Análise

O legado dos protestos que mobilizaram o país há cerca de três meses

Diário Popular propõe uma reflexão sobre como estas manifestações podem revelar um novo modo de patriotismo

07 de Setembro de 2013 - 06h23 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Cartazes levaram às ruas as mais diversas reivindicações

Cartazes levaram às ruas as mais diversas reivindicações

O verde e amarelo não deve ser visto apenas em desfiles cívicos neste sábado, 7 de Setembro. O dia para celebrar a Independência do Brasil será também de manifestações em pelo menos 149 cidades do país. Nas redes sociais, cerca de 400 mil pessoas confirmaram presença. Em Pelotas, o ato deve ser realizado na avenida Bento Gonçalves, na sequência do desfile - marcado para as 10h - e ganhará a adesão principalmente dos professores estaduais em greve desde 26 de agosto.

"Os manifestos de junho deram um grande exemplo e criaram uma cultura diferente. Deram à população uma disposição maior de lutar", diz Helder Oliveira, de 27 anos, integrante do Movimento Juntos, à frente das marchas dos dias 20 e 26 de junho. Hoje, o jovem, professor de História e Sociologia, estará de novo nas ruas centrais de Pelotas, como membro do comando estadual de greve. E defende: as faixas e cartazes erguidos neste feriado pelo cumprimento do Piso Nacional do Magistério e por melhores condições de trabalho não deixam de ser a continuidade daquele mesmo processo, permeado então por diferentes bandeiras Brasil afora. Agora, em uma nova etapa das mobilizações, as pautas tendem a ser setorizadas - acredita.

E é bom que sejam - alerta o professor da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) Renato Della Vechia. "Quando não há um foco mais definido, corre-se o risco de as próprias pautas se anularem". Perde-se em capacidade de pressão e crescem as possibilidades de as respostas às demandas sociais permanecerem fincadas no papel. E o que já se viu até aqui, mesmo com a pluralidade de reivindicações e, por vezes, falta de direção ao movimento, tem saldo positivo.

"Esse momento histórico, depois de um hiato sem mobilizações políticas fortes no país, gerou discussão pública", enfatiza o doutor em Ciência Política. E nessa etapa de debates, homens e mulheres, adolescentes ou adultos, tendem a desenvolver a percepção de seu papel como cidadãos que podem, sim, fazer a diferença. Para isso, entretanto, devem passar filtro na série de temas que os interessam para decidir o que é prioridade; o que deve ficar na ponta da linha para ser cobrado das diferentes esferas de governo.

"A bomba-relógio tá pronta"
A combinação entre um eleitor descrente, cético, e o acesso à informação - um dos esteios para o avanço da democracia - facilitado pelas redes sociais, gerou o que pode se chamar de cidadão crítico. É o que explica a socióloga Elis Radmann, ao fazer a ressalva de que não são cidadãos, necessariamente, com consciência política. "As pessoas não sabiam bem como nem quando mudar, mas sabiam que assim como está não dá, seja pela má gestão, com a corrupção, seja pela má qualidade dos serviços públicos".

Era o cenário, de desilusão geral, que estava por trás das mobilizações que convulsionaram o país no mês de junho. O desafio, daqui para frente, é aprofundar as discussões e caminhar rumo à consolidação de um segundo princípio democrático, que é a participação consciente, a reivindicação de causas em grupos sociais organizados. E para isso, pontua a diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), as redes sociais serão novamente ferramenta facilitadora do acesso à informação. Estudos do IPO, inclusive, têm indicado que 50% da população de Pelotas têm acesso às redes, que permeiam diferentes rendas e faixas etárias.

"A bomba-relógio tá pronta", compara Elis, ao se referir à combinação entre nível de descrédito alto e acesso à informação. Dois elementos que, juntos, tendem a criar ciclos para romper com o sentimento de apatia.

Renato Della Vechia engrossa o coro e defende a importância de os manifestantes envolverem-se em discussões de fundo, que fujam da superficialidade de denúncias e comentários rápidos que circulam pela Internet. E, para defender o posicionamento, recorre ao debate sobre o financiamento público das campanhas eleitorais.

"É preciso que as pessoas pensem sobre o sistema privado que temos hoje, um modelo que gera a corrupção", defende. Com as campanhas, em diferentes cantos do país, alimentadas por dinheiro pesado de empresários, em geral, ligados a setores de transporte coletivo, construção civil e limpeza pública e recolhimento de lixo, os governos ficam - embora não devessem - amarrados em devolver os favores recebidos, alerta o professor. Nessa balança, portanto, se perderia mais do que em verba pública eventualmente direcionada às campanhas - reitera. "Hoje perdemos em serviços que não são qualificados e não há uma cobrança para isso". Della Vechia lembra ainda que foi justamente a luta por investimentos em mobilidade urbana que motivaram as primeiras manifestações, impulsionadas pelo Movimento Passe Livre, em São Paulo.

Em análise
Os dados ainda não estão concluídos, mas uma pesquisa realizada pela professora da UCPel Raquel Recuero - em parceria com Marco Toledo Bastos, da Universidade de Londres, e Gabriela Zago, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) - monitorou ferramentas, como o Twitter e o Facebook ao longo das mobilizações e relacionou a cobertura dos grandes veículos de comunicação e os reflexos desses posicionamentos.

"Nós comparamos esse 'discurso' da grande mídia aos números oficiais da polícia divulgados pela própria mídia durante a escalada dos protestos", conta a doutora em Comunicação e Informação. Resultado: o discurso expresso pelos veículos não condiz com a efetiva violência nos manifestos. As estatísticas oficiais revelam: houve um percentual muito pequeno de presos e feridos (e mortos) na semana de maior ebulição, em contrapartida ao número de pessoas nas ruas. Ou seja, os protestos foram, em sua maioria, pacíficos. "Mas as notícias que circularam nos veículos falavam, em sua maioria, da violência da polícia ou dos manifestantes".

As principais pautas Brasil afora
- Prisão imediata dos envolvidos no Mensalão
- Fim do voto obrigatório
- Aprovação e cumprimento do Plano Nacional de Educação
- Redução de deputados e representantes
- Reforma tributária
- Aprovação e cumprimento da Lei de Combate à Corrupção
(*) Segundo o site Operação Sete de Setembro, as pautas foram definidas em votação aberta que contou com cerca de 26 mil votos entre 28 de julho e 11 de agosto.

O 7 de Setembro pelo Brasil
- Brasília: Um dos convites na Internet é para manifestação às 9h no Museu Nacional, para o qual 16 mil pessoas estão confirmadas, enquanto outro chama os participantes para estarem às 10h em frente ao Congresso.
- Rio de Janeiro: Um evento pede que os manifestantes estejam às 7h30min na Cinelândia e outro convoca para o mesmo local, mas às 14h. O Exército divulgou nota dizendo que pode usar a força para impedir ataques à tropa ou danos aos equipamentos militares. "As Forças Armadas estão aptas a realizar, com amparo legal, ações de autodefesa da integridade física da tropa de desfile e do patrimônio da União". A Justiça definiu que quem usar máscaras poderá ser conduzido a delegacias para ser identificado civil e criminalmente.
- São Paulo: Na capital paulista o ato com mais pessoas confirmadas na Internet - aproximadamente 23 mil - está marcado para as 14h. Pela manhã acontece o tradicional Grito dos Excluídos, do qual participam igrejas, pastorais, movimentos sociais e populares e centrais sindicais. O tema será a juventude.

Há movimentações, também na Internet, que sugerem ação de Black Blocs, que usam a violência como estratégia política. As informações são dispersas e restritas para evitar perseguição policial. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou que não haverá restrição ao uso de máscaras e assegurou que a Polícia Militar não vai usar balas de borracha para reprimir os manifestantes, mas admitiu que depredações ao patrimônio público serão combatidas.

Informe-se e participe
Se você é favorável à Reforma Política, já para a próxima eleição, visite o site, informe-se e decida se você quer assinar a proposta. Eleições Limpas é proposto pelo mesmo movimento que criou o projeto Ficha Limpa. A intenção é de que as eleições de 2014 possam ser justas, democráticas e transparentes.


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