Seca

O verão com menos chuva desde 1893

Entre dezembro de 2019 e fevereiro deste ano, foram apenas 100,4 milímetros

30 de Março de 2020 - 08h02 Corrigir A + A -
Cenário desolador. Situação se agrava a cada dia sem chuva. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Cenário desolador. Situação se agrava a cada dia sem chuva. (Foto: Carlos Queiroz - DP)

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O período entre o mês de dezembro de 2019 e fevereiro deste ano teve a menor incidência de chuvas em Pelotas nos últimos 127 anos. A conclusão é de um estudo elaborado pela Embrapa Clima Temperado, em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A análise considerou a série de dados desde 1893 da Estação Agroclimatológica de Pelotas/Capão do Leão (EAPel), instalada na Estação Terras Baixas (ETB) da Embrapa, operada em convênio por ambas as instituições, juntamente com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

O pesquisador da Embrapa e coordenador do Laboratório de Agrometeorologia da empresa, Silvio Steinmetz, lembra que a estação funciona desde 1º de maio de 1888, mas que foram escolhidos dados a partir de 1893 por serem mais confiáveis. Com isso, em conjunto com o coordenador da EAPel, professor Edgar Schoffel, da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (Faem), da UFPel, foram somadas as quantidades de chuvas do período de verão, compreendendo os meses de dezembro, janeiro e fevereiro de cada temporada, de forma a obter o índice pluviométrico dos períodos, iniciando pelos anos de 1893/1894. Dessa forma, foi possível identificar que o último verão, compreendendo o intervalo de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020, teve a incidência de 100,4 milímetros. “A partir daí, a gente fez o levantamento e verificou que o ano que teve a menor quantidade de chuvas foi esse último ano”, afira o pesquisador. O valor representa um terço da média esperada para o mesmo período, de 330,8 milímetros.

“O que se está verificando é que foi um ano em que a chuva foi muito abaixo do normal”, conta Steinmetz. Segundo ele, instituições que analisam o tempo e o clima, como a UFPel, já indicavam, desde outubro do ano passado, que a temporada seria de menor índice de chuvas, devido à neutralidade em relação à ocorrência de fenômenos como o El Niño e La Niña, no Oceano Pacífico. Steinmetz explica que pesquisas demonstram a influência do La Niña na ocorrência de períodos de estiagem e que outras análises já definem, também, que os anos neutros igualmente proporcionam grandes impactos na agricultura. Além disso, ele lembra que os agricultores tiveram dificuldades com o excesso de chuvas em outubro de 2019, período de semeadura de arroz, soja, milho e outras culturas. “A partir dali, aguardaram que a intensidade da estiagem não fosse tão forte quanto a que ocorreu”, pontua.

Conforme o estudo, o segundo período com a menor ocorrência de precipitação foi entre dezembro de 1964 e fevereiro de 1965, quando houve o registro de 108,7 milímetros. Outras grandes estiagens ocorreram no mesmo período dos anos 1944 e 1945, com 131,6 milímetros; 1942 e 1943, com 149,6 milímetros; 1906 e 1907, com a incidência de 152,6 milímetros. O verão com maior volume de chuvas em Pelotas foi durante a temporada de 1997 e 1998, com 818,2 milímetros, devido à ocorrência do fenômeno El Niño.

Estiagem na região
Outro ponto destacado pelo pesquisador é que, apesar da grande intensidade dessa estiagem na região, a ocorrência do fenômeno é comum durante o verão na Metade Sul do Estado, mas em grau menos elevado. O fato é retratado no Atlas Climático da Região Sul do Brasil, elaborado pela Embrapa. Dessa forma, a elaboração de políticas públicas de longo prazo, como o incentivo à irrigação, poderia contribuir para amenizar os efeitos do fenômeno meteorológico na agricultura na região. “Várias tentativas já foram feitas, mas até hoje acho que não foram suficientes”, afirma, destacando a necessidade de investimentos em açudes e na distribuição de energia elétrica aos produtores. Essas ações, segundo ele, poderiam ser associadas a outras vantagens da região, como a disponibilidade de mananciais e a proximidade com portos.

Reflexos no abastecimento
O menor índice de chuvas registrado no verão afetou diretamente o principal reservatório de água de Pelotas, a barragem Santa Bárbara, cujo nível chegou a 2,82 metros abaixo do vertedouro, na última sexta-feira. “Por enquanto, ainda não trabalhamos com a possibilidade de racionamento”, afirma Alexandre Garcia, diretor-presidente do Sanep, destacando a previsão de chuvas para esta semana. No momento, o fator mais preocupante, segundo ele, é o elevado aumento do consumo de água, detectado desde o início do período da quarentena. “Nos parece que está havendo um consumo exagerado”, diz.

Durante a semana, uma das ações efetuadas para a criação de um canal, responsável por conduzir água de um local mais profundo para o ponto de captação, provocou alterações na coloração da água. “Faz 52 anos que a barragem está pronta e nunca tinha sido feito esse tipo de escavação, então tinha muito sedimento no fundo”, explica. Ele afirma, no entanto, que o problema já foi solucionado. “A água está em perfeitas condições para o consumo humano, sem nenhum problema.”

Caso a situação do nível do reservatório se agrave, as próximas medidas previstas no plano de ação da autarquia preveem a execução de um novo ponto de captação flutuante, com a criação de um terceiro canal em outro ponto do reservatório ou a transposição de água do Arroio Pelotas, estimada em mais de R$ 700 mil. Conforme Garcia, a situação será avaliada nesta semana, e a decisão irá depender da qualidade da água captada.

 


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