Pesquisa

Pesquisa da Arquitetura da UFPel é financiada por recursos do Reino Unido

Três bairros de Pelotas irão integrar um longo estudo financiado por agência de fomento do Reino Unido

18 de Fevereiro de 2016 - 06h27 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

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                 A percepção da Terceira Idade será fundamental ao desenvolvimento do trabalho (Foto: Jô Folha - DP)

Três bairros de Pelotas irão integrar um longo estudo financiado por agência de fomento do Reino Unido. A pesquisa Lugares com pessoas idosas: Rumo a comunidades amigáveis ao envelhecimento das pessoas, proposta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Faurb) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), irá analisar localidades de seis municípios; três brasileiros e três britânicos. O trabalho, programado para se estender até maio de 2019, está alicerçado em uma premissa básica: mudar a forma construída não é o suficiente para criar ambientes mais inclusivos para o envelhecimento. É preciso ir além.

“Lugares são mais do que espaços físicos”, enfatiza a coordenadora do estudo no Brasil, a professora Adriana Portella. Não basta, portanto, apenas atender medidas previamente estabelecidas em leis e manuais. Os projetos arquitetônicos também devem atentar-se aos laços sociais, psicológicos e emocionais que se estabelecem com os locais, ao longo dos anos. É o chamado sentido de lugar. E é o que os pesquisadores de dez universidades - dos dois países - querem buscar em contato direto com a comunidade - veja como vai funcionar.

Tudo com um objetivo: contribuir para os espaços serem projetados com o cuidado de promover uma vida saudável aos idosos que, não raro, passam a ter dificuldades de locomoção com o avanço da idade e também sofrem com a diminuição da capacidade cognitiva e com a perda de apoio social. “Ambientes urbanos, na sua concepção atual, muitas vezes desencorajam o envelhecimento ativo e colocam os idosos em risco de isolamento e solidão”, destaca a doutora em Design Urbano.

Daí, então, a importância do estudo, que se junta ao esforço internacional pela criação de áreas, recantos e municípios amigáveis à Terceira Idade, a partir da percepção dos próprios idosos. É uma iniciativa que, em breve, estará nas ruas, com métodos de interação com a população: diários registrados em vídeo e mapeamento participativo, além de abordagens mais tradicionais, como questionário e entrevista.

O jeito, às vezes, é ficar em casa
A aposentada Marina Gomes Souza, 68, admite: “Assim como tá, tenho medo de andar. Tenho muito medo de cair”. Para se proteger de calçadas e ruas esburacadas, tem preferido permanecer em casa. Só sai quando precisa pagar contas ou ir ao médico e à cabeleireira. E, de preferência, se o bolso permite pagar um táxi.

Do contrário, acompanha apenas o movimento da vizinhança, ali, da frente da residência na rua Paulo Guilayn, na zona da Balsa; uma das áreas que deverá integrar o estudo. Com artrose nos dois joelhos, precisa da ajuda de bengala ou andador. Com várias armadilhas no caminho, há alguns anos deixou de participar ativamente da vida da cidade. Sentiu-se forçada à decisão. Não chegou a ser uma escolha.

Na lembrança
Os passeios de bicicleta estão na memória. A natação como sinônimo de lazer também. O aposentado Orcy Corrêa, 88, hoje se limita a ficar em casa, embora a faceirice volte ao rosto quando se propõe um passeio. “Ele tem desgaste na cartilagem do joelho e tem tido muita dificuldade em subir as calçadas, altas, e sem rampas”, lamenta a filha Rosa Maria Corrêa Silveira, 60.

O jeito, então, tem sido o mesmo: transformar a frente de casa, na rua Tiradentes, em sinônimo de lazer, ponto de encontro e convívio social. Praias e praças, por exemplo, há tempos já não entram no roteiro.

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         "Assim como tá tenho medo de andar. Tenho muito medo de cair.” Marina Souza, moradora da Balsa (Foto: Flávio Neves - DP)

DURAÇÃO DO ESTUDO: 3 ANOS - De maio de 2016 a maio de 2019

Estabelecer e comparar como os idosos de diferentes classes sociais e contextos urbanos e culturais constroem o sentido de lugar, com foco na identificação de oportunidades, desafios, facilitadores e barreiras à participação social, à independência e à presença ativa na comunidade. Para isso, é preciso conhecer rotinas: mobilidade a pé, transporte coletivo e acesso e utilização de espaços e equipamentos comunitários. Será necessário buscar significados que estão por trás dos elementos da cidade - explica a professora Adriana Portella. 

Traduzir as informações do objetivo 1 em mapas e desenhos urbanos, com lugares que possuam significado à população. Será a oportunidade de responder quais serviços, amenidades e características são necessários para criar comunidades amigáveis aos idosos, que favoreçam o envelhecimento ativo e saudável.

Elaborar diretrizes para projetos de lugares com significados para a Terceira Idade, baseadas nas necessidades de diferentes classes sociais e contextos urbanos e culturais. São estratégias que buscarão facilitar a independência e a mobilidade desses idosos e também incentivar a participação social, a partir de ambientes mais convidativos. A intenção é de que tantos os mapas e desenhos urbanos quanto as diretrizes possam servir de orientação a profissionais envolvidos em projetos de planejamento e de revitalização, sejam técnicos engajados em iniciativas privadas ou na formulação de políticas públicas.

FINANCIAMENTO

A agência britânica de fomento à pesquisa ESRC, especializada nas áreas de Economia e Ciências Sociais, irá bancar o estudo. O valor total ultrapassará as 798,5 mil libras; o equivalente a mais de R$ 4,6 MILHÕES.

Em julho de 2015, a professora Adriana Portella - que, em abril, já havia sido selecionada entre 16 brasileiros para expor na Inglaterra contribuições da ciência nacional - encaminhou projeto a edital aberto pela ESRC, Fundo Newton, Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A aprovação foi conhecida em janeiro de 2016.

PRIMEIRO PASSO: MONTAGEM DA METODOLOGIA DE TRABALHO
Uma missão de dez pesquisadores brasileiros irá à Universidade de Edimburgo, na Escócia, onde permanecerá durante duas semanas para definir todo o método interativo a ser utilizado, como aplicativos e entrevistas. As decisões em conjunto têm um porquê: para comparar resultados, a metodologia adotada precisa ser fielmente igual tanto em solo brasileiro como em terras britânicas.

SEGUNDO PASSO: VOZ AOS IDOSOS
Os pesquisadores irão para as ruas ouvir a comunidade e coletar avaliações e anseios. Em um primeiro momento, um dos principais focos serão as lideranças de bairro, mas a intenção é de que a cada nova saída de campo, outros moradores sejam entrevistados, para elevar a multiplicidade de opiniões. Será um trabalho de porta em porta, principalmente, se considerado que muitos dos idosos podem não estar em áreas públicas, justamente, pela dificuldade de acesso. Uma sensação de isolamento.

Até o momento não estão definidos quais bairros de Pelotas irão integrar o estudo, mas, sem dúvida, as atenções não ficarão restritas à área central. Regiões mais desfavorecidas serão incluídas - adianta Adriana. A percepção dos idosos será a grande base do estudo e dos resultados que estão por vir.

Formas de participação: conferências realizadas a cada final de ano colocarão lado a lado pesquisadores brasileiros e britânicos e a comunidade. Será mais um instrumento de manifestação popular e uma oportunidade para conhecer resultados preliminares do estudo. Oficinas de mapeamento participativo também estão programadas.

TERCEIRO PASSO: O DIFERENCIAL
Conhecer o sentido de lugar é o grande diferencial da pesquisa Lugares com pessoas idosas: Rumo a comunidades amigáveis ao envelhecimento das pessoas. O trabalho quer conhecer significados, saber como os locais estão relacionados à vida dos cidadãos, à construção de suas memórias e ao sentimento de pertencimento a determinado ambiente.

E conhecer, portanto, a percepção dos idosos será essencial na hora de desenvolver projetos arquitetônicos e realizar intervenções que, na prática, se convertam em medidas positivas aos espaços urbanos. “As questões invisíveis também têm seu peso. Por isso, a opinião da comunidade precisa ser considerada na hora de fazer um projeto”, enfatiza a coordenadora.

COORDENADORES DO ESTUDO

No Brasil: Adriana Portella, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Faurb/UFPel)

No Reino Unido: Ryan Woolrych, da Universidade Heriot-Watt, em Edimburgo, na Escócia

O FRUTO QUE VAI FICAR!
Um Laboratório de Estudos Comportamentais será criado na Faurb-UFPel e contará com profissionais de diferentes áreas, como Turismo e Psicologia, além da Arquitetura, claro. Todos os equipamentos adquiridos agora, ao longo do estudo financiado pelo Reino Unido, farão parte do acervo do laboratório, como tablets e câmeras GoPro.


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