Faça sua parte!

Para evitar o colapso do sistema de saúde é preciso ficar em casa

Comitês da UFPel fazem críticas à duração do lockdown, mas garantem que a adesão, mesmo por período curto, terá impacto positivo na rede hospitalar e na redução de mortes

07 de Agosto de 2020 - 08h46 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Aderir às medidas de Distanciamento Social é fundamental para ajudar a barrar a propagação do vírus (Foto: Jô Folha)

Aderir às medidas de Distanciamento Social é fundamental para ajudar a barrar a propagação do vírus (Foto: Jô Folha)

Pesquisadora Anaclaudia Fassa destaca que quanto mais cedo as restrições forem adotadas, maior será o efeito positivo (Foto: Divulgação)

Pesquisadora Anaclaudia Fassa destaca que quanto mais cedo as restrições forem adotadas, maior será o efeito positivo (Foto: Divulgação)

O apelo só cresce. O ponto é de aceleração da Covid-19, na Zona Sul. Projeções realizadas por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) fazem disparar o alerta. Sem elevar os índices de distanciamento social, a expectativa é de que até 90 leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) sejam necessários no momento do pico. Detalhe: 90 vagas para casos mais graves só dos moradores de Pelotas, sem considerar a abrangência regional da rede hospitalar. É exatamente o triplo da capacidade que se tem, hoje, para o acolhimento de adultos.

Em nota técnica de duas páginas, os integrantes dos Comitês de Enfrentamento da Pandemia da UFPel e do Hospital-Escola reforçam a recomendação do aumento imediato das medidas de isolamento social. E, de novo, defendem que Pelotas precisaria atingir uma adesão de até 70% no distanciamento - e não um índice de 45%, como tem sido registrado - por um período de três semanas. Seria uma forma de conter o avanço da curva, isto é, barrar a propagação do novo coronavírus.

"Quanto mais precoce forem adotadas as medidas, maior impacto elas terão para o achatamento da curva", ressalta a doutora em Epidemiologia, Anaclaudia Fassa. E explica que a mesma ação, implementada uma ou duas semanas depois, por exemplo, já não tem o mesmo efeito positivo. Ficar em casa, portanto, não significa apenas cuidar de si e preservar, na carona, familiares e amigos. Dizer sim ao distanciamento social é ajudar a reduzir o número de mortes e a evitar um possível colapso do sistema de saúde.

Respeitar o lockdown pode evitar mais de 40 óbitos

O dado integra as projeções desenvolvidas pelos pesquisadores da UFPel; profissionais de peso que compõem o corpo de professores do Centro de Epidemiologia, reconhecido no Brasil e no mundo. No documento, os pesquisadores montaram dez cenários, com três datas distintas para o começo de medidas restritivas - 8, 10 e 17 de agosto - e com períodos também diferentes de paralisação de atividades, com oscilação do prazo de dois dias a três semanas de interrupção, com uma adesão variável ao distanciamento, de 45% a 75%.

Ainda assim, e mesmo com a ressalva de que o lockdown deveria ser maior, fica o apelo para cada cidadão permanecer em casa. As consequências são concretas, têm embasamento científico e podem ser a diferença entre a vida e a morte de mais pacientes. Confira parte da projeção da UFPel e veja que se você fizer a sua parte menos pessoas deverão ter perdido a batalha para a Covid-19, até o final do ano, já que você ajudará a estancar a circulação do vírus:

- Ao parar por dois dias a partir deste sábado: (*)

                                        Óbitos   Enfermaria   UTI
Distanciamento de 45%   275       206                 90
Distanciamento de 55%   272       198                 86
Distanciamento de 70%   246       158                 68
Distanciamento de 75%   234       148                 64

- Ao parar por três semanas, a partir deste sábado: (*)

                                        Óbitos   Enfermaria   UTI
Distanciamento de 45%   292      186                  78
Distanciamento de 55%   259      132                  58
Distanciamento de 70%   214      99                    40
Distanciamento de 75%   180      97                    38

(*) Os leitos levam em conta a demanda que deverá ser necessária durante o pico da pandemia que poderá ser em setembro, conforme o andamento da curva. Para os óbitos, a projeção considera o número de pessoas que deverá ter morrido até 31 de dezembro

Reflita e engaje-se!

- Medidas adotadas em março foram válidas, sim
A médica Anacláudia Fassa, professora do Centro de Epidemiologia da UFPel, é enfática ao afirmar que as primeiras interrupções das atividades adotadas no Rio Grande do Sul, no mês de março, foram fundamentais para jogar a curva para frente e ganhar tempo para estruturação mínima da rede de saúde pública, em acesso a Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) aos profissionais de saúde, criação de alas hospitalares Covid e ampliação de leitos e obtenção de exames RT-PCR e de testes rápidos.

"Ganhar tempo é muito importante. Hoje temos muito mais informações sobre o manejo da doença e como enfrentá-la", destaca. E lembra que em países como a Itália, 50% dos óbitos ocorreram em um intervalo de apenas 15 dias. A própria falta de condições de assistência e acolhimento hospitalar estão no pano de fundo de parte das mortes.

- Chegar ao colapso do sistema de saúde também afeta a economia
Uma grande concentração de casos positivos em um intervalo curto de tempo coloca em risco o sistema de saúde. Daí, a importância de ficar em casa, sempre que possível, para ajudar a barrar a transmissão. Ao sustentar que a Ciência não desconsidera o impacto econômico, a doutora em Epidemiologia argumenta que o colapso do sistema é ainda pior à economia: "O colapso causa uma tal desorganização social que vai ter um impacto ainda maior do que esse distanciamento, que é uma medida mais planejada. Numa situação dessas, igual as pessoas ficam em casa, gera-se pânico e ocorrem ainda mais mortes".

E, ao encerrar a conversa com o Diário Popular, a pesquisadora lembra que a proteção social é insuficiente no Brasil e faz com que os cidadãos não tenham o direito de dizer sim ao distanciamento, já que precisam sair pra trabalhar. "Precisamos de políticas que promovam a proteção social de forma a garantir o direito de as pessoas ficarem em casa".


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