Saúde

Mortes por diarreia e internações por bronquites em bebês reduzem com programa

Em Pelotas o PIM funciona desde o início, em 2003, e atende quase duas mil crianças, segundo a coordenadora Maria de Lourdes Botelho

17 de Dezembro de 2015 - 06h31 Corrigir A + A -

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       (Foto: Gustavo Mansur/DP) Aluno da Terapia Ocupacional da UFPel, com duas crianças de uma das 17 famílias que ele atende

A redução da mortalidade por diarreia em menores de um ano e das internações hospitalares por bronquites infantis em decorrência do desenvolvimento do programa Primeira Infância Melhor (PIM) no Estado são resultados constatados em estudo realizado pelos pesquisadores André Carraro e Felipe Garcia Ribeiro, do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a partir das linhas de pesquisas aplicadas em saúde. São alvo do trabalho as condições de saúde e desenvolvimento infantil. Em Pelotas o PIM funciona desde o início, em 2003, e atende quase duas mil crianças, segundo a coordenadora Maria de Lourdes Botelho.

A estudante de Psicologia da UFPel, Lauren Prestes, 20, monitora seis visitadores, que uma vez por semana vão às casas das famílias onde desenvolvem atividades do PIM, com foco na criança. Entre esses, Gabriel Teixeira de Ávila, 23, aluno de Terapia Ocupacional da UFPel. Sobre o trabalho? “É muito legal, sempre gostei de criança, tenho uma irmãzinha e é uma coisa natural. A gente aprende a lidar com as limitações e a entender que os processos são diferentes nas pessoas”, fala o estudante, que atende 17 famílias por semana.

Segundo Gabriel, às vezes as pessoas não se dão conta de que precisam estimular os filhos e que é possível a criança brincar aprendendo. Cada atividade tem um foco, que pode ser coordenação motora, socioafetivo, cognitivo, entre outros. Conforme atinge um certo nível de raciocínio, aumenta o grau de dificuldade, explica Lauren. E os pais têm que estimular a criança. A dona de casa Tatiane de Oliveira

Caleiro, 33, moradora na vila Farroupilha, faz parte do programa e recebe Gabriel em casa toda a semana. Tem três filhos, mas apenas as duas menores, Paloma de um ano e Victória de nove meses, participam do PIM. Guilherme está com seis anos, já em idade escolar, portanto não pode ser atendido mais.

“Eu gosto de fazer as atividades, apesar do meu dia a dia corrido. Tento fazer o melhor para eles. Isso vai ajudar as crianças futuramente. Está difícil de conseguir creche para elas e como são muito curiosas, gostam. Victória começou até a engatinhar depois do programa”, ressalta, ao comentar as atividades lúdicas que atraem suas filhas.

O programa tem como principal objetivo o desenvolvimento pleno das crianças em cada etapa dos primeiros anos de vida. Além disso, entre as metas do PIM estão a redução da mortalidade nos períodos neonatal precoce e tardio, no período infantil e na infância. Ao longo dos últimos 20 anos, indicadores de saúde têm apresentado resultados positivos substanciais em várias regiões ao redor do mundo, em especial no que se refere à taxa de mortalidade infantil. Os indicadores de mortalidade infantil (menores de um ano) e de mortalidade na infância (menores de cinco anos) no Rio Grande do Sul também têm acompanhado esta tendência.

Resultados

De acordo com os pesquisadores, as estimativas obtidas apontam que o PIM praticamente elimina o problema de óbitos por diarreia nos municípios pertencentes ao programa para crianças até um ano de idade. Além disso, reduz a mortalidade infantil gerada por causas externas, que incluem negligência. Os resultados encontrados também indicam uma redução da hospitalização por bronquite e uma redução nos nascidos com peso menos de 2.500 gramas, principalmente para os municípios com mais tempo dentro do PIM.

Com as estimativas do efeito do programa sobre os desfechos avaliados, é possível a realização do cálculo econômico da poupança gerada, tanto em termos de valor da vida quanto em poupança por internações evitadas. Conforme os resultados obtidos, municípios no PIM há um ano apresentam em média 2,34 internações por bronquite a cada mil crianças menores de cinco anos.

O custo médio de internação por bronquite em janeiro de 2015 foi de R$ 411,00 no Estado. Supondo que este valor seja constante em todos os meses do ano, o PIM “pouparia” em 2015 uma média de R$ 961,74 por mil crianças com menos de cinco anos por município. “Políticas públicas são necessárias em um país como o nosso. Precisamos estender sua eficiência, se geram impactos diretos, como na nossa pesquisa. Uma boa destinação para os recursos precisa ser discutida, ainda mais em época de crise”, destaca Garcia.

O estudo é desenvolvido há quatro meses e os pesquisadores investigam outros possíveis efeitos. Tem proposta com outros organismos internacionais de financiamento a estudo experimental de acompanhamento. O projeto vai se estender ainda por alguns anos, pois pretendem acompanhar o desenvolvimento das crianças que estão no PIM.

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                 (Foto: Gustavo Mansur/DP) As atividades visam promover a coordenação motora, afetiva e cognitiva dos pequenos

O que é

Política pública pioneira no Brasil, o Primeira Infância Melhor (PIM) é uma ação transversal de promoção do desenvolvimento integral na primeira infância. Baseia-se em visitas domiciliares e comunitárias realizadas semanalmente a famílias em situação de risco e vulnerabilidade social, visando ao fortalecimento de suas competências para educar e cuidar de suas crianças.

Tem como referência a metodologia do projeto cubano Educa a Tu Hijo, do Centro de Referencia Latinoamericano para la Educación Preescolar (Celep), de quem inicialmente recebeu apoio para a implantação e fundamenta-se teoricamente nos pressupostos de Vygotsky, Piaget, Bowlby, Winnicot e Brunner, além dos recentes estudos da Neurociência. Igualmente trabalha com referências multidisciplinares visando ao desenvolvimento integral da infância.

Está voltado para o desenvolvimento pleno das capacidades físicas, intelectuais, sociais e emocionais do ser humano, e tem como eixos de sustentação a Comunidade, a Família e a Intersetorialidade.

Compõe um dos projetos prioritários da Secretaria Estadual da Saúde (SES) do Rio Grande do Sul, além de integrar programas estratégicos do governo do Estado. É um dos pilares para as iniciativas previstas na Ação Brasil Carinhoso, do governo federal, e reconhecido como uma das tecnologias sociais mais consistentes para o cuidado com as infâncias na América Latina.

 


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