Após tragédia

Premiê libanês diz que vai convocar eleições

Organização das Nações Unidas e governo francês lideram ajuda financeira ao país

09 de Agosto de 2020 - 13h58 Corrigir A + A -

Agência Brasil

Explosões ocorreram no dia 4 deste mês, no porto de Beirute (Foto: CivilDefenseLB - Fotos Públicas  - Especial DP)

Explosões ocorreram no dia 4 deste mês, no porto de Beirute (Foto: CivilDefenseLB - Fotos Públicas - Especial DP)

O primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, anunciou que vai convocar eleições antecipadas. Doadores buscam angariar dinheiro para a reconstrução de Beirute, que teve o porto atingido por uma explosão na última terça-feira (4), deixando pelo menos 135 pessoas mortas, 5 mil feridas e cerca de 250 mil desabrigadas. No terreno, continuam os trabalhos de limpeza feitos por centenas de voluntários.

Crise política

Ainda com uma crise social, depois da tragédia no porto, surge agora uma crise politica no Líbano, com o pedido de demissão da ministra da Informação, Manal Abdel Samad. A crise politica pode apenas ter começado. Espera-se que nas próximas horas ocorram novas saídas do governo.

Os libaneses não estão interessados nas teorias de como aconteceu a explosão. Querem justiça para as vítimas e condenação dos responsáveis que deixaram as quase 3 mil toneladas de amônia no porto de Beirute durante sete anos.

Uma videoconferência organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela França para angariar doadores para o Líbano está agendada para este domingo (9).

A realização da videoconferência foi anunciada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, em entrevista à imprensa na capital do Líbano, onde foi para prestar apoio e solidariedade. "A intenção passa por mobilizar financiamento internacional, dos europeus, dos americanos, de todos os países da região, para fornecer medicamentos, cuidados de saúde e alimentos", ressaltou Macron.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por meio do Twitter, escreveu também sobre a videoconferência e defendeu que "todo mundo quer ajudar!", mencionando ainda ter falado com Macron a propósito da reunião.

No sábado (8), o Ministério da Saúde do Líbano confirmou que há mais de 60 desaparecidos em Beirute. O número oficial de mortos é de 154. A explosão deixou também cinco mil feridos.

Apelo da ONU

O Líbano já enfrentava uma crise humanitária, mas as Nações Unidas receiam que agora, após as devastadoras explosões ocorridas na terça-feira (4) em Beirute, a situação se agrave.

Agências da ONU lançaram um apelo urgente à solidariedade internacional. A crise humanitária vivida no Líbano não é recente, mas no rescaldo de um acidente devastador e em pleno contexto pandêmico, a ONU alerta para o risco de a situação piorar.

Antes da explosão que devastou parte da cidade de Beirute, 75% dos libaneses já precisavam de ajuda, 33% estavam desempregados e cerca de um milhão de pessoas vivia abaixo da linha da pobreza.

A agência humanitária Programa Alimentar Mundial disse, esta semana, que com a destruição do porto de Beirute, o fornecimento de alimentos no território podia ser atrasado ou mesmo interrompido e, em consequência, os preços podiam aumentar. A escassez de comida já se sente e a população, ainda em choque, começa a recear a falta de alimentos e a dificuldade de obter até aos mais básicos.

A organização vai enviar cinco mil pacotes de comida, suficientes para alimentar famílias de cinco pessoas durante um mês, e planeja importar farinha de trigo e grãos para ajudar a suprir a escassez no território.

Hospitais destruídos

Junto ao porto e em vastas áreas da capital libanesa, o cenário é de destruição total. Falta de tudo um pouco, em especial ao nível dos serviços de saúde, tendo sido destruídos três hospitais e outros dois ficado parcialmente danificados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) expressou preocupação com a escassez dos medicamentos e a superlotação dos hospitais, adiantando que os fundos pedidos permitiriam dar resposta também ao combate à pandemia da Covid-19.

"Três hospitais já não funcionam, dois ficaram parcialmente danificados, assim como centros de saúde”, disse Christian Lindmeier, porta-voz da OMS.

Entretanto, a entidade já enviou kits de emergência para situações de trauma e tratamentos cirúrgicos, com medicamentos essenciais e suprimentos médicos, de forma a tentar cobrir as necessidades imediatas e garantir a continuidade na resposta à pandemia da Covid-19.

De fato, o Líbano também tem registrado um aumento nos casos de infeção pelo novo coronavírus, mas 17 contêineres onde estariam máscaras, fatos de proteção e luvas, enviados para Beirute pela OMS, foram completamente destruídos na explosão.

Considerando a situação já precária do país, que enfrenta uma séria crise econômica, as várias organizações humanitárias apelaram à urgência de intervir nos setores da saúde e alimentar, uma vez que silos de cereais e hospitais foram destruídos no acidente de terça-feira.

O porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Rupert Colville, apelou esta semana à necessidade de a comunidade internacional ajudar o Líbano com uma resposta rápida e um compromisso sustentado. As doações pedidas pelas agências irão juntar-se, assim, aos nove milhões de dólares já desbloqueados de fundos humanitários da ONU.

A Organização Mundial da Saúde pediu 15 milhões de dólares e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicou que pretende obter 8,25 milhões de dólares numa conferência de imprensa online, que juntou o Programa Alimentar Mundial (PAM) e os Altos Comissariados para os Direitos Humanos e para os Refugiados.

Investigação internacional

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos pediu, entretanto, uma investigação independente às explosões, insistindo que "os pedidos de responsabilização das vítimas devem ser ouvidos". Mas o presidente libanês, Michel Aoun, rejeitou a realização de tal investigação internacional, tendo admitido que possa ter sido causada por negligência ou por um míssil.

"A causa ainda não foi determinada", disse Aoun. "Existe a possibilidade de ter sido interferência externa, como um míssil ou uma bomba", acrescentou sem, no entanto, fundamentar essa hipótese.

Sabe-se que o incêndio de cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, que estavam armazenadas de forma insegura no porto de Beirute, estará na origem das explosões, mas não é certo o que terá provocado o sucedido.

Segundo um porta-voz, a Organização das Nações Unidas não recebeu nenhum pedido para investigar as grandes explosões de terça-feira (4) em Beirute.

"Certamente estamos dispostos a ajudar", disse Furhan Haq, numa conferência de imprensa, depois de o presidente francês Emmanuel Macron pedir um inquérito internacional sobre a explosão.

No entanto, o governo libanês não fez tal pedido até agora, de acordo com a ONU. "Não recebemos nenhum pedido neste momento, mas, é claro, estaríamos dispostos a considerar tal pedido se o recebermos. Mas nada semelhante foi pedido", disse Haq.

A possibilidade de o governo ter conhecimento prévio do perigo que representava o armazenamento, sem segurança, de nitrato de amónio no porto, durante anos, aumentou ainda mais o descontentamento da população quanto à já antes criticada administração do país.

Espera-se que, neste sábado (8), milhares de libaneses se juntem numa manifestação em Beirute contra os líderes do país, a quem culpam pelo desastre.

 


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