Atenção

O alerta deixado por situações de violência

Relatório da 5ª CRE alastra preocupação: cinco suicídios, 22 tentativas de suicídio e 40 casos de automutilação foram registrados no primeiro semestre de 2019 entre alunos da rede estadual

09 de Novembro de 2019 - 10h01 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Na escola Joaquim Duval, vídeos foram produzidos com o intuito de promover a empatia (Foto: Paulo Rossi - DP)

Na escola Joaquim Duval, vídeos foram produzidos com o intuito de promover a empatia (Foto: Paulo Rossi - DP)

O sinal é de alerta. O relatório da 5ª Coordenadoria Regional de Educação (5ª CRE) aponta: cinco suicídios, 22 tentativas de suicídio e 40 casos de automutilação. Os dados em alta referem-se ao primeiro semestre de 2019. E o mais preocupante: o balanço obtido através da Comissão Interna de Prevenção a Acidentes e Violência Escolar (Cipave) envolve alunos de apenas 59 escolas de um total de 125 instituições da rede estadual de ensino na Zona Sul. O cenário, portanto, tende a ser ainda mais alarmante.

"Os números nos assustam. Esta relação dos jovens com a vida e com a morte tem deixado todas as CREs extremamente preocupadas", afirma a titular da 5ª CRE, Alice Szezepanski. Em conversa de uma hora com o Diário Popular, a nova coordenadora não falou apenas neste desafio, que envolve ações desencadeadas em uma grande frente formada por família-escola-sociedade. Alice Szezepanski também fez apontamentos sobre pessoal, obras, transporte e fluxo de trabalho, após dois meses à frente do cargo.

Um ato de desespero, um grito de socorro
O ponto de partida é determinante: o aluno não é só processo cognitivo. Notas. Desempenho escolar. E é, justamente, por enxergá-lo na integralidade que os serviços precisam ocorrer em rede, incluídas diversas áreas, como Educação, Saúde, Assistência Social, Habitação e Segurança. "Se partirmos do conceito de que violência é uma necessidade não atendida, temos um leque de possibilidades que passa pelas questões familiar, social e escolar", destaca a coordenadora regional da Cipave, Dóris Noronha.

E ao buscar explicações para os dados, a psicóloga e pedagoga enumera fatores que contribuem a esse processo de desamparo e à fragilidade dos estudantes. Ausência da figura paterna e abandono afetivo. Baixa tolerância à frustração, em geral, associada à falta de limites. Relações sociais adoecidas, em meio a parâmetros impostos pela globalização e pela alta tecnologia, que ditam inclusive a regra da felicidade constante. "São relações que exigem respostas imediatas ou a pessoa fica excluída daquele tempo, daquele espaço, daquele grupo em que está inserida", ressalta Dóris. "Ninguém aprofunda nada e a relação se mantém na superfície."

A consequência: vazio interno cada vez maior. Sentimento de solidão ampliado. Desesperança. Para piorar, não raro, crianças e adolescentes estão mergulhados em um contexto de pressão, que cobra escolhas acertadas e resultados exemplares. Desespero. É um misto de situações que pode ter desfecho trágico. "Na ânsia de que a dor física supere a dor psíquica, eles acabam cometendo automutilações", preocupa-se a psicóloga. São mecanismos de sofrimento que estão por trás também dos casos de tentativa de suicídio e suicídio.

Uma aposta em gentileza e empatia
Os episódios de violência eram recorrentes. Situações de bullying e casos de destruição do patrimônio dentro da escola. Sem falar nas ocorrências de assalto, no entorno do Joaquim Duval, principalmente à noite. Em 2018, motivados pela obra Extraordinário - em que o garoto Auggie, portador de uma síndrome genética que provoca severa deformidade facial, gera um grande movimento a favor da gentileza -, professores e alunos deram início a um projeto para fomentar a empatia. Exercitar a condição de se colocar no lugar do outro. E deu certo.

Estudantes do 3º ano do Ensino Médio receberam a tarefa de produzir vídeos com essa temática. Roteiros criados, celulares em mãos, avaliação para disciplina de Português e a vontade de construir um ambiente mais acolhedor. E o resultado veio. Com o material pronto, a escola ganhava conteúdo próprio para estender a discussão para outras turmas - conta a orientadora educacional Míriam Fonseca da Silva.

A exibição dos vídeos juntou-se a outras ações, como palestra sobre depressão - em parceria com profissionais da Unidade Básica de Saúde (UBS) Py Crespo - e elaboração de um varal iluminado com mensagens de paz deixadas por alunos do Ensino Fundamental. Agora, prestes a darem início a nova caminhada, fora da escola, os adolescentes destacam os efeitos positivos. Dentro e fora da sala de aula - contam Víctor Reis, 19, Amanda Weber, 18, Caroline Nunes, 17, Gabriel da Silva, 18, Diogo da Fonseca, 17, João Pedro Herreira, 18, e Stefanie Brandstetter, 17.

Uma reflexão que repercute não só com mais respeito entre os colegas, como também na relação com os funcionários da escola, com olhar especial ao monitor Zé. A preservação da escola, diante da compreensão de que o espaço coletivo deve ser cuidado por todos, também aumentou. E as paredes ganharam inclusive cores, grafite e arte de estudantes e ex-estudantes.

Confira os dados da Cipave
* Suicídios
- Primeiro semestre de 2019: 5 casos - 3 entre estudantes de Pelotas e 2 entre alunos de São Lourenço do Sul
- Segundo semestre de 2018: nenhum caso foi registrado entre estudantes da rede estadual da área de abrangência da 5ª CRE

* Tentativas de suicídio
- Primeiro semestre de 2019: 22 casos registrados entre alunos de 13 escolas de Canguçu, São Lourenço do Sul, Pelotas, Jaguarão e Cristal
- Segundo semestre de 2018: 7 casos

* Automutilação
- Primeiro semestre de 2019: 40 casos
- Segundo semestre de 2018: 38 casos

* Violência física entre alunos
- Primeiro semestre de 2019: 216 casos
- Segundo semestre de 2018: 142 casos

* Agressão verbal a funcionários, professores ou direção
- Primeiro semestre de 2019: 85
- Segundo semestre de 2018: 68

* Bullying
- Primeiro semestre de 2019: 54 casos
- Segundo semestre de 2018: 71 casos

* Indisciplina
- Primeiro semestre de 2019: 363 casos
- Segundo semestre de 2018: 418 casos

(*) No primeiro semestre de 2019, 59 escolas repassaram os dados à 5ª CRE. No segundo semestre de 2018, o relatório foi entregue por 58 escolas; não necessariamente as mesmas instituições.

 


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