Covid-19

Os impactos da pandemia no transporte

Com número reduzido de passageiros e salários e contas de diesel para pagar, Consórcio busca medidas para não paralisar o serviço

08 de Abril de 2020 - 08h12 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Horários. Serviço está funcionando com alterações durante a pandemia. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Horários. Serviço está funcionando com alterações durante a pandemia. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A Covid-19, que se alastra com força e já contaminou mais de 13,7 mil pessoas em todo o país, provoca reflexos no sistema de transporte coletivo de Pelotas. Com uma primeira parte da folha de pagamento de abril para adiantar - no valor de aproximadamente R$ 600 mil -, na segunda-feira, e com parcelamento de compras de diesel em atraso, a interrupção dos serviços nos próximos dias chegou a ser cogitada. A crise virou tema de duas reuniões, até o início da noite de ontem: uma só com empresários e uma rodada com trabalhadores.
Na pauta, dois temas centrais: a implementação de medidas que possam evitar demissões, como a redução de jornada, e o levantamento dos estoques de combustível. “A situação é catastrófica”, resume o diretor-executivo do Consórcio do Transporte Coletivo de Pelotas, Enoc Guimarães. E explica que as decisões deverão ser minuciosamente calculadas, semana a semana. “Vamos tentar negociar o diesel e ver como conseguimos sobreviver pelos próximos dias.”

Para reduzir prejuízos com o número escasso de passageiros, apenas 40% dos trabalhadores têm se dividido nas escalas. Em torno de 15% dos funcionários, já aposentados, realizaram acordo para terem seus contratos suspensos temporariamente: como integrantes de grupo de risco, ficaram em casa - resguardaram-se -, abriram mão dos salários e, em troca, ganharão estabilidade de um ano, ao retornarem ao trabalho.

Os outros 45% dos profissionais receberam férias, mas com a Medida Provisória (MP 927) que flexibiliza as regras - em decorrência do novo coronavírus -, só irão receber no quinto dia útil do mês seguinte, em 8 de maio. Sem falar que o equivalente a um terço de férias poderá ser quitado até o último dia para pagamento do 13º salário; ou seja, 20 de dezembro. As alternativas, entretanto, são insuficientes para compensar as dificuldades financeiras - que têm crescido nos últimos tempos, também por outros fatores.

“O problema é a gente conviver com esta incerteza de quando vai poder voltar ao normal”, admite Enoc Guimarães. E lembra que mesmo com a frota circulando com esquema de domingo, que equivale a aproximadamente 40% dos horários, o total de passageiros não tem passado de 20%. E mais delicado: das cerca de 15 mil pessoas que têm rodado, por dia, em torno de cinco mil usuários são aposentados, isentos de pagamento.

No último domingo, não mais do que duas mil pessoas andaram de ônibus. Ruim para o sistema. Excelente diante do apelo para a comunidade ficar em casa e não se expor aos riscos de contrair a Covid-19.

Reivindicações poderiam se transformar em fôlego
A lista de pedidos foi apresentada diretamente à prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) em teleconferência, na última semana. Entre as reivindicações, destaque à solicitação de isenção fiscal do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) durante o período de escassez no movimento e de antecipação do Executivo no pagamento do vale-transporte dos municipários do mês de maio. 

Os recursos poderiam ser canalizados a duas frentes emergenciais neste momento: o pagamento da folha e a compra de diesel, que permitisse reabastecer os tanques localizados no pátio das empresas. “Com base no fluxo dos últimos dias e, considerando que ainda teremos feriado na sexta e o final de semana pela frente, não devemos arrecadar mais do que R$ 350 mil”, projeta o advogado Enoc Guimarães.

O que diz o governo
O secretário de Transporte e Trânsito, Flávio Al-Alam, garante que a prefeitura não desconsiderou os pedidos efetuados pelo Consórcio do Transporte Coletivo e uma resposta deve ser formalizada nos próximos dias. O enxugamento de horários e a unificação de linhas - fora das horas de pico - foram medidas adotadas pelo governo para unir duas pontas: atender exigências dos decretos municipal e estadual em decorrência do novo coronavírus e reduzir a quilometragem percorrida pelo sistema, para encolher custos.“Tivemos uma atitude rápida para fazer essas adequações e estamos cientes dos problemas. Estamos atentos”, sustentou Al-Alam, sem anunciar data para apresentação de resposta aos empresários.

Conheça alguns números
O sistema do transporte coletivo de Pelotas possui, atualmente, cerca de 800 trabalhadores.

A folha de pagamento, no valor de aproximadamente R$ 3,5 milhões, corresponde a 52% dos custos. O óleo diesel, que teve uma alta acumulada de 50% no preço em dois anos - equivale a 25% dos gastos.

Em julho de 2016, quando firmado o contrato do Consórcio do Transporte Coletivo de Pelotas, o número de passageiros pagantes chegava a 2,1 milhões por mês. Em novembro do ano passado, quando negociado o novo valor da tarifa, o total de usuários pagantes já despencava a cerca de 1,7 milhão por mês. O crescimento do sistema de transporte por aplicativos desponta entre as principais razões.

Impacto também em Rio Grande
Na última semana, a Noiva do Mar demitiu 45 funcionários. Em nota, a empresa - que responde por 90% das operações em Rio Grande - fez referência à crise, sem precedentes na história, e assegurou que várias ações teriam sido realizadas para tentar evitar o desligamento dos trabalhadores, adotado para barrar o colapso imediato do sistema. Ao conversar com o Diário Popular, ontem, o secretário de Mobilidade Urbana, Acessibilidade e Segurança, Carlos Alberto Terres, assegurou que a prefeitura realiza avaliação de medidas operacionais, técnicas e financeiras que garantam a manutenção do sistema.


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