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Salgou o churrasco

Aumento nos preços da carne afeta todos no ciclo de produção, desde os frigoríficos até o consumidor

30 de Novembro de 2019 - 09h00 Corrigir A + A -
No ramo há 20 anos, José Eduardo diz que nunca viu um reajuste tão significativo no preço da carne (Foto: Paulo Rossi - DP)

No ramo há 20 anos, José Eduardo diz que nunca viu um reajuste tão significativo no preço da carne (Foto: Paulo Rossi - DP)

O preço da carne disparou. O aumento de 12% superior ao mês de outubro se deu pela demanda de exportação do produto à China - que perdeu temporariamente o principal fornecedor de carne suína, a Ásia. Por lá, a peste suína matou mais de 7,5 milhões de porcos. A compra da carne bovina brasileira aumentou e, assim, os preços internos subiram. Em Pelotas, para preparar um churrasco, por exemplo, o consumidor já precisa desembolsar até 30% a mais.

A Associação Gaúcha de Supermercados (Agas) avalia a situação como atípica, principalmente pelo cenário internacional. Os cortes dianteiros do gado são os que mais apresentam elevação no preço: são cerca de 30% a mais em paleta, acém, cupim, pescoço e peito, por exemplo. No Rio Grande do Sul, ainda, há o problema das enchentes na região da Campanha. Esse fator dificulta a retirada dos animais dos campos.

A compra de gado nos frigoríficos também aumentou, por consequência da situação atual. Pablo Rodrigues, proprietário de um dos estabelecimentos da cidade, explicou que o preço dos animais para abate subiu 36%. "A dificuldade na compra é enorme", conta. O repasse ao cliente, assim, se torna iminente. "Não conseguimos absorver esse aumento", afirma. No local, o repasse dos valores para o preço de venda dos cortes foi total.

Seguindo o ciclo de produção, os açougueiros também sentiram o impacto. "A situação é péssima", avalia o proprietário de um estabelecimento na rua Dom Pedro II, José Eduardo Cassano. Em 20 anos de trabalho no ramo, é a primeira vez que enfrenta um cenário de aumento nessa escala. O consumidor, por sua vez, passa a comprar menos. De duas semanas para cá, a queda nas vendas é nítida.

Com a compra mais cara, o preço de venda também aumenta. O entrecot, por exemplo, em média, aumentou de R$ 32,80 o quilo para R$ 36,80. "O churrasco vai ficar uns 30% mais caro", projeta.

Quem precisa comprar grande quantidade diariamente também sente no bolso a situação. Ângela Timm, gerente de um restaurante na rua 15 de Novembro, lembra que o local adquire cerca de 150 quilos de carne por dia. Antes, o valor pago pelo quilo era de R$ 21,90, o que totalizava R$ 3,2 mil. Com o aumento, por dia são gastos mais de R$ 4,4 mil.

"E o cliente também passa por dificuldades, não dá pra repassar esse aumento por enquanto", conta. Uma das saídas para contornar o aumento e não afetar o bolso do consumidor é tentar balancear os preços em relação aos pratos com frango, por exemplo. Enquanto um sobe, o outro baixa. Quanto à compra, a alternativa foi modificar o fornecedor: de macroatacado para diretamente com o frigorífico. A proprietária do local, Cláudia Hoch, desabafa: "Estamos tentando sobreviver".

Exportação para a China é maior que compra no mercado interno

O Brasil é o segundo maior produtor de carne bovina e o principal exportador mundial. Entre setembro e outubro a venda do produto para a China subiu em 110%, em comparação ao mesmo período do último ano, conforme os dados da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafigo). Depois da carne brasileira, a segunda opção é a Austrália, que enfrenta grave seca e a produção de gado também foi afetada.

A procura dos outros países pela carne é, assim, maior que a demanda de venda no mercado interno. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que o preço da carne não vai baixar. A situação deve seguir assim até o próximo ano, normalizando entre janeiro e fevereiro.

Diferença no bolso do consumidor

Confira a relação de aumento dos preços no quilo em alguns dos cortes de carne mais frequentes em churrascos

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