Homenagem

Pela reparação histórica

Mobilização busca mudar o nome da rua Barão de Cotegipe, no bairro Cruzeiro, para Luciana de Araújo

13 de Julho de 2020 - 12h27 Corrigir A + A -
Ele foi contra a abolição. População quer tirar o nome do Barão de Cotegipe. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Ele foi contra a abolição. População quer tirar o nome do Barão de Cotegipe. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Por Renan Santos - renan.santos@diariopopular.com.br
(estagiário sob supervisão de Débora Borba)

O ano de 2020 está marcado pela intensificação das discussões a respeito da igualdade racial no mundo. O assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, impulsionou os debates a respeito das referências sociais e de monumentos públicos que homenageiam figuras controversas. Em Pelotas não foi diferente. Entre as diversas mobilizações, está a proposta da troca do nome da rua Barão de Cotegipe, no bairro Cruzeiro, para Luciana de Araújo. Uma troca que mostra o contraste de quem realmente recebe homenagens em Pelotas.

Há um ditado que afirma: “um povo sem memória é um povo sem futuro”. É justamente com este objetivo, de buscar novas interpretações, de revisar conceitos históricos incorporados na sociedade e de reinterpretar o papel de figuras passadas que está fundamentada a proposta. “Nós queremos ressignificar o que está sendo demonstrado na sociedade. Quais são os nossos valores de contribuição social, nossas referências de heroísmo. Neste sentido, não há comparação entre a Luciana de Araújo e o Barão de Cotegipe. A Luciana era uma mulher negra que trabalhou a vida inteira em prol das crianças negras em Pelotas em uma época que isso era ainda mais difícil. E o outro é o Barão de Cotegipe, uma figura pública que se posicionou contra a abolição da escravidão, dono de escravos”, explica o membro da Comissão Especial de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e presidente do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, Fábio Gonçalves.

A proposta surgiu na própria comunidade do bairro Cruzeiro. Moradores do bairro procuraram o coordenador do projeto Museu do Percurso Negro, Luis Carlos Mattozo. A partir deste contato inicial, foram consolidados grupos em redes sociais para desenvolver a questão e surgiu a ideia de renomear a via, como uma forma de homenagear Luciana de Araújo. Após esta ampla discussão, começou a ser elaborado um projeto de lei, que cumprirá todos os ritos administrativos para viabilizar a mudança. Para atingir este objetivo, também está sendo confeccionado um manifesto que colherá assinaturas e demonstrará a adesão popular junto ao projeto. A proposta será encaminhada a Câmara de Vereadores. “Substituir um escravocrata, que defendia o racismo e que condenou a Princesa Isabel por aprovar a abolição por uma mulher negra, filha de mãe escrava, que criou uma casa importante para o acolhimento de meninas negras é muito importante. Gera um processo de identidade, uma referência de um legado da população negra em Pelotas. É uma política afirmativa no ponto de vista da identidade visual, no cenário urbano da cidade”, destaca Mattozo.

Luciana de Araújo chegou a Pelotas em busca de tratamento para um quadro de tuberculose e se deparou com uma realidade que a entristeceu: um alto número de meninas negras nas ruas da cidade. Na época, os orfanatos não acolhiam crianças pretas e ela prometeu a São Benedito que, caso se curasse da enfermidade, construiria um local para acolhê-las. Curada, ela cumpriu o que prometeu. Em 1901 era criado o Asilo de Órfãs São Benedito, atualmente denominado como Instituto São Benedito. Neste contexto, Fábio ainda lembra que há uma série de figuras negras que não receberam o devido reconhecimento. “As pesquisas apontam que muitas pessoas negras tiveram muitas contribuições sociais e nunca receberam uma homenagem. Queremos ressignificar, resgatar, estabelecer outros referenciais diferentes dos que já estão aí. Fazer justiça com aqueles que realmente ergueram Pelotas”, pontua.

Mobilização no Brasil e no Mundo
No Brasil, as manifestações se consolidaram em duas vertentes. A primeira, chamada “Ar”, faz referência às últimas palavras de George Floyd antes de falecer e visa discutir pontos de racismo na sociedade. O segundo movimento é o “Racismo nas Ruas”, que busca este revisionismo de figuras públicas historicamente controversas. Na capital gaúcha também há uma mobilização para dar novo nome à rua Barão de Cotegipe, no bairro São João. Em São Paulo, há um manifesto que pede a retirada da estátua do bandeirante Manoel Borba Gato, por ser uma das referências do período da escravidão. O movimento Black Lives Matter (Vidas Pretas Importam) ganhou o mundo e impulsionou uma série de manifestações. Foram registrados o recolhimento de bandeiras e a substituição de estátuas de personalidades escravagistas. Em Bristol, na Inglaterra, os militantes arrancaram a estátua do traficante de escravos Edward Colston. Nos EUA, foram realizadas represálias direcionadas ao exército confederado da Guerra Civil, corrente que defendia a escravidão no país.


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