Tragédia

Novo incêndio atinge o Residencial Haragano

Sete famílias perderam suas casas consumidas pelo fogo na madrugada desta quinta-feira

20 de Fevereiro de 2020 - 20h03 Corrigir A + A -
Uma das casa que foi completamente queimada  (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Uma das casa que foi completamente queimada (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Moradores protestaram em frente à Justiça Federal (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Moradores protestaram em frente à Justiça Federal (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Após 70 dias, mais um incêndio atingiu o Residencial Haragano, localizado no Jardim Europa. No total, sete casas foram queimadas, sendo cinco totalmente e duas parcialmente. Não é de hoje que os moradores exigem respostas, pois enxergam, diariamente, os problemas estruturais aumentarem. O primeiro incêndio ocorreu em 10 de dezembro e até o momento os afetados seguem desabrigados. E, mais uma vez, famílias que planejaram a casa própria enxergaram esse sonho ir embora.


Quem acordou com o calor das chamas e assustado com os gritos foi a família de Édipo Gonçalves. Morador do condomínio desde a a fundação, o servente de obras mora com a esposa e quatro filhos. Os seis saíram somente com a roupa do corpo. "O chinelo que estou usando tive que comprar porque não deu tempo de pegar o meu", desabafou. Por enquanto, eles irão para a casa da sogra de Gonçalves, no Fragata. O lar que abrigava a família foi uma das casas mais destruídas, não sobrando absolutamente nada material, apenas tristeza e desolação. "Eu só pensei em salvar minha esposa e meus filhos", disse, emocionado.


Entre as sete famílias atingidas também está a de Loreni Rodrigues. Para ela, que cultivava um jardim e tinha prazer em ver a casa limpa, a cena atual é de terror. Pensionista, a idosa de 60 anos mora com o filho e o neto, e com as contas da casa em dia, questiona: "Quem vai assumir tudo isso?". Quem está ajudando a família Rodrigues é a vizinha Raquel. Ela teve a casa queimada parcialmente, e por questões de segurança resolveu se mudar por um tempo, então cedeu o espaço para quem, por seis anos, compartilhou o muro com ela. "Como vou para casa da minha irmã não poderia deixar eles desabrigados", completou. Em meio a tanta tristeza, Loreni já começou a receber doações para mobiliar a casa temporária, armários e um fogão chegaram na tarde desta quinta-feira (20).


A reportagem do Diário Popular entrou em contato com a Roberto Ferreira, que alega a existência de casas que utilizavam o dobro ou mais da carga projetada, desrespeitando o Manual do Proprietário. Além disso, adianta que irá impugnar o laudo da perícia elétrica, feita após o primeiro incêndio, por uma série de situações, como por exemplo, o mau uso das instalações elétricas e uso indevido de "T" e extensões, com vários equipamentos ligados ao mesmo tempo. "A impugnação deverá ser feita nesta sexta-feira", informou o diretor, Claudio Azevedo. A Caixa Econômica Federal (CEF) também foi contatada, mas até o fechamento desta edição não enviou resposta.

Protestos

Após o incêndio, cerca de 50 moradores protestaram na tarde desta quinta-feira em frente à Justiça Federal e a prefeitura. Aos gritos de "Queremos casa", o grupo cobrou uma solução. Na ocasião, aconteceu uma conversa entre o juiz que acompanha o caso, Cristiano Diniz, o advogado do Haragano, Fabricio Oliveira, e os moradores. Foi solicitado uma antecipação de tutela, ou seja, antes mesmo de analisar os laudos, uma solução de caráter emergencial. Agora, os autores aguardam a decisão do magistrado.

Mesmo quem não teve a casa queimada está assustado e esteve junto com quem acabou perdendo tudo. Quem se fez presente nos protestos foi Pamela Rodrigues. Também moradora do local desde 2014, a empregada doméstica teme a própria vida e a dos três filhos. Na atual situação, pensa em trabalhar mais para ter condições de arcar com um aluguel, e assim abandonar o sonho da casa própria. "Não posso colocar as nossas vidas em risco", falou.

Uma solução em meio ao caos

Em nome da Câmara de Vereadores, o vereador Marcola (PT) propôs que o parlamento pague, através do duodécimo, um aluguel social às 14 famílias desabrigadas - sete do primeiro e sete do segundo incêndio. A proposta já foi formalizada e agora aguarda que a prefeitura crie o projeto para que os parlamentares possam votar. Além disso, a prefeitura cedeu o Ginásio Municipal às famílias que queiram se abrigar, a partir desta sexta-feira (21) às 8h30min. Dependendo do número de pessoas, o local será organizado para fornecer alimentação, colchões, banheiros e segurança.

A perícia do primeiro incêndio

A perícia foi realizada pelo engenheiro Francisco Luzzardi, nomeado pela Justiça. Cada parte poderia levar um assistente técnico à ação. Dessas, apenas os autores e a Construtora Roberto Ferreira encaminharam um profissional. Após sete dias de análises, o laudo constatou vícios que afetam o desempenho de produtos e serviços, causando inúmeros transtornos por erros do projeto, da execução e da fiscalização, além da desconformidade com as regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e das leis municipais que regem o Plano Diretor.

O Diário Popular ouviu todos os envolvidos. Confira:

Roberto Ferreira
Laudo: Quanto às responsabilidades, o documento apontou a Roberto Ferreira pelos equívocos decorrentes dos projetos, da execução da obra e das desconformidades com as normas da ABNT.

O que diz: O diretor da construtora, Claudio Azevedo, afirma que todos os itens detectados na perícia já tinham sido identificados por eles, inclusive antes do incêndio. Além disso, alega que a intervenção para solucionar os problemas já tinha iniciado, e garante que 90 residências já haviam passado por reparos, mas o grupo foi impedido de entrar no Residencial para finalizá-las. "E tudo isto está documentado em cartório", garantiu.

Tecverde Engenharia
Laudo: Foi responsabilizada pelos vícios consequentes dos projetos e também pelo não cumprimento das normas da ABNT.

O que diz: Victor Horochovec, advogado da Tecverde, declarou ao Diário Popular que a empresa aguarda a conclusão de toda ação e reafirma não ter participação efetiva na construção e nem no projeto, apenas auxiliou a Roberto Ferreira no sistema Morar Melhor.

Caixa Econômica Federal
Laudo: A Caixa foi apontada como responsável pela falta de fiscalização dos projetos e das obras.

O que diz: O banco assim se manifestou a respeito - "Com relação ao Residencial Haragano, a Caixa esclarece que recebeu o laudo pericial, realizado a pedido do Juiz Federal titular da 2º Vara de Pelotas, e já está analisando o documento. A Caixa informa ainda que irá cumprir o prazo judicial e responderá nos autos do processo".

Moradores
Laudo: Os moradores e o próprio residencial também aparecem no laudo, e são mencionados pelos acréscimos na área construída e das instalações elétricas, assim como pela falta de manutenção preventiva, desrespeitando o manual do proprietário, convenção de condomínio e regimento interno.

O que diz: O advogado do Haragano, Fabrício Oliveira, é ciente quanto ao recebimento do manual, mas alega que nem todos os moradores foram contemplados com o informativo. No momento, os autores elaboram a manifestação sobre o laudo, que tem até o dia 18 de fevereiro para ser apresentada.

O Haragano

A edificação faz parte do programa Minha Casa, Minha Vida e foi entregue em 2014, com 280 unidades - sendo 270 sobrados e dez casas térreas. O residencial foi construído a partir da técnica wood frame - utilizando camadas de madeira tratada, com isolamento acústico e térmico, revestidas com gesso acartonado e placas cimentícias. Logo após a entrega os moradores já se queixavam de problemas estruturais, infiltrações e rachaduras.


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