Histórico

Pelotenses comemoram valorização dada pelo Iphan

População demonstrou-se otimista com o futuro após registro doceiro como patrimônio imaterial e arquitetura como patrimônio material do Brasil

17 de Maio de 2018 - 08h17 Corrigir A + A -
Moradora de Piratini, Tatiana sempre compra doces quando vem a Pelotas (Foto: Jô Folha - DP)

Moradora de Piratini, Tatiana sempre compra doces quando vem a Pelotas (Foto: Jô Folha - DP)

Tradição doceira e patrimônio arquitetônico foram reconhecidos pelo Iphan (Foto: Jô Folha - DP)

Tradição doceira e patrimônio arquitetônico foram reconhecidos pelo Iphan (Foto: Jô Folha - DP)

Isabela e Elisa saboreiam doces na praça Coronel Pedro Osório (Foto: Jô Folha - DP)

Isabela e Elisa saboreiam doces na praça Coronel Pedro Osório (Foto: Jô Folha - DP)

Tomaz Isolan costuma levar doces aos amigos quando viaja (Foto: Jô Folha - DP)

Tomaz Isolan costuma levar doces aos amigos quando viaja (Foto: Jô Folha - DP)

Pelotas amanheceu como um ar diferente nesta quarta-feira (16). Na terça, havia sido a primeira cidade a receber do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o reconhecimento de Patrimônio Cultural Material e Imaterial do Brasil em um mesmo momento.

A arquitetura de sete áreas, bem como seu entorno, totalizando 64 prédios, foi tombada por unanimidade na votação feita pelos membros do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. Agora, estão inseridos em três livros do Tombo: Histórico, de Belas Artes e Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. O saber fazer dos doces finos, de bandeja e os coloniais, de frutas, também foi reconhecido, fazendo parte do Livro dos Saberes do país. A partir de então, o Brasil inteiro saberá que em nenhum outro lugar o doce é feito como na região de Pelotas e Antiga Pelotas (os emancipados Morro Redondo, Capão do Leão, Turuçu e Arroio do Padre).

Nas ruas, é possível perceber o orgulho da população com a valorização do que é daqui. David Jeske, proprietário de uma doceria localizada no interior do Mercado Central, uma das áreas que receberão o tombamento como parte do conjunto da praça Coronel Pedro Osório, afirmou que, após o reconhecimento pelo Iphan, a procura dos doces aumentou. E muito, em torno de 50% pelos seus cálculos. Durante a tarde, em vários momentos chegou a formar fila em seu estabelecimento. Muitos pelotenses, mas também turistas, na procura do produto que teve seu jeito de fazer reconhecido como patrimônio do país inteiro.

O empresário comemorou a titulação, prevendo uma ampliação ainda maior na procura e no reconhecimento do município. "É uma nova cidade a partir de agora. Vai despertar o turismo e a valorização da cultura", projetou. A história de seu negócio coincide com a de tantas outras docerias pelotenses. Começou com os pais, utilizando as receitas de tias e avós. Agora, o filho toca o empreendimento, prevendo um bom futuro e uma resposta muito grande. "É importante reconhecer as raízes. Antes eu vendia história, agora também vendo patrimônio", concluiu.

Dentre os consumidores, a empolgação também tomou conta. A cabeleireira Tatiana Lopes veio de Piratini na companhia de uma sobrinha. Aproveitaram a passagem por Pelotas para saborear doces no Mercado Central, um costume, segundo ela. Embora viaje frequentemente para outros locais, afirma sentir a diferença no paladar quando compra um doce. "Pelotas é tradicional, aqui o sabor é diferente" pontua.

Crescendo com o sabor
A assistente social Roberta dos Santos passeava com as filhas Elisa, 2, e Isabela, 6, na praça Coronel Pedro Osório, na tarde desta quarta. Ela crê em uma maior valorização, reconhecendo a cidade em todo o país, atraindo também turistas, empresas e empregos. Enquanto saboreavam um doce, as meninas conversavam sobre o sabor e a experiência.

Já Tomaz Isolan, professor aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, nasceu em São Luiz Gonzaga, na região das Missões, mas mora há cinco décadas em Pelotas, onde nasceram seus filhos. Ele definiu como maravilhosa a valorização arquitetônica e doceira de Pelotas, destacando a existência de uma gama de outros locais a também serem explorados. Prestes a viajar para Porto Alegre, aproveitou a tarde para fazer compras a partir de encomendas de amigos. "Estou indo amanhã e levando doces. É o melhor presente para quem não é daqui. Com um doce, tu conquista uma amizade", definiu, apontando o bem-casado e o quindim como favoritos de seus amigos.

Projetando o futuro
O secretário municipal de Cultura (Secult), Giorgio Ronna, aponta como um primeiro passo à criação de um plano de salvaguarda da tradição doceira, a partir de uma comissão, baseando-se em planos já em desenvolvimento pelo Iphan. Além disso, um levantamento da tradição das doceiras negras também será feito pela Secult, para valorizar a influência africana na história pelotense, além de outras ações para fortalecer ainda mais a tradição.

A gestão dos bens materiais tombados passará a ser entre município e União, através do Iphan. Dessa forma, Ronna prevê maior acesso a recursos para preservação. Ele, porém, vê impacto da valorização atingindo o bem-estar da população. "O pelotense já vem passando por um aumento de conscientização, percebendo a nossa cultura", destaca, apontando o reconhecimento vindo de fora como algo a ser aproveitado no município.

O Sebrae, em parceria com a prefeitura, está desenvolvendo o Projeto Pelotas Turismo Colonial, ainda sem um nome final definido, para explorar os espaços reconhecidos pelo Iphan, as charqueadas e todo o contexto histórico e arquitetônico de Pelotas. A gestora de projetos de turismo, Jussara Argoud, aponta a importância do reconhecimento da etnia negra na formação de Pelotas como algo a também ser explorado pela rota.

Para contar a história de Pelotas do sal ao açúcar, reuniões seguem ocorrendo. A expectativa é de que a partir de maio do próximo ano o roteiro esteja pronto. "Eu quero entregar para Pelotas um produto qualificado (…) agora, a responsabilidade cresce", pontuou.

Enquanto isso, ações já estão sendo preparadas pela Secretaria de Turismo para receber turistas. Liliane Caldas, do Departamento de Planejamento e Projetos Turísticos, diz que, embora o turismo de negócios ainda seja líder em Pelotas, a parte cultural cresce ainda mais. Ela prevê um estímulo maior nessa área, a partir do reconhecimento dado pelo Iphan. A longo prazo, a qualificação das doceiras, dando-as maior visibilidade, passando as bancas da Rua do Doce para a rua 7 de Setembro - após o fim das obras do Calçadão.

Setores tombados como patrimônio material
Praça José Bonifácio (10 prédios)
Praça Coronel Pedro Osório (36 prédios)
Praça Piratinino de Almeida (1 prédio)
Praça Cipriano Barcellos (3 prédios)
Parque Dom Antônio Zattera (10 prédios)
Chácara da Baronesa (2 prédios)
Charqueada São João (2 prédios)

 

 


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