Coronavírus

Pelotas tem primeiro caso confirmado de Covid-19 e anuncia mudanças em protocolos

Decisão foi anunciada pela prefeitura na mesma coletiva de imprensa que confirmou o primeiro caso de coronavírus em Pelotas e segue orientação estadual, que alterou protocolos

25 de Março de 2020 - 20h54 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) confirmou o primeiro caso de Covid-19 em Pelotas (Foto: Jô Folha - DP)

Prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) confirmou o primeiro caso de Covid-19 em Pelotas (Foto: Jô Folha - DP)

Pelotas confirmou o primeiro caso de coronavírus: a idosa, de 71 anos, tem quadro estável e permanece em casa. O anúncio foi feito em coletiva virtual concedida à imprensa na manhã de ontem. Na mesma oportunidade, a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) adiantou que os exames para verificação de Covid-19 só serão realizados em pacientes hospitalizados e em estado grave. A medida segue orientação do governo do Estado, que decidiu adotar outros protocolos.


Em 37 minutos, a chefe do Executivo reforçou o apelo para a população se manter em isolamento social e admitiu que as declarações do presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento na noite de terça-feira, deixaram boa parte do país estarrecida. "Estamos seguindo orientações da comunidade científica internacional. Acredito na Ciência e respeito a vida dos cidadãos e cidadãs pelotenses", enfatizou a prefeita.
Por várias vezes ao longo da entrevista, Paula ampliou o pedido para a população resguardar-se, ouvir as recomendações de estudiosos, cientistas e pesquisadores e adotar uma linha de cuidado mais dura. Mais rígida. "Esse é o melhor caminho para vencermos o coronavírus, com a colaboração de todos." A prefeita também garantiu que nenhum dos dois decretos deve ser alterado. Estão autorizados a permanecer em funcionamento apenas estabelecimentos ligados às áreas de saúde, alimentação, postos de combustíveis, rede bancária e lotéricas.


As restrições também não atingem o setor industrial, como a construção civil. A qualquer momento, entretanto, o tema pode entrar na pauta do Comitê de Crise, que possui autonomia para tomada de novas medidas.

Saiba mais 
- A origem do caso confirmado - A senhora de 71 anos teve contato com dois familiares que, por sua vez, estiveram com pessoas infectadas de Porto Alegre. Os dois parentes da idosa não chegaram a realizar o teste porque já teriam perdido o prazo em que seria efetivo fazer a coleta. Ainda assim, houve indicação de que se mantivessem em casa, sem contato com terceiros.


- Fique atento - Com a determinação da Secretaria Estadual da Saúde de que apenas pessoas internadas em situação grave serão submetidas ao exame, cresce a importância de ficar ainda mais atento aos sintomas. Diante de sinais que se assemelhem a uma gripe, como tosse, febre e dores no corpo, opte pelo isolamento domiciliar pelo período de 14 dias. É uma das principais estratégias para tentar evitar que a disseminação do coronavírus ocorra em intervalo curto, sobrecarregue o sistema público e gere um colapso no atendimento, com falta de estrutura para receber todos os pacientes.


- Acione a Central de Triagem - O telefone (53) 3284-7700 segue à disposição da comunidade para relatar sintomas, tirar dúvidas e obter orientações de qual o melhor local para buscar atendimento, sem expor-se a risco nem colocar outros moradores em perigo de contágio. O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.


- Com sintomas mais acentuados, procure a UPA - A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Areal é porta aberta para as situações de suspeita de Covid-19, em que o paciente já registra sintomas um pouco mais acentuados, como falta de ar. "Nós acolhemos este paciente, estabilizamos e fazemos contato com a Secretaria de Saúde, que assume a regulação para decidir para que tipo de leito esta pessoa será encaminhada", explica o diretor Guilherme Bergmann.

Se um dos pacientes, eventualmente, tiver recorrido a uma das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou à Unidade Básica de Atendimento Imediato (Ubai) Navegantes, a UPA Areal pode encarregar-se de buscá-lo, com o suporte de ambulância - garante.


Suspeita de coronavírus em crianças provoca angústia de familiares
A quarta-feira foi de desespero para familiares de três crianças internadas na UPA Areal com suspeita de coronavírus. A dúvida sobre qual hospital poderia acolhê-los trouxe tensão não apenas para os parentes dos pequenos - com idades de quatro anos, dois anos e de 11 meses -, como também para a equipe de plantão. O pedido de apoio foi parar nas redes sociais. No final da tarde, o trio foi levado para o Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP), que passará a ser referência para os quadros pediátricos de Covid-19, com oito leitos; quatro clínicos e quatro de UTI.

"Precisamos de ajuda urgente. A minha irmã tá com dificuldade de respirar. Tá no oxigênio e no soro e não reage", conta a jovem Gabriela Garcia, 23, e não contém o choro. Júlia começou a apresentar tosse e febre há quatro dias. Diante da orientação de isolamento social, a família preferiu aguardar. Quando a temperatura chegou aos 39,6ºC, no final da noite de terça, a decisão foi por procurar atendimento. Nenhum deles viajou ou teve contato com quadros, conhecidamente, suspeitos da doença.

Os casos revelam um sistema ainda em fase de organização. O Hospital-Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel) será referência para internação de adultos com diagnóstico ou suspeita de coronavírus. Já a Santa Casa de Misericórdia confirmou a existência de estrutura física para montagem de até 20 leitos de UTI específicos para o combate da Covid-19, mas a montagem ainda depende de liberação de equipamentos negociados com o governo do Estado e o Ministério da Saúde.

Plano inclui criação de Central do Coronavírus
Ainda não há data definida para entrar em funcionamento, mas o prédio da UPA Bento - até agora sem utilização - deve transformar-se temporariamente em uma Central do Coronavírus, em Pelotas. A afirmação foi feita ontem, durante coletiva à imprensa. A definição sobre fluxo de equipes e a disponibilidade de equipamentos são os pontos centrais do debate.
O Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, emprestar equipamentos, é uma das possibilidades. Tratativas também são feitas com empresários, para unir esforços em busca de soluções.


Consequências econômicas são pauta para um segundo momento
A angústia também toma conta de empresários, que veem a chance de o negócio ruir, quando a rotina for normalizada. A prefeita Paula Mascarenhas admite que as consequências econômicas serão graves, em todo o país, mas foi enfática ao defender que, neste momento, o alvo se direciona integralmente à preservação de vidas.
"Não há preocupação econômica que nos faça arriscar vidas humanas", reforçou, ao rebater palavras do presidente Jair Bolsonaro. "Vamos pensar na economia depois: juntar forças, buscar alternativas e verificar possíveis medidas a adotar, no menor tempo possível, mas a prioridade agora é preservar vidas."

Pronunciamento do presidente gera reação
As declarações do presidente da República forçaram manifestações oficiais desde a noite de terça-feira. Em nota, o reitor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), Flávio Nunes, reiterou a vigência de medidas adotadas pela instituição, que suspendeu as aulas presenciais na segunda-feira, 16 deste mês. Recomendamos que todas as pessoas continuem adotando as boas práticas de higiene e evitem sair de casa, tanto quanto possível, fazendo sua parte para que juntos possamos vencer a doença.
O Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (Cosems/RS) também refutou as palavras de Jair Bolsonaro que, mais uma vez, buscam polarizar o país. Ao defender a bandeira do Sistema Único de Saúde (SUS) e de um esforço coletivo para derrotar a Covid-19, o presidente da entidade, Diego Espindola, enfatizou, em documento de duas páginas: ... Nos vemos obrigados apenas a não permitir que pronunciamentos deste caráter e magnitude sejam levados em conta, evitando assim, que seja destoado o foco que devemos ter na condução desta pandemia...". Medidas, aliás, que seguem à risca orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Sociedade Brasileira de Infectologia.

 


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