Agronegócio

Safra de pêssego deve ter queda de 40% na produção

Produtores já contabilizam perdas na colheita das primeiras cultivares, prejudicadas pelo excesso de chuva e o curto período de frio

09 de Novembro de 2019 - 16h37 Corrigir A + A -
Desemprenho: Dari começou a colheita há um mês e deve ficar bem abaixo do ano anterior (Foto: Paulo Rossi - DP)

Desemprenho: Dari começou a colheita há um mês e deve ficar bem abaixo do ano anterior (Foto: Paulo Rossi - DP)

A safra de pêssegos neste ano deve ter uma queda de 40% comparado a um período normal na Zona Sul, de acordo com a Associação dos Produtores de Pêssego da Região de Pelotas (APPRP). No município, as projeções de produtores e entidades, com base nas primeiras semanas de colheita da fruta, preveem uma colheita com a produção de 30 mil toneladas. O início tardio do período de frio e o excesso de chuvas foram os principais fatores apontados à redução. O aumento da destinação dos produtos ao mercado in natura já aparece como alternativa aos produtores, pela oferta de valores maiores do que os oferecidos pela indústria.

Rodrigo Prestes, extensionista do Escritório Municipal da Emater, estima, só para Pelotas, uma queda de 20% a 25% em relação a uma safra normal. Porém, o número será acima da safra de 2018, considerada ruim. Entre os fatores, as chuvas acima do período favoreceram a proliferação de doenças que impactam na qualidade do produto. Ele exemplifica que, em alguns casos, há a redução no prazo que a fruta permanece com boa aparência, fator que impacta na comercialização. "É uma cultura muito sensível", afirma.

Por enquanto, as primeiras variedades ainda estão sendo colhidas. Por isso, a previsão do impacto econômico só será possível na segunda quinzena de novembro, quando outras passam a ser colhidas. O assistente técnico regional da Emater, Evair Ehlert, projeta que a safra da região não será normal, frustrando expectativas. A projeção era colher em Pelotas 37,8 mil toneladas e 57,4 mil na região, com dez municípios. "Porém, os dados começam a mostrar que em toda a região não devem passar de 37 mil toneladas."

Segundo Ehlert, a redução deve impactar na indústria, que precisará se adequar à produção. O assistente técnico também inclui o início tardio do frio entre os fatores da redução. "As temperaturas iguais ou abaixo dos 7,2ºC começaram em julho, sendo que o ideal teria sido em junho." A concentração das horas de frio entre os meses de julho e agosto também ocasionou a interrupção do período de dormência das plantas, promovendo a floração e a brotação desuniformes. Segundo ele, o ideal seria que o período de temperaturas baixas fosse registrado entre o final de maio e agosto. Além disso, o excesso de chuvas contribuiu para dificuldades nas colheitas e em tratamentos fitossanitários nos períodos de floração e frutificação, que evitam a proliferação de doenças e outras complicações.

Tendência de venda in natura

Conforme o titular da Secretaria de Desenvolvimento Rural de Pelotas (SDR), Jair Seidel, ainda é prematuro calcular uma estimativa de perdas. Segundo ele, o diagnóstico inicial pode mudar caso o tempo permaneça firme na região, fator que contribuiria com os produtores. Dados da SDR mostram que 605 produtores atuam na produção de pêssego no município, com uma área total de 3.150 hectares e a produção média de 30 mil a 40 mil toneladas. Conforme Seidel, cerca de 80% da produção é destinada à conserva, 10% para derivados como geleias e sucos, e 10% para venda in natura. Mas esse percentual pode mudar.

De acordo com o presidente da APPRP, Mauro Scheunemann, a safra deve ter queda de 40% em relação a uma safra normal, de 50 mil toneladas. Segundo ele, as diferentes taxas de produtividade de variedades cultivadas acarretam na baixa produção por hectare, fator que gera um custo muito alto. Dessa forma, há um movimento dos produtores para a destinação de parte dos produtos ao mercado in natura, que pode oferecer preços mais vantajosos que o oferecido pelas indústrias. O valor pedido pela associação, que ainda deve ser negociado, prevê o pagamento de R$ 1,60 no quilo dos pêssegos tipo extra e R$ 1,30 para o tipo especial. Os valores oferecidos pela indústria são de R$ 1,30 para o primeiro tipo e R$ 1,05 para o segundo. No ano passado, os preços pagos pela indústria foram de R$ 1,10 para o tipo extra e R$ 0,90 para o especial. "Estamos chegando num preço mais acessível e que o produtor quer", afirma Scheunemann.

No ano passado, o produtor Dari Bosembecker destinou cerca de 30% das 240 toneladas colhidas para a venda in natura. Para este ano, a previsão é que a quantidade aumente. Segundo ele, o preço oferecido por quilo da fruta para venda direta é de R$ 2,00. "Se a produção for toda para a indústria haverá perdas", calcula Bosembecker. A colheita no local começou há cerca de um mês e a estimativa do produtor é que a safra atual chegue à metade das 400 toneladas esperadas. Das 11 variedades da produção presentes nos mais de 30 hectares com cultivo da fruta, duas já registraram perdas, a Libra e a Bonão. Entre as cultivares mais precoces, as perdas representam de 5% a 7% do total. Para Bosembecker, o período de frio tardio, com dias quentes no inverno, além da grande presença de pássaros nos locais, que comeram parte das frutas mais precoces, contribuiu para a redução. "Há três safras eram colhidas mais de 500 toneladas", lembra. Segundo ele, todo o sistema de sua produção é preparado para o tempo seco, inclusive com tubulações que auxiliam na distribuição de adubo entre os pessegueiros. Com o solo encharcado pelas chuvas, a ação é interrompida.

Com mais de 40 anos dedicados à produção de pêssego, ele lembra que já contou com seis trabalhadores diários no serviço. Hoje, para reduzir os custos e evitar prejuízos, a equipe é de um funcionário permanente e um temporário, para auxílio na colheita. O agricultor conta que os últimos anos foram marcados por alterações climáticas acentuadas, que dificultam a manutenção da saúde dos pessegueiros e impactam diretamente no total produzido. Essa tendência, projeta, deve seguir pelos próximos anos, com a diminuição do mercado do pêssego, sendo agravada pela falta de divulgação e pela renda das famílias, que passam a comprar menos a fruta. "O pêssego não é uma coisa de primeira necessidade", afirma. Conforme dados da Emater regional, o consumo per capita na região é de 1,123 quilo, que deve aumentar de acordo com o incremento da renda da população.

Concorrência externa é desafio para a indústria

O presidente do Sindicato das Indústrias de Doces e Conservas Alimentícias de Pelotas (Sindoscopel), Paulo Crochemore, reconhece que a reivindicação dos produtores tem fundamento, considerando a taxa de produtividade obtida na safra deste ano. Segundo ele, o aumento chegou a 18% ao praticado no ano passado, mas uma conversa junto aos produtores poderá equacionar o valor. Em relação à diminuição do percentual destinado à indústria, Crochemore explica que o preço do produto enlatado é praticado de forma diferente ao mercado in natura, que conta com variações reguladas pela procura. No caso da lata, o preço é equalizado, com base na perspectiva do cenário externo, sofrendo com pressões de outros países como Argentina, Chile e Grécia, e na estimulação do produtor. "Não existe uma cadeia sem os dois elos principais: o produtor e a indústria."

Com isso, o aumento no valor do produto deve levar em consideração a concorrência externa em relação às grandes redes de venda, e a manutenção do consumo pela população, que vem diminuindo, por meio do estabelecimento de um preço acessível. Dessa forma, seria preciso um trabalho sério e equalizado, feito por meio de diálogo e responsabilidade, além de sacrifícios dos membros da cadeia produtora, para que a região continue abastecendo o mercado nacional. "Lutamos para manter esse mercado nosso, gaúcho, principalmente pelotense", afirma. De acordo com dados da Emater, 12 agroindústrias atuam na Região Sul do Estado, com uma produção média anual de 50 milhões de latas.

Região é maior produtora de pêssego tipo indústria do RS

A área total utilizada para o cultivo de pêssego dos tipos indústria e mesa em Pelotas é de 3.150 hectares, compreendendo a maior parte dos 5.311 totais da região, em dez municípios. No Estado, a área cultivada é de 10.533,5 hectares. Ainda conforme os dados da empresa, a cadeia de produção do pêssego na Região Sul do Estado gera 2.500 empregos diretos e indiretos, muitos sazonais, apenas em épocas de safras, além de movimentar entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões.

Dados de 2016 do Censo Agropecuário do IBGE e da Emater mostram que o Rio Grande do Sul é o maior produtor da fruta no país, com 104.432 toneladas, o que representa 66,27% da produção nacional. A região de Pelotas é responsável por 85,78% da área e produção estadual de pêssego tipo indústria.

 

 

 


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