Especial

O que está por trás dos benefícios, a longo prazo, da amamentação

Tese de doutorado do Centro de Epidemiologia da UFPel, vencedora do Prêmio Capes 2019 em Saúde Coletiva, foi buscar na genética as explicações

16 de Setembro de 2019 - 08h12 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

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(Fotos: Paulo Rossi - DP)

Mais um estudo do Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) torna-se referência no Brasil e para o mundo. A tese de doutorado, vencedora do Prêmio Capes em Saúde Coletiva de 2019, foi buscar na genética - e encontrou - explicações que ajudam a entender por que a amamentação produz benefícios que persistem até a vida adulta, como maiores níveis de inteligência e menor propensão à obesidade. E as investigações não param por aí.

A partir do próximo ano, o biotecnologista Fernando Pires Hartwig, novo professor do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia, irá compor grupo internacional que deverá gerar mais dados e fazer novas análises para aprofundar conhecimento sobre os mecanismos biológicos que estão por trás do aleitamento materno. Bastam apenas definições quanto ao financiamento do estudo. "Queremos estudar ainda mais esta biologia para entender como a amamentação, que acontece nos primeiros anos de vida, influencia lá na frente", destaca o pesquisador.

E a resposta inicial, obtida com a tese de doutorado, entusiasma: o aleitamento materno está relacionado a fenômenos epigenéticos de metilação. Ou seja: está ligado a marcações que interferem no funcionamento do DNA. Daí estaria a chave - ou uma das justificativas - para entender os benefícios a longo prazo sobre QI e desfechos positivos na saúde.

Conheça o estudo 
Fernando Hartwig utilizou dados de Estudos de Nascimento de Bristol, na Inglaterra, e analisou a relação entre amamentação e metilação (marcação) em aproximadamente 500 mil regiões do DNA de cerca de 800 pessoas. E o resultado foi claro: aos sete anos de idade havia padrões diferentes de marcação do DNA entre crianças que mamaram e que não mamaram. Na adolescência, aos 15 anos de idade, cerca de metade das marcações diferenciais entre grupos de amamentação se mantiveram.

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Novos estudos, promovidos coletivamente a partir de 2020, devem aprofundar o tema e trazer informações que permitam afirmar se as marcações terão persistido até a faixa dos 20 anos de idade ou mais e, quem sabe, ter a possibilidade de relacioná-las com o tempo de amamentação de cada uma daquelas crianças.

- Entenda melhor
Para compreender o assunto, vamos pensar na concepção e voltar ao desenvolvimento embrionário, em que as células se multiplicam e adquirem características que dão origem a diferentes órgãos, a diferentes partes do corpo. E um dos grandes mecanismos que está por trás desse processo de definições sobre o que será pele, coração, pulmão... são, justamente, as modificações epigenéticas que fazem com que o mesmo DNA funcione de forma distinta conforme o perfil daquela célula.

E a tese - orientada pelo pesquisador Cesar Victora - analisou um tipo específico de fenômeno epigenético, que é o mais estudado em Epidemiologia: a metilação do DNA, que é quando algo que aconteceu lá atrás induz uma marcação dentro das células; no DNA. Essas marcações são carregadas para frente e podem ter manifestação visível, inclusive, na fase adulta, no desenvolvimento humano. É onde se encaixa a amamentação. Foi o que apontou o estudo.

Tese também derrubou contradição na literatura científica
O biotecnologista também se dedicou a uma segunda linha de estudo, que teve como ponto de partida duas pesquisas - uma de 2007, de um grupo da Nova Zelândia, e outra de 2010 realizada por ingleses - que apresentavam resultados opostos quanto a benefícios da amamentação para o QI, conforme o perfil genético, e a ligação desse desenvolvimento cognitivo com uma determinada classe de nutrientes chamada ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, em que um dos mais conhecidos é o Ômega 3.

Para entrar na discussão, portanto, não bastaria apenas produzir mais um estudo. Era preciso avançar. E foi o que Fernando Hartwig fez: decidiu promover estudo multicêntrico, com informações de oito países e de dez pesquisas diferentes, incluídas as publicadas em 2007 e 2010. Após análise de uma amostra que atingiu em torno de 12 mil pessoas foi possível chegar a uma resposta robusta: a variabilidade genética na capacidade de produzir os ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa não impede que o aleitamento traga benefícios ao QI. "A amamentação beneficia a todos, independentemente do perfil genético", sustenta.

E vai além: os efeitos mágicos do aleitamento não estão associados a este ou àquele nutriente, de forma isolada. "É a interação entre a complexidade de nutrientes que existem no leite materno, difícil de replicar artificialmente, que traz os benefícios", reitera. E aproveita para defender a importância de políticas públicas de promoção e de proteção à prática da amamentação. "Não é colocar uma carga sobre as mães, mas que elas tenham condições e apoio no ambiente de trabalho, na questão da licença-maternidade e também cultural, para que a população não ache constrangedor ou estranho haver uma mãe amamentando em espaço público."

Para enaltecer!
A tese Aspectos genéticos e epigenéticos da amamentação ganhou o Prêmio Capes 2019 na área de Saúde Coletiva e, agora, concorre ao Grande Prêmio nacional com outras categorias. E não é a primeira vez que isto acontece. Das nove edições do Prêmio, o Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel conquistou a distinção em Saúde Coletiva pela quarta vez, unindo-se às vitórias em 2011, 2013 e 2017. E a concorrência não é pequena: há teses produzidas, anualmente, em 38 programas de pós-graduação do país.


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