Clima

Quando a única opção é enfrentar o calor

Com as máximas chegando aos 40ºC em Pelotas, trabalhadores sofrem com os dias quentes

14 de Janeiro de 2022 - 08h26 Corrigir A + A -
Aos 73 anos, Adão Dias trabalha vendendo sucos em um cruzamento da avenida Bento. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Aos 73 anos, Adão Dias trabalha vendendo sucos em um cruzamento da avenida Bento. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Equipes do Sanep usam paramentos e se hidratam bastante para amenizar os efeitos do sol. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Equipes do Sanep usam paramentos e se hidratam bastante para amenizar os efeitos do sol. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Por Gabriela Borges
web@diariopopular.com.br

Na semana em que o Rio Grande do Sul pode ter temperaturas ultrapassando os 40ºC, não são todas as pessoas que têm a possibilidade de amenizar o calor perto do ar condicionado ou com os pés na areia.

Trabalhadores que tiram o seu sustento das ruas são alguns dos que mais sofrem com as máximas. É o caso do vendedor de sucos Adão Júlio Dias, de 73 anos, que há uma década mantém seu ponto na avenida Bento Gonçalves, na esquina com a rua Andrade Neves.

Aposentado, nos meses mais quentes, Dias complementa sua renda com a comissão da venda das garrafinhas de suco de laranja. “Eu tiro um dinheirinho para aproveitar as praias”, afirma, contando que a ocupação dura até maio e que o mês em que mais vende é dezembro. A empresa fornece o uniforme e o gelo para o carrinho, mas não mantém qualquer vínculo trabalhista com ele.

Munido de boné e protetor solar, e reforçando a hidratação com muita água, o vendedor conta que fica no local de segunda a sexta, das 11h às 18h. Às 13h, com o sol muito forte, é hora de fazer uma pausa, almoçando nas sombras da avenida a marmita que recebe diariamente.

O calor também castiga a equipe do Departamento de Águas do Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep), que às 11h de quinta-feira (13) estava em uma obra na rua Manduca Rodrigues, próximo à rua Saturnino de Brito.

Segundo o concursado Vitor Kuhn, 61, que atua há dez anos no Sanep, os trabalhadores enfrentam muitas dificuldades na rua. “Não é só o calor, mas o frio também. Nem sempre é barbadinha”, assegura. Operador de máquinas, Dilson Dorneles da Rosa, 58, explica que para se proteger do sol, ele e os colegas utilizam macacões, protetor solar, capacetes, máscaras e luvas, fornecidos pela autarquia. “O calor arria um pouco o corpo da pessoa. Mas é isso aí, tem que trabalhar”, declara.

Pelas funções desgastantes que desempenham, o Sanep informa que os trabalhadores recebem um acréscimo de 40% (calculado sobre o salário mínimo) nas respectivas folhas de pagamento. O adicional de insalubridade é um direito daqueles que realizam atividades que trazem perigos à saúde, regulamentado pelo Ministério do Trabalho. A autarquia explica que também possui o setor de Serviços Especializados em Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT), responsável por assegurar que normas sejam cumpridas, garantindo a segurança de todos os envolvidos.

Calor exige atenção à saúde dos trabalhadores

De acordo com a professora do curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Renata Bemvenuti, especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho, neste período de calor, com a intensa exposição dos trabalhadores ao sol - e, por consequência, à radiação ultravioleta -, é importante um cuidado especial por parte das empresas.

Segundo ela, algumas medidas preventivas, trazidas pela Norma Regulatória 9 (NR 9) do Ministério do Trabalho e Previdência, são disponibilizar água fresca potável e incentivar a sua ingestão; e programar os trabalhos mais pesados nos períodos com condições térmicas mais amenas, de preferência. A professora também lembra que para quem realiza as suas atividades a céu aberto, é obrigatória a existência de abrigos capazes de proteger os funcionários contra intempéries, em respeito à Norma Regulatória 21 (NR 21).

Já André Michael de Souza, plantonista do Pronto Socorro de Pelotas, chama a atenção para os impactos dos dias quentes no dia a dia de quem está na labuta. Segundo ele, o número de pessoas que procura o hospital em virtude de mal-estar decorrente do calor é grande e a condição afeta de forma mais significativa os idosos.

Ele explica que, ao contrário do inverno - quando as veias e artérias ficam contraídas, aumentando a pressão -, o calor relaxa o corpo, intensificando casos de hipotensão (pressão baixa) e tonturas. Assim, o médico reforça que a ingestão de água precisa ser maior neste período, por causa das perdas insensíveis de líquidos do corpo. Conforme aponta Souza, só de suor uma pessoa pode perder meio litro por dia e, junto ao líquido que é utilizado pelo corpo durante a respiração, casos de desidratação são comuns.


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