Decadência

Portadores de HIV, de novo, enfrentam drama da falta de antirretrovirais

Problema se arrasta há mais de um ano em diferentes pontos do país e, periodicamente, deixa parte dos pacientes do SAE sem medicação

12 de Julho de 2018 - 10h37 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Lamivudina comprimido começou a faltar há duas semanas; agora também acabou a solução oral e, nos próximos dias, situação tende a ficar bem mais crítica, ao atingir cerca de 500 pacientes (Foto: Jô Folha - DP)

Lamivudina comprimido começou a faltar há duas semanas; agora também acabou a solução oral e, nos próximos dias, situação tende a ficar bem mais crítica, ao atingir cerca de 500 pacientes (Foto: Jô Folha - DP)

Portadores do vírus HIV, mais uma vez, enfrentam a falta de antirretrovirais em Pelotas e na região. Até o momento, 27 pacientes veem crescer a preocupação sem o medicamento Lamivudina, nas versões comprimido - 150 mg - e solução oral. Há inclusive crianças prejudicadas pelo desabastecimento. Nos próximos dias, entretanto, a situação pode ficar bem mais delicada, com várias prateleiras vazias. Sem, pelo menos, mais três medicações, o número de pessoas atingidas pode passar de 500.

E o pior: a angústia é de que as interrupções no tratamento abalem o sistema imunológico e elevem os riscos de infecções e de complicações. Quem desabafa é o representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+) em Pelotas, que prefere não ser identificado. "Depois a gente mede o CD4, dá baixo e os médicos acham que a culpa é da gente, que não tá tomando direito", afirma. E faz questão de recorrer a legislações brasileiras que amparam o soropositivo e cobrar a normalidade dos estoques. "É um absurdo que seja assim. O número de pessoas internadas tá aumentando em todo o Brasil", garante o porta-voz.

Irregularidade nas entregas se arrasta
A ansiedade não é só dos pacientes. A responsável pela Unidade Dispensadora de Medicamentos do Serviço de Atendimento Especializado (SAE), Camila Cavalheiro Sica, está sempre envolvida no monitoramento de listas. E com o olhar dividido entre o que chega e sai, há mais de um ano, a farmacêutica torce pelas chamadas guias extras, que suprem parte dos muitos vazios que se alastram nas prateleiras.

E é, de novo, o que ela aguarda. Do contrário, o quadro ficará crítico. Pelo controle atual, entre os dias 23 e 25 deste mês, uma nova remessa do governo do Estado não prevê o encaminhamento de medicações, como Biovir (Lamivudina + Zidovudina), 3 em 1 (Tenofovir + Lamivudina + Efavirenz) e Efavirenz e deve fazer saltar o número de pessoas prejudicadas.

Dos cerca de 1,8 mil cadastrados para retirada de medicamentos no SAE, mais de 500 podem ter os tratamentos interrompidos. E o mais grave: os atrasos ficam sem explicação. "Não temos resposta nem do Estado nem do Ministério da Saúde", enfatiza Camila, em busca de esclarecimentos que, realmente, apontem os porquês das demoras.
Até hoje são muitas as indagações para tentar entender o que há por trás do desabastecimento. E, no país todo, são milhares de pessoas prejudicadas.

O que diz a 3ª CRS
Ao conversar com o Diário Popular na quarta-feira (11), no final da tarde, o titular da 3ª Coordenadoria Regional de Saúde, Gabriel Andina, ressaltou que os medicamentos são fornecidos pelo governo federal. O Estado só se encarregaria da separação e da entrega dos antirretrovirais. "O Ministério da Saúde não tem entregado toda a demanda e temos sofrido com o desabastecimento".

Ao ser questionado sobre formas efetivas de cobrança, para que o problema chegue ao fim, Andina assegurou que a União tem sido notificada constantemente. Uma reunião em Porto Alegre, nesta semana, com os secretários municipais de Saúde colocará o tema em pauta para, justamente, endurecer o tom do discurso. É o que a comunidade exige: solução. E rápida.

 


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados