo", em referência a tantos países que conheceu. As imagens de Chernobyl, na Ucrânia, após o desastre nuclear, ainda estão em sua mente. Mas ele acredita ser esta sua missão. "A gente fica padre para ajudar os outros (…) eu tenho que anunciar Cristo."

Hoje, lamenta a grande quantidade de corrupção, criminalidade e pobreza no mundo, maior que em outras épocas. "É uma coisa estúpida", analisa. Mas espera mudanças e diz sonhar com um mundo mais sereno e calmo para o futuro.

O futuro
Atualmente, Dom Jayme tem na leitura uma grande companheira. Seu tema favorito são as escrituras de São Paulo, a quem refere-se como um grande sujeito. Mas sua biblioteca não fica apenas na religião. Temas ligados à língua portuguesa, matemática, física e história também estão presentes. Diz que a variedade de assuntos faz ampliar sua percepção do mundo. E, mesmo aposentado, continua rezando missas. Seja substituindo algum padre, seja na companhia de amigos ou até mesmo sozinho em casa, mantém a atividade iniciada há seis décadas. "Celebro missa como um padre simples."

A preocupação com a morte é mínima, ele garante. É apenas o instinto, a dúvida do que acontecerá na hora derradeira, de como acontecerá. Da vida, leva a certeza de que não deixou de realizar nenhum dos seus objetivos, indo inclusive além deles. E, claro, acredita na vida eterna.

O principal aprendizado carrega consigo, no cartãozinho que ganhou há exatos 60 anos, quando foi ordenado padre. Seu lema "Para que creiais que Jesus é o Cristo e, crendo, tenhais a vida". Ao presentear a reportagem com um dos cartões com a frase que celebra a ordenação, explica que ele traz a primeira conclusão do Evangelho de São João. A mensagem foi levada como missão de sua vida. Anunciar Cristo, a obra de Deus e, a quem acreditar nisso, dar a certeza de que estará com vida eterna.

Homenagem
Nesta quinta-feira (6) uma missa celebrará os 60 anos de ordenação sacerdotal de Dom Jayme Chemello. Ocorrerá às 18h15min, na Catedral Metropolitana São Francisco de Paula. Logo após, haverá uma confraternização aberta ao público na Casa da Irmandade.


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