Educação

O jornal que mudou uma comunidade

Coordenados por duas professoras, alunos do Ginásio do Areal produzem veículo voltado à realidade dos moradores

23 de Abril de 2019 - 09h00 Corrigir A + A -
O conteúdo é voltado à realidade dos moradores. (Foto: Divulgação - DP)

O conteúdo é voltado à realidade dos moradores. (Foto: Divulgação - DP)

Em meados de 2016, a professora da Escola Estadual de Ensino Médio do Areal e graduanda em Jornalismo, Aline Vohlbrecht, começou a notar que os alunos das turmas de segundo ano apresentavam dificuldades em relação a leitura, escrita, expressão oral e atenção em sala de aula. Ela decidiu, então, com base nos seus conhecimentos jornalísticos e de Língua Portuguesa, mudar esse cenário recorrente e incentivar a participação estudantil através de um novo projeto. Surgia, então, o que viria a se tornar o principal canal de comunicação entre a comunidade escolar e o meio onde ela está inserida: o Jornal na Escola - Educando para a Cidadania.

O projeto experimental é desenvolvido com base nos conceitos de Comunicação Comunitária e Educomunicação. Inicialmente, foi desenvolvido com cerca de 120 alunos e contava com um espaço durante as atividades escolares destinado especialmente para ele. A falta de internet e um espaço próprio para produzir e editar, bem como a verba curta, foram alguns dos principais problemas enfrentados nessa caminhada. O Jornal do Ginásio começou a circular apenas no formato impresso, depois passou para o modelo digital, publicado na página do Facebook e no blog (https://ginasiodoarealnoticiasonlineblog.wordpress.com/). Cada página é produzida inteiramente pelos alunos e é destinada à comunidade. Por isso, os temas de interesse dos cidadãos e que falam da realidade onde vivem, imediatamente viram pauta.

De 2016 para cá, a ideia inicial passou por algumas mudanças. Hoje, Aline trabalha na 5ª Coordenadoria Regional de Educação (5ª CRE) e deixou de lecionar na EEEM do Areal. Com a ajuda da professora e orientadora Marismar Silva, que atua na escola, ela apenas coordena o projeto a distância. A perda de um espaço próprio, antes disponibilizado, fez com que as produções passassem a ser realizadas por voluntários, que se organizam através de reuniões de pauta em turno inverso ao das aulas. Aline explica que ainda é início de ano letivo, então os estudantes estão chegando aos poucos. "Até o final de março tínhamos 12 alunos", pontua. As inscrições estão abertas, todos são bem-vindos e a expectativa é de que o grupo cresça.

A professora confessa que desenvolver uma atividade como essa sempre foi seu sonho. Inclusive, o Jornal na Escola - Educando para a Cidadania foi o objeto de estudo do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Ainda durante o ano de 2016, ela o inscreveu no Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, e ficou entre as 50 melhores iniciativas em Educação do país. Dentre os mais de cinco mil inscritos, a escola pelotense foi a única do Rio Grande do Sul a ser finalista. Hoje, por meio do Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE) da 5ª CRE de Pelotas, a experiência vivida no Ginásio do Areal está sendo compartilhada com outros docentes da rede pública. Atualmente, outros 20 professores desenvolvem jornais escolares com seus alunos. "É muito lindo!", comemora Aline.

O jornal como voz da comunidade escolar
Além de intensificar o olhar para tudo que acontece dentro da comunidade onde estão inseridos, os alunos, agora, têm voz. O jornal é o canal pelo qual a escola se manifesta. Por isso, os voluntários são incentivados a desenvolver uma postura crítica e atenta, a fim de ir em busca de temas de interesse público e das soluções para os problemas. Na visão de Aline, eles se tornam pessoas mais participativas e entendem melhor como os meios de comunicação funcionam. Os problemas detectados lá em 2016, como dificuldades na escrita e leitura, melhoraram. "Sentem-se motivados, pois são protagonistas e produzem conteúdo", justifica.

Como todo projeto em sua fase inicial, o Jornal do Ginásio não gerou interesse imediato nos alunos. A proposta de incentivar o jovem a ser protagonista, com a ajuda de um professor orientador, pode ter gerado certo medo e receio. Já Gustavo Bluhm, convidado pela professora Aline, esteve presente desde o início. Hoje, ele cursa o segundo ano da graduação de Licenciatura em Letras - Português/Literatura e continua frequentando os encontros do projeto e escrevendo para o jornal. O último trabalho feito foi uma entrevista com a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB). Os resultados, segundo o estudante, encantam. É perceptível o quanto os novos voluntários evoluem à medida em que passam a ter contato com as ideias propostas.

Outros pontos ressaltados por Gustavo são referentes ao envolvimento com a comunidade e à percepção da responsabilidade que se deve ter com a instituição frequentada. "O jornal da escola cria um sentimento de pertencimento dos alunos e seus responsáveis à escola (...) a comunidade participa comentando, opinando ativamente, desde o pai que trabalha o dia todo e, infelizmente, não tem tempo para acompanhar a vida escolar do filho, ao filho que passa as tardes na escola", afirma.

O Jornal na Escola - Educando para a Cidadania funciona, portanto, como uma espécie de espelho. A comunidade consegue mostrar seus anseios e, ao mesmo tempo, enxerga o que precisa ser visto. Esse trabalho gigante que envolve escola, professores, alunos, família e moradores da comunidade se faz importante, à medida em que incentiva a participação ativa de todos e promove uma troca de ideias, conhecimentos, problemas e soluções, de forma a garantir a liberdade de expressão e o direito à comunicação. O projeto segue, apesar das dificuldades, alimentado pela paixão e o orgulho dos seus participantes, como Gustavo Bluhm: "Buscando ultrapassar todas as limitações, como a falta de recursos e um espaço físico para o desenvolvimento das atividades, seguimos por amor, certos de que fazemos algo muito bom por nossa escola".

Abrindo os muros escolares
A mãe de Gustavo, Paula Bluhm, se orgulha do fato de o filho fazer parte de algo tão importante para a comunidade. Depois de trancar os estudos quando mais nova, Paula - por incentivo do próprio Gustavo - retornou ao Ginásio do Areal para concluir o Ensino Médio, através da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Frequentando a escola, ela percebeu como é forte o envolvimento dos alunos com o projeto e afirma que todos são incentivados a participar. O jornal coloca a comunidade dentro da escola e promove a integração entre pais, alunos, funcionários e amigos, através de "temas e assuntos que, até então, estavam dentro dos muros do colégio". Os trabalhos são expostos e, desta forma, os familiares podem ter contato com o que é produzido lá dentro.

Tiffanni Rosa foi membro do Grêmio Estudantil e estudou do sexto ano do Ensino Fundamental até o terceiro ano do Ensino Médio no Ginásio. É moradora do bairro onde a escola é situada. Ela, agora, faz faculdade de Matemática, mas sonha em mudar para Dança. Sempre envolvida com as questões acadêmicas, ressalta a importância de tornar a comunicação entre escola e comunidade mais fácil e divertida. Esse foi o principal papel do jornal: "Fazer com que eles (moradores) percebam que o importante não é só quem está na escola, mas que as pessoas do lado de fora também são importantes". É criado um sentimento de pertencimento e, consequentemente, orgulho. "As pessoas dizem que são da escola Areal, a escola da orquestra, a escola do jornal", justifica Paula.


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