Uma história a ser descoberta

Reportagem mostra os primeiros indícios da existência de túneis em Jaguarão

Diário Popular teve acesso, com exclusividade, a caminho subterrâneo que ligava o prédio da Igreja da Matriz Divino Espírito Santo à loja da Maçonaria

11 de Maio de 2013 - 18h07 Corrigir A + A -
Foto mostra aquele que seria o arco do túnel, fechado e inacessível neste momento  (Foto: Paulo Rossi - DP)

Foto mostra aquele que seria o arco do túnel, fechado e inacessível neste momento (Foto: Paulo Rossi - DP)

 (Foto: Paulo Rossi - DP)

(Foto: Paulo Rossi - DP)

Na típica manhã de outono, Maria e Carla Lopes cruzam a passos curtos o Largo das Bandeiras, localizado na região central do município. Logo à frente, em direção ao rio, avistam uma imponente construção, velha conhecida de mãe e filha, naturais de Jaguarão. Mas enquanto aproveitam tranquilamente os raios do sol que paira sobre a cidade, ao serem questionadas sobre uma antiga história envolvendo a construção da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, manifestam-se num misto de curiosidade e ceticismo: “Túneis? Em baixo da Igreja? Nunca ouvi falar”, respondem.

Na última semana o Diário Popular foi até o município na fronteira que divide o Brasil do Uruguai para trazer à tona uma história pouco conhecida até mesmo pelos próprios jaguarenses. Porém, suficientemente importante para mexer com as expectativas de pessoas ligadas ao projeto encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que deve revitalizar o templo símbolo do município.

Ao entrar pelas portas da igreja praticamente vazia, apenas um pardal voa solitário entre os afrescos que decoram as paredes. “Entrou por uma das fendas no teto”, diz o padre Hamilton Centeno, à frente da paróquia do Divino Espírito Santo há dois anos. Os bancos vazios contemplam a estrutura metálica que sustenta a parte de cima da construção deteriorada pelo tempo. Uma medida de urgência no valor de R$ 90 mil tomada pelo Iphan para salvar o prédio comprometido.

No fundo da Igreja está o belo altar de madeira. Porém, ao contorná-lo vê-se sua outra face, de madeira crua, bastante ocupada por cupins. No chão, o padre Hamilton levanta algumas tábuas soltas no chão e mostra um buraco no assoalho. “Aqui é a antiga passagem de entrada do túnel”, diz. Mas para acessar a parte visível da estrutura subterrânea é preciso entrar pela parte detrás do templo, na casa paroquial. Logo, junto aos alicerces da igreja, embaixo da sacristia e longe dos olhos dos fiéis vê-se um arco cuja frente foi tapada por terra.

Aos 61 anos, o jaguarense Claudino Neves Corrêa é o estudioso responsável por fazer um dos primeiros grandes resgates do desenvolvimento da paróquia. De acordo com ele, o túnel é tema de várias histórias, mesmo que nenhum documento de tombamento mencione a construção. A cultura popular diz que o túnel ligava a Igreja à antiga Casa da Freguesia ou Casa da Oficialidade. Local da primeira residência dos comandantes da guarda, instalada em 1802. “Quase todos os grandes líderes militares brasileiros moraram ali.” Haveria ainda uma ligação com a Loja Maçônica, localizada a cerca de 170 metros da igreja. “Esses eram os poderes da época”, conta.

Ainda, de acordo com Corrêa, há anos um vizinho da Igreja, ao fazer uma reforma, teria encontrado parte do túnel mas em seguida tratou de desmanchar por medo de que a descoberta interrompesse a reforma. “Não temos ideia de quando o túnel foi feito, mas acreditamos que tenha sido construído juntamente com a Igreja e com a loja Maçônica, que tem inscrita na fachada a data de 1854.”

A arquiteta responsável pelo projeto de restauração da igreja, Simone Neutzling, afirma que a elaboração do trabalho já está na fase final. “Encontramos os indícios do túnel, mas não podemos mexer ainda”, explica. Por isso, está prevista na execução da obra o estudo arqueológico do prédio. “Colocamos uma observação de que a empresa vencedora da licitação precisará contratar o trabalho da arqueologia para que o túnel seja investigado.” Simone também foi responsável pelo dossiê de tombamento da cidade em 2011 como patrimônio cultural do país. “Só poderemos conhecer mais sobre o túnel e sua existência no decorrer da obra, mas tecnicamente é viável, já que fizemos a descrição do sistema construtivo da Igreja”, diz.

História viva
O padre Hamilton conta que no primeiro semestre de 2011 começaram os diálogos para um possível restauro da Igreja. Porém, com a chegada do rigoroso inverno no sul a situação ficou crítica. “Quando chamamos o Iphan, com o telhado cedendo, eles disseram que era necessária uma ação de salvamento e não mais de restauração.” A Igreja então foi fechada aos fiéis. Durante nove meses as missas e outras celebrações foram transferidas para a capela da Santa Casa de Misericórdia.

A manutenção nesses 166 anos de existência da igreja ocorreu basicamente na troca das telhas, que foram quebrando ou caindo enquanto o prédio todo sofria com a ação do tempo. Por outro lado, isso tornou a estrutura uma das mais preservadas dentro de suas características originais. A imponente igreja foi construída no local onde há pouco mais de 200 anos foi levantada - com barro e palha de santa-fé - a primeira capela da região. “A cidade surge com o acampamento militar que se contrapunha ao acampamento espanhol, localizado na outra margem do rio”, conta.

De acordo com o livro Caminhando através da história, de Vagner Pacheco dos Santos, a área onde hoje está localizada a cidade era motivo de atritos e desavenças entre as coroas portuguesa e espanhola. Em 15 de fevereiro de 1801 foi erguida a capela. Em seguida, em 1802, foi estabelecida propriamente a chamada Guarda da Lagoa e do Serrito. Com o crescimento e a evolução do acampamento militar, teve início a formação dos aglomerados de casas que originaram o povoado. Em 1812 o povoado foi elevado à Freguesia do Divino Espírito Santo de Jaguarão.

Em 1847 tiveram início as obras de construção da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, em estilo Barroco, a qual foi concluída somente em 1875.

Pela revitalização
O projeto que deve dar nova vida à Igreja é uma das prioridades do município para a segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2) do governo federal, que beneficia Cidades Históricas. Em março o projeto foi apresentado em Brasília. O prazo estabelecido para resposta dos projetos aprovados seria abril, mas ainda não foi divulgado.

A responsável pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e Turismo, Andréa Lima, diz que a demora é normal e aguarda a resposta ainda para este mês. A arquiteta responsável pela coordenação técnica do Iphan no Rio Grande do Sul, Ana Beltrami, afirma que neste momento o projeto tramita no Ministério do Planejamento, e que esta seria a última etapa antes da aprovação.

Jaguarão está entre as 44 cidades do país e as quatro cidades do Estado, prioritárias para a execução de obras do programa orçado em R$ 1 bilhão. Além da Igreja Matriz, entre os projetos de mais importância enviados pelo município ao PAC2 estão a requalificação da orla do rio e os restauros da ponte Mauá, do Mercado Público e do prédio do Antigo Fórum, atual Casa de Cultura.

Para Corrêa, o investimento significa o rejuvenescimento do turismo religioso e histórico, que neste pedaço de terra está interligado. “Nós aqui não sabemos onde começa o aspecto religioso e o histórico militar.” Por mais que em outras regiões do mundos estas duas forças sejam antagônicas. “Aqui sempre houve um grande respeito.” De acordo com Corrêa, prova disso é de que na época de grande desavença entre as coroas, com forças estacionadas nos dois lados do rio, a pequena capela recebia membros das duas nacionalidades, que participavam de missas em conjunto. “Quando da instalação da Guarda pelo coronel Manoel Marques de Souza, em 1802, ele deixa por escrito a recomendação de que se trate com hospitalidade os membros da guarda espanhola para que se cultive o bom relacionamento. E até hoje esse aspecto ainda é muito importante nessa fronteira”, conclui.

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