Iniciativa

O chamado é para olhar com o coração

Projeto da Escola Estadual Doutor Augusto Simões Lopes procura promover a cultura da paz

15 de Junho de 2019 - 09h06 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Através de relatos reais, alunos são convidados a olhar o colega de maneira diferente (Foto: Paulo Rossi - DP)

Através de relatos reais, alunos são convidados a olhar o colega de maneira diferente (Foto: Paulo Rossi - DP)

Com os olhos vendados, estudantes se emocionam ao se deparar com os relatos (Foto: Paulo Rossi - DP)

Com os olhos vendados, estudantes se emocionam ao se deparar com os relatos (Foto: Paulo Rossi - DP)

Porta fechada, alunos do lado de fora da sala e um convite: Olhando com o coração. Desde março, a professora de Português da Escola Estadual Doutor Augusto Simões Lopes, em Pelotas, passou a desenvolver o projeto que tem um objetivo central: promover a cultura da paz. E para incentivar que situações de agressividade sejam respondidas com empatia, não só no ambiente escolar, a professora Luciane Morales recorreu a relatos dos próprios estudantes.

Com caneta e folha em mãos, os adolescentes receberam uma indagação: "O que, se você soubesse sobre minha vida me trataria melhor?" Foi o ponto de partida para alunos do 7º e do 8º Anos levarem as vivências ao papel. Em tom de desabafo, muitos trouxeram um cenário familiar pintado em tons sombrios: abuso de álcool e drogas, tentativas de suicídio, mães vítimas de violência doméstica, morte de parentes, depressão... Houve até quem substituísse as palavras pesadas por lágrimas.

"Queremos trabalhar as emoções e enfatizar que é preciso a gente se colocar no lugar do outro, para entender as atitudes que cada um tem", destaca Luciane. Batidas de porta. Palavras ríspidas. Conflitos recorrentes. Os episódios que poderiam soar como desaforo, não raro, escondem casos de sofrimento. Pedidos de socorro. "Sabemos que grosserias não se justificam, mas muitas vezes a gente não olha para o colega com carinho nem para pra escutá-lo." E o colega ora será outro aluno, ora será um professor ou funcionário. Todos devem ser enxergados com lentes de compreensão. É o apelo lançado em Olhando com o coração.

Narrativas viram áudio e ganham dinâmica com várias turmas
A autoria dos textos foi preservada. Todos os detalhes que poderiam indicar quem escreveu foram editados pela professora, para evitar que os estudantes, na faixa etária dos 12 aos 17 anos, ficassem expostos ou inibidos em extravasar. Após o pente-fino, portanto, as narrativas foram encaminhadas para jovens do noturno transformarem as memórias em áudio. Daí por diante o material poderia servir como chamamento a diferentes turmas e turnos, em uma dinâmica desenvolvida em grupos de no máximo dez alunos.

No começo deste mês, o Diário Popular foi até a Escola, no Simões Lopes, para acompanhar a atividade. Ainda do lado de fora da sala, os estudantes têm os olhos vendados. Com os braços apoiados sobre o colega da frente, eles entram e são conduzidos até almofadas distribuídas em um labirinto de livros. Já acomodados, preparam-se para ouvir os relatos. Uma média de quatro a cinco histórias. Ao final, ainda antes de tirarem as vendas, a música Trem bala amarra a dinâmica e reforça o recado: "... E assim ter amigos contigo em todas as situações..."

Em geral, a cena é a mesma: um silêncio ensurdecedor toma conta do ambiente. De alguma forma, os alunos se sentem impactados. Se já não enfrentaram situação semelhante em suas casas ou famílias, na maioria das vezes, conhecem alguém que já precisou superar algo parecido. É, de novo, mais uma oportunidade para a professora Luciane Morales chamar à reflexão: "Todo mundo tem o poder de se reerguer diante das dificuldades", reforça. E lembra que, como amigos, podemos estar ao lado para facilitar caminhos e servir de amparo.

É uma mensagem que não se esgota ali. Por certo, espalha-se em conversas paralelas e extrapola os muros da escola.

"Não imaginávamos que pessoas tão novas pudessem estar passando por problemas tão sérios", admite a estudante do 1º Ano do Ensino Médio, Eduarda Boettge, 16, que virou voluntária do projeto. "É muito emocionante. Por mais que a gente já conheça as histórias, sempre nos toca", reitera João Víctor Ferreira, 17, também voluntário.

Na carona, vêm outras medidas
Ainda que a identidade dos desabafos esteja preservada, conforme a gravidade dos casos, a professora passou a verificar com a escola que tipos de ações poderiam ser desencadeadas para auxiliar as famílias e até evitar tragédias. Encaminhamento para apoio psicológico tem sido uma das alternativas. A intenção é de que o projeto extraclasse tenha continuidade no segundo semestre, com atividades que ajudem a elevar a autoestima da gurizada.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados