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Salas fechadas, acervos guardados e inexplorados

É o retrato de grande parte das bibliotecas que deveriam estar em funcionamento em escolas da rede estadual

12 de Agosto de 2019 - 11h20 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Iniciativa. Integrantes do Grêmio Estudantil do Cassiano se revezam para manter o espaço aberto. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Iniciativa. Integrantes do Grêmio Estudantil do Cassiano se revezam para manter o espaço aberto. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Aviso. Cartaz indica quando é possível ter acesso aos livros da escola. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Aviso. Cartaz indica quando é possível ter acesso aos livros da escola. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

O cartaz na porta anuncia os dias de funcionamento da biblioteca: terças e quintas-feiras, em horários reduzidos. Sem a iniciativa de integrantes do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual Cassiano do Nascimento, em Pelotas, a sala estaria praticamente sempre fechada. À espera de usos pontuais, em geral, em aulas de Literatura ou de Português. Acervo guardado, sem convites para ser explorado. É uma cena que se repete em centenas de outras escolas da rede estadual de ensino, Rio Grande do Sul afora. E o pior: a curto prazo, não há qualquer solução em vista.

Não existem bibliotecários no quadro. E a orientação é de que nenhum professor esteja à frente das bibliotecas, para não caracterizar desvio de função - explica o titular da 5ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Carlos Humberto Vieira. “Há, inclusive, apontamentos do Tribunal de Contas. Eles têm que ir para a função para que foram concursados”, argumenta. Historicamente, entretanto, na maioria dos casos eram os profissionais que por alguma razão não podiam estar em regência em sala de aula que garantiam as bibliotecas em atividade.
Com a carência de pessoal e nenhuma perspectiva de concurso para o cargo de bibliotecário, não há outro jeito: o espaço que deveria ser tratado como reduto sagrado e atrativo para escolha e devoramento de livros, acaba relegado. Não raro, em ambientes minúsculos, junto a departamentos administrativos e depósito de outros materiais.

São retratos que se chocam com o que estabelece a própria lei, gaúcha e nacional (veja quadro). E a determinação é clara: os sistemas de ensino do país deverão desenvolver esforços progressivos para que a universalização das bibliotecas escolares seja efetivada num prazo máximo de dez anos, respeitada a profissão de bibliotecário. E o tal prazo encerra-se em 2020. Enquanto isso, não param de chegar denúncias ao Cpers-Sindicato, já que é preciso bem mais do que apenas prateleiras e pilhas de títulos. “É preciso que os governos vejam a Educação como investimento e não como gasto. Temos sofrido cada vez mais com isso”, desabafa o diretor do 24° Núcleo do Cpers, Mauro Amaral.

A gurizada quer, sim, garimpar livros
A ideia de colocar a biblioteca em operação surgiu ainda durante o período eleitoral para o Grêmio Estudantil. Agora eleitos, os 13 alunos trataram de reorganizá-la - durante as férias de julho - e já criaram escala para que possa estar aberta duas vezes por semana: terças e quintas, das 9h às 11h30min e das 13h às 16h30min. À noite só funcionará às quintas-feiras, das 18h30min às 20h.

E para quem acredita que a nova geração - absorvida pela tecnologia - não faz questão de estar com livros nas mãos, eles sustentam: “Quanto mais leitura, mais aberta fica a nossa mente”. E ter o acervo à disposição é passo fundamental para o incentivo - defendem os estudantes Laura Vargas, 15, Laisa Ribeiro, 16, e Wagner Prestes, 17, que em bate-papo com o DP também lembraram da importância de fontes confiáveis para pesquisa. Uma reflexão básica em tempos de enxurrada de compartilhamentos de fake news. “Queremos fazer uma grande mobilização pelo uso da biblioteca”. Um movimento para beneficiar cerca de 1,2 mil alunos.

Sem ambiente específico, no Jardim América
Falta bem mais do que bibliotecário. Não há nem sala específica para organização do acervo. No quinto ano de funcionamento, a Escola Estadual de Ensino Médio Jardim América, no Capão do Leão, funciona à noite nas mesmas instalações da Escola Municipal de Ensino Fundamental Barão de Santo Ângelo. Os livros estão agrupados em espaço que também abriga a Direção, a Secretaria e serve para guardar materiais esportivos e de limpeza. “É degradante”, resume o diretor Guilherme Bourscheid.

E ainda que também se depare com o quadro desfalcado para as funções de orientação escolar, de coordenação pedagógica, de vice-direção e de merendeira, o professor procura se entusiasmar com projetos, como o de Leitura, de mostras de vídeo e de teatro. “Temos lutado para desenvolver várias iniciativas.”

A posição da 5ª CRE
O coordenador Carlos Humberto Vieira destaca a necessidade de o Plano de Carreira, de 1974, ser atualizado, inclusive, para criação de cargos como os de bibliotecário. “Estamos fazendo o que é possível com a legislação que nós temos.” Vieira defendeu ainda a importância de o uso das bibliotecas ser ressignificado, mas não indicou formas para os ambientes ganharem em atrativo e interação. A fase é de estudos na Secretaria de Educação - assegura.

“Nessa concepção que eu acho que é antiga, de colocar uma pessoa na biblioteca pra alcançar livros, não tem proposta”, afirmou, ao se referir a possíveis soluções e prazos. Ao conversar com o Diário Popular, embora tenha mencionado as bibliotecas como ferramenta pedagógica por várias vezes, bateu forte na ideia de revisar conceitos: “Hoje, na verdade, uma biblioteca numa escola, de uma forma bastante geral, é quase uma peça pra museu. A utilização tem que ser ressignificada.”

O que dita a legislação - Artigo 218 da Constituição Estadual, de outubro de 1989
►O Estado manterá um sistema de bibliotecas escolares na rede pública estadual e exigirá a existência de bibliotecas na rede escolar privada, cabendo-lhe fiscalizá-las.

Lei federal 12.244, de maio de 2010
►As instituições de ensino públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do país contarão com bibliotecas. Considera-se biblioteca escolar a coleção de livros, materiais videográficos e documentos registrados em qualquer suporte destinados a consulta, pesquisa, estudo ou leitura.

 


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